Louletania

As Bicas Velhas na actualidade

Tocadores junto das bicas velhas nos anos 30

Nestes dias de calor sufocante todos procuramos lugares  arejados e onde sobretudo haja água fresca. É o que acontece aqui pela Terra de Loulé, onde em tempos,  as Noras mouriscas, as fontes, os poços e as ribeiras tornavam mais aprazíveis a vida dos louletanos de então.
Mas apesar das novas técnicas de fornecimento de água dos dias de hoje, ainda restam  por cá, lugares  como o que a fotografia que publicamos, mostra.
As “ Bicas Velhas” de Loulé são o pouco que resta  no que diz respeito
a  fontes da nossa cidade.
No livro “ Quadros de Loulé antigo” de Pedro Freitas, a fls. 146 e em relação a estas Bicas, diz-se :” As quatro bicas  datam de 1837, e foram feitas do material do primitivo sino do relógio, que servira na torre da Matriz e ainda fora colocado na torre das muralhas, que, por estar arruinado, foi fundido neste ano. Estas bicas eram alimentadas por um potente filão de água. Raramente secavam na maior força do calor, e além de alimentarem numerosa gente com o precioso líquido, abasteciam o tanque das lavadeiras, que existia ao fundo, e mais o grande chafariz onde os animais bebiam.
Numa das duas fotografias que publicamos,  pode-se ver junto às velhas Bicas, um grupo de louletanos que preparavam uma das muitas serenatas que eram habituais nessa época.
Ainda conheci alguns deles sendo certo que já faleceram todos.


Uma voz endeusada com um timbre arrepiante. Uma força inigualável, vulcão de força e talento, um ser humano inesgotável de vivacidade e devoção. Era Amália, a nossa diva da música que continua presente num só nosso imaginário sonoro que ainda não esgotou.

Aos 79 anos, deixou o país cair em lençóis de lágrimas e anos de luto, a perda foi de tal modo grande que ainda hoje se relembra e celebra a alma de alguém cuja voz não é esquecida, cuja alma transpirou paixão.

Madalena Rugeroni


Durante algumas semanas vamos falar de proibições de outros tempos. Lógicamente que nos

referimos a leis, regulamentos e obrigações, do Portugal anterior à chegada da Democracia, ou seja, até 24 de Abril de 1974.

É bem verdade que tudo isto, à luz dos tempos de agora, nos parece quase impossível de ter acontecido, nomeadamente aos que não conheceram os quarenta anos de regime sob a batuta do Professor António de Oliveira Salazar.

E começamos pelo célebre « lápiz azul» tão utilizado pela censura durante esse período.

A imagem que apresentamos trata-se de uma foto de publicidade a um filme da época e em que a jovem à vista, não estaria decentemente vestida nem em pose correcta para anunciar um filme da altura. Assim levou com o respectivo carimbo do censor de serviço.

Do livro com o título: “ Proibido”, de António Costa Santos transcrevemos algumas linhas a propósito do tema de hoje:

“ Os censores da Comissão de Exame e Classificação de Espectáculos davam em ofício as suas razões para a proibição de certos filmes importados. Uns,não podiam simplesmente ser exibidos. Outros podiam passar nas telas, se sofressem alguns cortes indicados. As mutilações impostas, por vezes, tornavam a história incompreensível, mas isso não era problema de quem opinava. Os distribuidores deviam decidir se ainda valia a pena exibir as películas depois dos cortes. Era também obrigatório fazer visionar os filmes já legendados e as legendas eram censuradas. Claro que as várias cópias para exibição só eram todas legendadas, depois da aprovação da censura. “

Palma

Foto gentilmente cedida pelo nosso caro amigo Luis Furtado.


As fotografias que se publicam, são a verdade nua e crua de alguém que encantou milhões de fans em todo o mundo nas décadas de 1950 e 1960.
Brigitte Bardot , a loira de lábios carnudos e longos cabelos louros e uma das primeiras mulheres a usar bikini « desmazelou-se» quanto ao seu aspecto parecendo agora uma sombra do que foi. Conhecida por devoradora de homens (rsrsrs), diziam que se enjoava dos namorados com a
mesma facilidade com que os conquistava.
B. Bardot embora não tivesse tido uma carreira longa ainda participou em cinquenta filmes e gravou cerca de oitenta canções, sendo algumas delas de autoria de Gainsbourg , cantor compositor de grandes sucessos como o “Je t’aime mois …”.
Dedicada à protecção de animais e defensora do Snr. Le Pen, político da extrema direita francesa, escreveu em 2003 um livro intitulado “ Um grito no silêncio “ o qual causou enorme polémica, sendo acusada de exaltar o preconceito contra negros, homossexuais e imigrantes, fazendo com que grande parte da sua enorme legião de fans a tivesse quase esquecido, fixando-se apenas na sua imagem da loura e sensual cantora\ actriz de há décadas atrás.

Palma

Fotos: Net


Duarte Mendes, jovem actor do T.A.L. maravilhado com a velha máquina de projectar do Cine-Teatro de S. Braz de Alportel

Há algumas décadas atrás só algum público das três grandes cidades do país e algumas poucas capitais de província, tinham direito a assistir a grandes espectáculos. A aposta na reabilitação de muitos Cine-Teatros do país está a proporcionar ao público dessas terras, belos espectáculos quer musicais ou teatrais, que antes não podiam ser levados até esses lugares derivado à falta de estruturas.

Os melhores artistas estão assim a chegar à Província com mais facilidade. Que a descentralização cultural seja uma realidade com o apoio em conjunto de algumas autarquias permitindo assim mais baixos custos para espectáculos de qualidade.

O Cine-Teatro-Louletano está encerrado há já algum tempo prevendo-se a sua abertura para Setembro próximo. Loulé necessita de uma boa sala de espectáculos. Lembremo-nos que num dos concelhos turisticos mais importantes do país não existe nesta altura um só cinema sequer, de portas abertas.

Somos dos últimos, mas pelo que consta vamos ter uma bela sala e bem apetrechada.

A fotografia publicada mostra a velha máquina de projectar do Cine Teatro de S. Braz de Alportel, já remodelado, e onde o grupo de Teatro Análise de Loulé levou à cena há algum tempo a sua Peça “ Euro-Festival da Cançanita Louletana”.

Palma


Se não te portas com juízo não mamas !!!

José Vilhena é um dos maiores caricaturistas nacionais, de traço redondo e crítica acutilante.

Ao longo da sua vida foram muitos os dissabores que teve com a censura mas também certamente momentos de glória para quem como ele é um artista único no seu género. Os seus livros e as revistas por si editadas passaram já por várias gerações.

( Deixamos aqui um artigo sobre Vilhena, publicado em ”artes e letras por Seven “- Obvious)

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Entre os nossos desenhadores há um que se destaca pela sua longevidade e que é, quanto a mim, injustamente desconsiderado: José Vilhena. É um ilustrador, caricaturista e humorista de grande qualidade mas quase sempre foi apelidado de “porco” ou “obsceno”. O seu trabalho é mais profundo do que parece a que não é alheio o facto de Vilhena ter estudado Belas Artes (arquitectura) e revela mesmo uma formação bastante sólida nos seus escritos. Abandonou os estudos para começar a colaborar em jornais e revistas de humor. Durante os anos da ditadura escreve e ilustra cerca de 70 livros que lhe provocam numerosos problemas com a censura devido à sua veia satírica política e ao desenho de figuras femininas sensuais e provocantes. Chegou a estar preso por causa disso… Embora alguns livros fossem de sua inteira autoria também fez traduções de obras importantes como os Contos de Guy de Maupassant, Alphonse Allais e até um livro da série Petit Nicolas, traduzido como As broncas do Nicolau.

Depois do 25 de Abril as “mais amplas liberdades” abrem-lhe as portas para um humor mais livre (ou libertino) e de carácter sexual cada vez mais explícito. Publica de imediato a revista Gaiola Aberta que teve alguma notoriedade e sucesso de vendas. Posteriormente publica também O Cavaco e o Fala-Barato, entre outras. Se tomarmos em consideração a sua longevidade, a sua coerência, as suas qualidades gráficas e humorísticas e o facto de ter editado quase tudo sozinho talvez entendamos o seu verdadeiro valor. Infelizmente neste país ainda há muito preconceito e puritanismo e estes ofuscam tudo o resto…

Fotos: Ilustrações de José Vilhena


Poucas serão as pessoas que depois de tomar o seu lugar para uma viagem de avião, não se tenham interrogado se «aquela coisa» a meio do caminho não virá por ali abaixo. Ou então, sou eu a pensar que todos os outros são-me iguais.
Luís Santos Cruz, um apaixonado pela aeronáutica, lançou um livro que nos ajuda a nós, «medrosos», a vencer o medo de voar.
Diz ele que tecnicamente, os aviões são máquinas maravilhosas e que cada vez as inspecções às mesmas, são mais rigorosas.
Para terminar, e naturalmente para ajudar a tirar os «fóbicos macaquinhos» das nossas cabeças, Luís diz que segundo um estudo americano, entre 1987 e 1996, ocorreu apenas um acidente em cada sete milhões de voos.
“O Céu é o Limite “ é o título do livro que nos pode evitar muitas idas ao psicólogo, para nos tirar a fobia de voar.
Se Deus nos tivesse dados asas…..nada disto acontecia !!!
Palma

Foto: “ArteBlog”

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Daqui vejo todo o Universo!

E as nuvens, uma, duas, três..

Saúdam-me como se eu fosse uma delas.

Belas, são as nuvens, belas….

E eu aqui deitada sobre um mar de estrelas

Deixo meu olhos bem abertos

E fico assim, triste, a vê-las..

Belas são as nuvens, belas……

(Mica )


Para este fim de semana, deixamos aqui o registo de duas grandes vozes. Uma, da arte de dizer poesia e a outra, da arte de cantar. Falamos de Mário Viegas, actor falecido em 1996 mas que dificilmente cairá no esquecimento já que nos deixou quer em disco, em cinema ou na televisão, uma forma única de dizer poesia. O outro, o Pedro Barroso continua a sua viagem estrada fora, levando a muitos recantos de Portugal o seu canto, também ele feito de originalidade.

Palma

Aurora

Nascido do frio e da vertigem

um teimoso sol desponta em cada madrugada

com esse sol renasce também em cada homem

a esperança de um dia novo

distinto

absoluto e diferente

em que tudo pudesse acontecer

pela primeira vez

enchem-se então os olhos de espanto e de memória

e rebenta-nos uma saudade enorme do futuro

e uma sede tranquila de infinito

e em cada novo dia reaprendemos o ciclo

e em cada novo dia nos apaixonamos

e desistimos

e ressuscitamos

do enorme chão de água que nos cerca
Poema lido por Mário Viegas -


Partiu o João. Assim , de um momento para o outro, vitíma de um estúpido acidente dos que infelizmente acontecem tantas e tantas vezes . Andámos juntos na Escola Primária da Rua Ancha e na da “ Barreira”.

E ao longo da vida fomo-nos encontrando por aí , sobretudo porque como técnico de farmácia o João era um conselheiro, quase médico… daqueles que até sabem informar que este medicamento surte mais efeito do que aquele já que os anos trazem o saber, além dos cabelos cada vez mais cinzentos e uma ou outra dor no braço ou na perna.

Tinha combinado com ele ampliar a fotografia que hoje aqui vos deixo e entregar-lha por estes dias.

Foi tirada pelo nosso professor da 4ª Classe já lá vão umas décadas e é a única que possuo de toda a instrução primária..

Junto também aqui fica “ Canção de Infância “ uma canção feita por outros amigos nos anos sessenta e que pretendia contar nalguns versos como havia sido a nossa infância ( Autoria: António Clareza, Paulo Lopes, Sequeira Afonso e cantada por José Cheta da Silva ).

Uma humilde homenagem de saudade.

Palma


Quando descia ontem a Praça da República, a horas que o calor já abrazava, alguém de idade um tanto avançada perguntava:- Não acha que as árvorezinhas que aqui estavam eram como uma fonte para as nossa cabeças ? – Respondi-lhe que sim mas argumentando, que se diz por aí… que vão ser plantadas novas árvores ao longo dos passeios. Resposta pronta:- De que me serve isso ? Quando elas derem sombra já cá não estarei. Eu precisava delas…. era agora, nestes tempos em que ainda posso passear por aqui.

E na verdade há vinte e tal anos Loulé era na realidade um manto verde como se pode ver no postal ilustrado editado nessa altura.

Aqui deixo dedicado à anciã que hoje passou por mim e me questionou sobre as sombras de que tanto gostava, (parte) deste belo poema de Nicolau Saião.

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Gostava de ter árvores como alguns têm flores.
Árvores, muitas árvores: laranjeiras, pinheiros, uma oliveira ao pé
do mar, se eu tivesse uma casa a sotavento das dunas
como as que se adivinham em certos quadros de Cézanne
se a luz é muito clara e permanece
com velhos nomes gregos que não sei.
Nespereiras, limoeiros, uma que outra ameixoeira
parecendo, vistas de longe, ser
de uma substância estranha e desconhecida.
Não me importava, até, de em tardes de calor
ter dentro do meu quarto um abrunheiro donde pendesse
um decente e fraternal cadáver.

Gostaria de me rodear, um dia, de videiras
- essas árvores turvas da esperança -
e quando digo rodear sei o que digo, pois
queria que se enrolassem nos meus rins, nas espáduas
me descessem pelas pernas e lançassem
perto do meu sexo folhas novas
e que, ao lusco-fusco, enquanto no céu passam
os pequenos satélites mortais e luminosos que o desespero
do Homem lá coloca, por surpresa se transformassem
em plantas de gesso de frutos impensáveis.

Sei perfeitamente que uma árvore é um símbolo
obscuro da nossa vida, principalmente da nossa vida
que não houve. Mas mesmo assim
dentro das ruas, dentro das casas
as árvores têm um outro entendimento
um mistério muito delas
- e não completamente inventados -
pois não desprezam a agonia dos homens, o choro dos homens
o seu riso, a sua fome, os sinais todos
que o Homem podia e devia ter.

As árvores começam e acabam sem amor
e sem ódio.

(Nicolau Saião)


Hoje e amanhã , terão lugar na Casa da Cultura de Loulé pelas 21H30, duas representações do “ Auto do Ti’Jaquim” de António Aleixo, pelo Grupo de Teatro Arte de Viver da Universidade Sénior de Loulé.

“……… Como deixou escrito esse ourives e Mestre de Teatro – Gil Vicente, num dos seus autos, “ nós somos vidas de gentes e gentes de nossas vidas”, queremos então com este Auto do Ti Jaquim, homenagear todos os mestres de saberes que ainda exercitam os seus ofícios e todos os que povoaram as aldeias e vilas, com a sua criatividade neste vasto concelho de Loulé.

António Aleixo, Mestre da palavra, que a sabia burilar com o bisturi do seu sentimento e compaixão por tudo o que é humano, com especial respeito e carinho pelos deserdados, deixou-nos em quadras e autos , tão ao jeito de Gil Vicente, jóias universais cujos conteúdos a traça do tempo não rói.

Este Auto, podia muito bem ter acontecido na Barbearia Clareza, ali na rua das Lojas, onde Aleixo tantas vezes lançou quadras ao vento e se perderam, e, encantado com esta arte o Mestre Clareza, brindava-o noite fora com o dedilhar, tangido e dolente da sua guitarra, fazendo ambos, mais os fregueses e amigos, serões que resultavam na festa de almas irmãs, recordados para sempre como momentos de grande felicidade que se podem imortalizar nesta quadra : Goza mais um desgraçado\ num dia de felicidade\ do que qualquer abastado\ em toda a eternidade\…..

José Teiga (encenador do Grupo da U.S:L. )

Foto: Cartaz de autoria do Professor António Almeida


Fotografia de Palma - Louletania

O silêncio

Por Fundação José Saramago

Provavelmente está feito de suspiros o silêncio que precede o silêncio do mundo.

In Cadernos de Lanzarote, Diário IV, Editorial Caminho, 3.ª ed., p. 204


Os Cigarrinhos do nosso descontentamento…….

A “ Tabaqueira” , empresa portuguesa produtora de cigarros e que todos os portugueses conhecem, tal o número de vezes que ouvimos falar dela, foi fundada em 1917 por Alfredo da Silva.
Qual de nós não terá ao menos uma vez, entrado numa mercearia ou no café da esquina mais próximo, para comprar para o pai ou para um avô, um maço de cigarros que poderia ser Português Suave, Definitivos, High-Life ou mesmo outra entre tantas escolhas que existiam nesse tempo ?
Nessa altura, ainda longe dos avisos de hoje, impressos nos maços e que alertam para os perigos a que estão sujeitos os fumadores, nenhum de nós imaginava, da guerra aberta que existe na actualidade e em todo o Mundo, contra essas simpáticas embalagens de cigarrinhos que tantas vezes adquirimos.

Palma

Fotos: (- Blog – Coisasdeantigamente.blogspot.com

(- Anúncio brasileiro – anti-tabaco)



Trazemos hoje  à ” Louletania”  um pequeno filme produzido pelo nosso caro amigo Joaquim Leal onde podem ser vistas imagens de um Loulé de há umas gerações atrás sendo certo  que muitas das  construções ali retratadas já não existem.

É com alguma saudade que revejo aqui locais da minha infância. E mesmo que esse tenha sido um tempo bem cinzento  em váriados aspectos é sempre com alguma comoção que podemos voltar atrás no tempo  graças  a essa  descoberta com pouco mais de cem anos  e que se chama fotografia. Hoje  possuir uma máquina quetire 500 ou mais fotografias é coisa vulgar em relação ao tempo em que estas fotos que vamos ver foram obtidas.  Poucas pessoas se podiam gabar de possuir  uma «Kodak» como lhes chamavam naquela altura.


Louletania comemora hoje o dia de Stº António com um trono feito em seu louvor como manda a antiga tradição.

Fernando de Bulhões (verdadeiro nome de Stº António) nasceu em Lisboa no dia 15/8/1195 e faleceu a caminho de Pádua em 13 de Junho de 1231.
Padroeiro dos pobres, Stº António adquiriu grande renome como orador sacro no sul de França e em Itália. Ficaram célebres os seus sermões proferidos em Forli, Languedoc e em Paris. A ele foram atribuídos feitos prodigiosos, o que contribuíu para o crescimento da sua fama de santidade.
Aqui fica um poema dedicado a Stº António de Lisboa de autoria de um grande poeta português que a maioria dos portugueses conhecem.Refiro-me a Augusto Gil.

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Saíra Santo António do convento,
a dar o seu passeio costumado
e a decorar, num tom rezado e lento,
um cândido sermão sobre o pecado.

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Andando, andando sempre, repetia
o divino sermão piedoso e brando,
e nem notou que a tarde esmorecia,
que vinha a noite plácida baixando…

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E andando, andando, viu-se num outeiro,
com árvores e casas espalhadas,
que ficava distante do mosteiro
uma légua das fartas, das puxadas..

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Surpreendido por se ver tão longe,
e fraco por haver andado tanto,
sentou-se a descansar o bom do monge,
com a resignação de quem é santo…

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O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
o Menino Jesus baixou do céu,
pôs-se a brincar com o capuz do frade.

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Perto, uma bica de água murmurante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

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De braço dado, para a fonte, vinha
um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
ele trazia… o coração no peito.

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Sem suspeitarem de que alguém os visse,
trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
— Ó Frei António, o que foi aquilo?…

……………………………………………………………

O santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada,
mentiu numa voz doce como o mel:
— Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

…………………………………………………………….

Uma risada límpida, sonora,
vibrou em notas de oiro no caminho.
— Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
— Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

……………………………………………………………….

  • Tu não estás com a cabeça boa…
    Um passarinho a cantar assim!…
    E o pobre Santo António de Lisboa
    calou-se embaraçado, mas, por fim,

    ……………………………………………………..

Corado como as vestes dos cardeais,
achou esta saída redentora:
— Se o Menino Jesus pergunta mais,
… queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

………………………………………………………..

Voltando-lhe a carinha contra a luz
e contra aquele amor sem casamento,
pegou-lhe ao colo e acrescentou: — Jesus,
são horas…
———— E abalaram prò convento.

———————–Augusto Gil ————–

(a) Foto: Trono de Stº António .- Palma



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