NO DIA DOS MEUS ANOS

 

OS TRES DA CASA

A casa estava cheia

Havia flores sobre a mesa

e o bolo mesmo que humilde,

reluzia qual árvore de Natal.

Os amigos chegavam

de olhos arregalados para os bonbons,

ou mesmo para o bolo pouco colorido

mas majestoso para todos nós.

Cantava-se desafinadamente os parabéns,

apagavam-se as pequeninas velas de pouca chama

e trocavam-se impressões sobre o próximo aniversariante.

Alguns nunca tinham tido um bolo mesmo singelo como este.

A gatinha da casa aproveitava a distracção dos alegres

convidados e dava mais uma lambidela no que restava do bolo.

Depois, cada um regressava às suas casas…..e eu lá ficava

imaginando como seria o próximo aniversário.

No dia dos meus anos, há muitos anos atrás, eu era feliz com o

pequeno bolo de aniversário o olhar bondoso dos meus pais e

avós bem como dos amigos que desafinadamente me

cantavam os parabéns a você.

A velha casa hoje está vazia e dos seus ocupantes apenas resta a

imagem em fotografias cinzentas dos seus amados rostos de

então.

No dia dos meus anos…há muitos anos, aquela casa estava cheia

e hoje continua cheia mas apenas das minhas recordações.

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AJPC

Colaboração no arranjo fotográfico : M João Vitorino

CORETOS

Coereto Zé coreto de Faro tavira

Esquecidos


Não se sabe ao certo quantos coretos existem em Portugal. A história dos coretos é longa, mas está cheia de silêncios. Eles surgem numa espécie de espaço à margem na história do urbanismo ou da arquitetura recentes. São raros os trabalhos publicados que consigam enquadrar de modo exaustivo a história dos coretos e o modo como a sua função se foi – ou não – alterando com o tempo, sobretudo os efeitos que teve neste tipo de equipamento urbano as novas formas de “consumir” música, desse o momento em que apareceu o disco, à rádio.

Revisitar os coretos


É neste ponto da história que, um pouco por todo o mundo, surgem novas ideias para devolver esses espaços à cidade contemporânea, com uma função mais ampla do que aquela para que foram inicialmente pensados, e outra vez, num momento em que modo de usar o espaço público se altera, com os centros urbanos a recuperarem vida. Inglaterra tem sido um exemplo. Muitos dos seus coretos foram destruídos nas duas guerras, o ferro de que eram feitos transformado em armamento, e parte dos que restaram foi vandalizada até que no final do anos 90 do século passado se iniciou-se um movimento de construção e restauro que teve no
Stanband Marathon, em 2008, um momento alto, com uma maratona de concertos que percorreu muitos locais do país. Os coretos voltavam ao circuito da música. Em 2013, um editorial do jornal britânico The Guardian elogiava o movimento numa data em que se iniciava a recolha de fundos para as obras de um, muito especial: ficava em Beckenham e nele tocou um muito jovem David Bowie no mesmo fim-de-semana em que nos Estados Unidos acontecia o Festival de Woodstock.

FONTE: “Visão” – Isabel Lucas

As três fotos que hoje publicamos dizem respeito aos Coretos algarvios de Loulé, Faro e Tavira. As fotos são respectivamente de José Costa, João Correia e Brígida Conceição.

CARLOS ALBERTO SANTOS….. UMA ESTRELA TERRENA QUE SE APAGOU

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Neste mês de Novembro, também conhecido por mês da saudade, já que é o mês do ano em que são mais recordados os que partiram deste mundo, morreu um grande artista. Carlos Alberto Santos, reputado ilustrador e pintor especializado em temas históricos, estando representado em colecções privadas e em museus de Portugal e estrangeiro, era muito admirado pelos amantes destas artes.

Nascido em Lisboa em 1933, começou o seu percurso artístico muito jovem, como desenhador. Em 1953, após três anos de trabalho, completou a História de Portugal para a a Agência Portuguesa de Revistas. A publicação constituiu o maior êxito da conhecida editora no campo do cromo e tem hoje um estatuto mítico nas memórias dos que a colecionaram durante os 20 anos em que foi vendida.

Contemporâneo dos nossos artistas louletanos José Baptista e Luis Furtado com quem trabalhou, Carlos Alberto Santos deixa um vazio enorme dentro do seu estilo de ilustrador..

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Fonte : Blog “ Crianças a torto e a direitos”

Fotos: gentilmente cedidas por Luis Furtado

ALGARVE: POENTES DE OUTONO

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“E eis o verdadeiro Algarve! O Algarve, depois da Escola de Sagres, é o poema de João Lúcio.”
Teixeira de Pascoaes

Província onde nasci, amada do luar
E o sol ruidoso, ardente, imorredoiro…
Lírio fresco e azul deitado à beira-mar,
Com o cálix gentil a orvalhar-se em oiro…

Nesse canto imortal de todo o Universo,
De florestas, de sóis, mares e cordilheiras,
Tu és, unicamente, um perfumado verso,
Feito em luar dormente, azul e laranjeiras.

Lindo verso, porém, dessa lira suprema,
Com hinos triunfais, auroreais, fecundos,
Que abrange a Vida toda e faz o seu poema,
Rimando montes, céus, oceanos e mundos.

Tens o rir jovial e a bonomia calma,
O dulcíssimo aspecto ingénuo das crianças;
O sol doira-te o corpo; a fantasia a alma;
Fala-te o céu de amor; fala-te o mar d’esp’ranças.

Que este livro te diga, oh terra aventureira,
Como o meu coração a voz te sabe ouvir:
Ele é singelamente uma canção ligeira,
Que tu lhe tens cantado e tenta repetir.

Quando os astros de noite, errantes e dispersos,
Vierem mergulhar nas águas do teu mar,
Vai ler-lhes mansamente estes humildes versos
Pra que digam a Deus como te sei amar.

João Lúcio
O Meu Algarve (1905)
(Agradecimentos ao Blog Porosidade Etérea )
– Fotos exclusivas de José Costa.