Humilde homenagem neste 25 de Abril

No dia de hoje comemorando mais um ano sobre essa data que mudou definitivamente Portugal, lembramos aqui os quase novecentos mil jovens que foram mandados para as guerras de Angola, Moçambique e Guiné, mas sobretudo os que dessa guerra voltaram amortalhados em caixas de pinho e com madrinhas de guerra chorando nos nossos cais do desespero !

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Madrinha de Guerra, como se algo assim fosse possível de imaginar. Mas sim, existiam e serviam para escrever aerogramas aos soldados da guerra colonial. Algumas faziam-no com entusiasmo, por também precisarem de um ombro.amigo. Mas a guerra – essa era algo que nem sabiam bem porque existia.

Muitas, perdidas na angústia da distância que as envolvia numa tristeza diária, na esperança de um retorno muitas vezes não acontecido, tentavam construir os seus afectos. Divididas nem mesmo sabiam o que tinham com África esse continente distante que lhes engolia quem mais pensavam querer.

Muitas fingiam uma calma aparente e ninguém falava nos mortos e estropiados abertamente, tabu necessário à sobrevivência do regime.

As mulheres construíam os seus sonhos com pessoas que mal conheciam, na ânsia de amarem e serem amadas. Amavam perdidamente as poucas linhas que lhes chegavam, alimento das feridas tão fundas num mundo tão desigual.

Mesmo quando viam os imensos cortejos de gentes chorosas que seguiam nos funerais, caixões de chumbo, corpos lacrados de jovens ou de pedras. E um povo assim sofrido é manipulado nas mais absurdas ideologias de dominação, as mortes tinham de fazer sentido, os inválidos tinham de ser vingados, os loucos tinham de ser esquecidos, os desertores eram clandestinos e chamados de fugidos a salto. Salto porque saltavam a fronteira da Espanha a pé sem serem vistos ou tentavam que assim fosse. Idos para terras que nem a língua conheciam procurando trabalho sendo certo que o mais miserável eras-lhes o reservado como favor.

A água salgada cria laços de diálogo entre as diferenças, onde as lágrimas das mulheres são intensas, cansadas de ficarem sozinhas. Acreditavam porém que poderiam, sendo madrinhas, ter um coração aberto e correspondido. Perdidas nessas fantasias, a guerra impunha-se na chegada ou nos enterros de homens desconhecidos e atormentados, para quem elas haviam escrito, durante anos, todos os seus mais íntimos e inventados segredos.

Texto de Constança Lucas

Sexta Feira da Paixão

Da eternidade, tu és, sobre tua cruz manchada de sangue, mais majestoso e mais soberbo que mil reis com mil tronos e mil reinos.E tu és, entre a agonia e a morte, mais poderoso e mais temível que mil generais com mil exércitos e mil troféus.Tu és, na tua melancolia, mais alegre que a primavera com suas flores.Tu és, nas tuas dores, mais sereno que os anjos em seu paraíso.Tu és na mão dos carrascos, mais livre que a luz do sol.A coroa de espinhos em tua cabeça mais formosa e mais augusta que a coroa de Buhram, e o prego na palma de tua mão é mais imponente que o ceptro de Muchtary. E as gotas de sangue que correm em teus pés são mais brilhantes que as jóias de Astarté. Perdoa, pois, a esses fracos que se lamentam sobre ti, em vez de se lamentarem sobre si mesmos.Perdoa-lhes porque não sabem que venceste a morte pela morte, e deste vida aos que estão nos túmulos.” Khalil Gibran, (Tirado do livro Parábolas) ………………………………………………………………………………
As velhas tradições da Semana Santa tal como outras, estão desaparecendo lentamente por variados motivos. Loulé também foi terra de grandes procissões nesta semana há umas dezenas de anos atrás. Hoje os célebres andores  das procissões de quinta e sexta feira santas já não saem  e mesmo algumas dessas imagens que percorriam as ruas da cidade seguidas por multidões,  estão hoje recolhidos  sem qualquer  destaque  nos templos donde saíam.
Esta tarde ao passar pela Vila alentejana de Nisa deparei-me com um pequeno templo onde se faziam os preparativos para o  «Enterro do Senhor » nesta noite de sexta feira santa, sobre o olhar  admirado de duas ou três crianças e a devoção de algumas senhoras idosas.
—- Imagem : captada na tarde de hoje na Vila de Nisa durante a preparação para a procissão desta noite.

A D A M A S T OR

Trazemos hoje aqui, um poema do grande Manuel Maria Barbosa du Bocage,

dedicado ao  tão célebre mostrengo da nossa infância, tantas vezes estudado  nos pequenos manuais de História de Portugal  e que tanto amedrontou muitos de nós por o julgarmos  real.

Os tempos mudaram e certo é, que de longe a longe outros mostrengos nos surgem no horizonte. Com pomposos nomes  escritos em maíusculas tais como FMI, BCE e outros parecidos, nunca estamos livres afinal de um novo e terrível  Adamastor quer venha do fundo do mar ou das civilizadas terras do outro lado da velha Europa.

Poema: Bocage

Imagem: Aguarela de Luís Furtado

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Adamastor Cruel! De Teus Furores

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Adamastor cruel! De teus furores
Quantas vezes me lembro horrorizado!
Ó monstro! Quantas vezes tens tragado
Do soberbo Oriente os domadores!

Parece-me que entregue a vis traidores
Estou vendo Sepúlveda afamado,
Co’a esposa e co’os filhinhos abraçado,
Qual Mavorte com Vénus e os Amores.

Parece-me que vejo o triste esposo,
Perdida a tenra prole e a bela dama,
Às garras dos leões correr furioso.

Bem te vingaste em nós do afoito Gama!
Pelos nossos desastres és famoso.
Maldito Adamastor! Maldita fama!

Bocage, in ‘Rimas’