Neste Abril…. rogai por nós Senhora dos Aflitos

 

Neste dia em que comemoramos mais uma vez a chegada da tal madrugada a que se referiu Sofia de Melo Breyner, aqui vos deixo um novo poema de Manuel Alegre que parece servir às mil maravilhas para estes dias ….de muitos aflitos !

 

 

 

 

Balada dos Aflitos

Irmãos humanos tão desamparados
a luz que nos guiava já não guia
somos pessoas – dizeis – e não mercados
este por certo não é tempo de poesia
gostaria de vos dar outros recados
com pão e vinho e menos mais valia.

Irmãos meus que passais um mau bocado
e não tendes sequer a fantasia
de sonhar outro tempo e outro lado
como António digo adeus a Alexandria
desconcerto do mundo tão mudado
tão diferente daquilo que se queria.

Talvez Deus esteja a ser crucificado
neste reino onde tudo se avalia
irmãos meus sem valor acrescentado
rogai por nós Senhora da Agonia
irmãos meus a quem tudo é recusado
talvez o poema traga um novo dia.

Rogai por nós Senhora dos Aflitos
em cada dia em terra naufragados
mão invisível nos tem aqui proscritos
em nós mesmos perdidos e cercados
venham por nós os versos nunca escritos
irmãos humanos que não sois mercados.
Manuel Alegre

(In Livro : Nada está escrito )

 

CUMPRIU-SE A TRADIÇÃO ! VIVA A MÃE SOBERANA !

António Simões Zorro homem que mais vezes transportou o andor da Mãe Soberana. Foram 39 anos.

Cumpriu-se mais uma vez a velha tradição louletana de transportar a imagem representativa da Mãe Soberana da Piedade, padroeira de todos os louletanos, até à sua casa no Monte da Piedade.

A subida íngreme do cerro, ao ritmo da música da Banda Filarmónica Artistas de Minerva, é acompanhada pela população a exibir-se em manifestações diversas mas verdadeiramente sentidas. Em tempos passados, estes homens que transportam o andor da “ Mãe Soberana” eram considerados seres com capacidades sobre-humanas. Mas esta tradição, que é transmitida de geração em geração, de pais para filhos, tem vindo a perder-se. No entanto, há uma consideração especial por parte de todos os louletanos relativamente a estes homens que carregam a santa ao longo desta subida íngreme num ritmo acelerado.

A escalada do caminho que dá acesso ao altar da Nossa Senhora da Piedade é um documento espantoso da fé cristã nesta terra. Ao esforço gigantesco dos homens que transportam a Virgem, alia-se a força espiritual dos muitos fieis que, em vivas à Nossa Senhora, em passo vivo e na cadência musicada dos homens da banda, vão “empurrando”, no calor da fé e calçada acima, o pesado andor da padroeira.

Este cenário imenso da religiosidade louletana, de características tão locais como únicas, só pode ser sentido na alma de cada crente, quando vivido. Uma vivência feita de fervor religioso e de testemunho cristão, cuja explicação reside unicamente na essência dogmática da própria fé.”

Fonte: Algarve Central

Imagem: Palma

2ª Foto: António Simões Zorro é o louletano que mais anos levou aos ombros o andor da Mãe Soberana da Piedade. Nada mais nada menos do que 39 anos. A foto foi obtida há cerca de uma hora quando António Zorro via passar à sua porta mais uma vez e com grande emoção, o andor que tantas vezes transportou com outros louletanos.

CAMINHO DA MANHÃ……

Sophia de Mello Breyner poetisa portuguesa das maiores, escreveu o texto que a seguir se reproduz, durante uma das suas muitas estadias de Verão nos arredores de Lagos. Tratava-se de um recado a uma sua empregada, explicando o caminho que ela deveria percorrer até encontrar os produtos necessários para as refeições daquele dia ….

 

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” Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. (…)” Sophia de Mello Breyner Andresen – O Caminho da Manhã

 

Foto: Postal antigo de uma vendedeira de Lagos.

 

 

Recordando o Corridinho, Bailadores e Tocadores de Fole

Na arte de bem dançar o Corridinho, que está para o Algarve como as valsas estão para Viena, muitos bailadores ficam para a história da região como, Joaquim Leal, Miguel dos Santos, Galinho, Amaro Bom, “Pechalhá”, “Cangola”, Virgílio Carminho ou os irmãos Fantasia.

Refiram-se também os grandes nomes do acordeão do Algarve, que tocaram acompanhando o balho mandado, o corridinho com os seus passos vivos, ou as rodas que animavam os bailes populares, como José Ferreiro (Pai), António Madeirinha, José Granja, Marum, José Padeiro, António Mestre, Armindo Barbosa, João Bexiga, Daniel Rato ou, mais recentemente, Custódio Serôdio, Álvaro Carminho, Fernando Inês e Hermenegildo Guerreiro.

(Fonte. Observatório do Algarve – Foto : Grupo Folclórico de Faro )

 

 

CORRIDINHO, CORRIDINHO


Meu Algarve das baladas,
não és bem como te cantam.
Mais que moiras encantadas
tens moiras que nos encantam.

Refrão:

Corridinho, corridinho,
antes que a morte apareça
corridinho, corridinho,
vamos lá viver depressa.

Cava a terra, pisa o mosto,
puxa a rede e continua.
A ‘balhar’ até dá gosto
o suor que a gente sua.

Refrão:

Corre, pula, rodopia
até manhanita, moça.
Já alugámos o dia
mas a noite é toda nossa.

Refrão:

Tia Anica da Fuzeta,
Tia Anica de Loulé
da barra da saia preta
ou da caixa de rapé.

Refrão:

Fala, fala se és capaz,
cantorica, bailarica,
que no céu não poderás
já sem corpo, Tia Anica.

Refrão:

Letra: Leonel Neves
Música: António Vinagre
Intérprete: Grupo Coral de Portimão