Loulé 1 de Novembro de 1755

MEMÓRIA DO GRANDE TERRAMOTO

Passados que são duzentos e cinquenta e seis anos sobre o grande terramoto do dia 1º de Novembro de 1755, aqui fica a memória escrita de um auto que existia na Câmara Municipal desta vila e que narrava assim o sucedido: ### Em dia 1 de Novembro das 9 para as 10 horas do dia, foi Deus Nosso Senhor servido mandar um terremoto tão valente e duração de 10 minutos até um quarto de hora, que derrubou quasi todas as casas desta villa, e as que não caíram ficaram inabitáveis; padeceu a Egreja Matriz estrago tão grande e não caíu de todo,o mesmo a Egreja de S. Francisco e a dos Capuxos e Santo Antonio. Caíu a Egreja da Graça e todos os mais templos padeceram na forma referida; partiram-se as torres do Castello, caíndo muita parte dos seus muros e caíu a Torre da Vela. Da torre da Matriz caíu o relógio e se desfizeram as grimpas. Morreram quatro mulheres, a filha do Dr. Francisco Gouveia de Abreu na sua casa junto ao muro das Religiosas, na praça; outra na Egreja da Graça com as pedras do Arco da Capella dos Passos; outra aos muros que dão para a Horta D’El Rei onde chamam a porta nova, e outra, vinda da Egreja. Morreram mais três crianças, uma filha de Abreu Martins, outra filha de F. Neto. Caíu muita parte do Convento das Religiosas e por isso se lhe fez acomodação em uma cabana na sua cerca, e saíram muitas para as casas dos seus parentes com ordem e licença do seu Prelado. Caíu a Cadeia, saíndo dela todos os presos. Morreu um menino de Manuel Andrade Oleiro. Na Egreja de Boliqueime, morreu muita gente e em Quarteira levou o mar tudo, afogando oitenta e sete pessoas, grandes e pequenas. A Câmara teve de fazer a sua sessão em uma casinha da Rua Ancha que foi de António Correia por não haver casa capaz em outra parte. E para que os vindouros conste o referido, mandaram escrever esta notícia, que todos assignam .——————————————————————————–

(In Monografia do Concelho de Loulé de Ataíde de Oliveira) – Foto: Capela do Convento de Stº António na actualidade – Louletania )

Poema erótico de Bocage

II  [SONETO DO EPITAPHIO]

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daquelles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:

Não quero funeral communidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gattarrões, gente de malta,
Eu tambem vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada edosa
Sepulchro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitaphio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".

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Autor :Manuel Maria Barbosa du Bocage

Foto: Setúbal – Casa onde nasceu o poeta Bocage

OS ÍNDIOS DO BRASIL

Podemos colocar a pergunta hoje nestes termos: QUE MAL FIZERAM os Índios do Brasil para terem sido dizimados desta maneira ?
Calcula-se que haviam entre três a seis milhões de índios antes dos Descobrimentos.
Actualmente não passam de trezentos e cinquenta mil.
É possível que tenham sido dizimados ao ritmo de um milhão por século. Etnias inteiras foram riscadas do mapa levando consigo a sua cultura e contribuição que poderiam ter legado à identidade do País. Hoje o número de indígenas resume-se a 1/5 do que existia antes de Cabral chegar ao Brasil.
Das 216 tribos restantes, apenas 16 rejeitam o contacto com não – índios e mantém intactos os seus costumes.
Voltamos a perguntar: ERA PRECISO ?

A fotografia publicada é de autoria do fotógrafo francês Marc Ferrez e foi tirada em 1880 na tribo dos Índios Bororo- Goiás. \ – Educacional – Net Educ.

Poema para uma rua

 

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua. . .
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão Ferreira
À Guitarra e à Viola
(1954-1960)

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Foto:

Quadro a óleo de autoria de Luís Furtado sobre uma rua louletana

– Rua  Garcia da Horta – 1987