No dia dos meus anos…

Quando Eu For Pequeno

 

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
[pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria, in “O Livro Branco da Melancolia”

 

(Para a minha mãe, neste dia dos meus anos \ 29 de Janeiro de 2012)

No tempo em que beijar era pecado mortal !

“Era a um quilómetro de distância (risos). Era à janela e nos bailes, ao domingo e quarta-feira. Não é como hoje. Era uma lei e todos sabiam. Mas para namorar tinham de pedir aos pais. Os que não eram permitidos, os pais batiam (…) A avó era pobre e os pais do avô não deixavam porque eram ricos e queriam uma mulher rica. Os pais dele não foram ao casamento e até nos queriam matar. Na terra uma rapariga que andava com um rapaz, se ele a deixasse era raro ela casar, com medo que ela já tivesse sido beijada. Só quando estavam para casar é que se beijavam. Também faziam maroteiras como agora mas não se sabia. Um beijo na altura era uma desonra. Quando andavam na catequese já ensinavam que não se podia beijar. Agora depois da missa eles cumprimentam-se todos. Na altura “Ai Jesus!”

 
En t r e v i s t a realizada por Martin. \ Idade da Entrevistada em 1974: 32 anos
Fonte: ” Mundo Actual ” – Foto: “Notorius” 1946 com Cary Grant e Ingrid Bergman \ Beijo censurado quando da passagem do filme no nosso país.

BELEZA, CANTIGAS E OLÉ !!!!!!!

Apesar de ter na altura dezasseis anos, lembro-me perfeitamente de numa noite dessa época ter assistido no nosso Cine Teatro a um filme que enchia de luz e cor o écran do velho Cinema. Recordo-me do espanto que causava aquele colorido deslumbrante donde sobressaía o belo rosto da actriz espanhola Sara Montiel que nesse tempo arrastava atrás de si legiões de fãs. O filme cuja história já não me recordo, focava certamente os amores e desamores da bela Sarita, num enredo muito ao gosto de então.

Mas esses tempos já lá vão e Maria Antónia Alejandra Vicente Elpídia Isidora Abad Fernandez , mais conhecida por Sarita Montiel, tem hoje a bonita idade de 83 anos.
Descoberta por um homem influente de uma Companhia de Publicidade quando a ouviu cantar numa procissão da Semana Santa em Alicante, Sara Montiel aliando a sua extraordinária beleza à sua bonita voz, não lhe foi difícil atingir o estrelato na nossa vizinha Espanha.
Mas como o reino do cinema espanhol era muito pequeno na altura para uma estrela como Montiel, depressa lhe surgiram outras oportunidades sobretudo no México, passando depois para Hollywood onde chegou a trabalhar com Burt Lancaster, Charles Bronson, Mário Lanza e Gary Cooper entre outros.
Os filmes “La Violetera”, “ O Último Tango”, Noites de Casablanca” entre muitos mais, fizeram dela a maior actriz de língua hispânica durante décadas.
Ainda há pouco, muita gente se surpreendia com alguma fotos de Brigite Bardot na actualidade. Também Sara Montiel é hoje tal como Bardot uma sombra do seu passado.

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    • Foto a preto e branco – copy Net.
    • Foto a cores – Sarita na actualidade (trabalho de José Luís Nocito )

O Padre Nosso do Músico

Padre Nosso que organizais festas, santificado e bem pago seja o nosso trabalho, venham a nós os vossos convites e o respectivo arame, seja feita a vossa vontade tanto na igreja como no corêto, a remuneração de cada festa nos dai logo, perdoai-nos alguma nota desafinada ou algum toque falso, como nós vos perdoamos pedirdes abatimento no preço, não nos deixeis perder a embocadura nem firmeza na execução, livrai-nos dos ensaios, festas gratuitas e alvoradas.
Amem

 

(Publicado na Imprensa em 1939 )

Foto: Acordeonista . Ano (?)

Gentileza do nosso amigo Engº Luis Guerreiro