Quadras de poetas algarvios

Há muita gente que julga que os mais consagrados poetas do Algarve não se interessavam por poesia popular. Nada mais errado. Até mesmo o Fernando Pessoa escreveu muitas quadras populares, que serviram para vender dezenas de manjericos, durante anos a fio, no Cais do Sodré, ou junto à estátua equestre do D. José, nas noites festivas de S. João e de Stº António.

Para que sirvam de exemplo, aqui ficam, extractadas da imprensa da época, algumas quadras populares:

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Não digas que me amas

A ver se tenho ciúme

Os laços de amor são chamas

E não se brinca com lume.

 

(João de Deus)

 

Deus criou o sol num dia
E noutro fez o luar.
Mas, p’ra fazer os teus olhos,
Levou um ano a pensar

 

(João Lúcio )

 

Beijos puros não há hoje,
Nem mesmo esses que eu te dei!
– Eu sei lá quem tu beijastes!
Sabes lá quem eu beijei!

 

(José Dias Sancho )

 

Ó alcachofra, Deus queira,
Por amor de nós, os dois,
Que tu morras na fogueira
E ressuscites depois.

 

(Emiliano da Costa )

 

Nas voltas tontas do mundo
Mais tonta coisa não vi,
Tu, tonta, à roda dum mastro,
E eu, à roda de ti!…

 

/Armando Miranda )

 

 

 

Os meus olhos choram sempre
Quando me lembro, meu bem,
Como foi que tu morrestes,
Sem que eu morresse também!

 

(Lutgarda de Caires )

 

Meu amor, vê se te ajeitas
a usar meias modernas,
dessas meias que são feitas
da pele das próprias pernas.

 

(António Aleixo )

 

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Fonte: Promontório da Memória – Jose Carlos V. Mesquita

Fotografia: Mastro de S. Joao – Blog : Mais Pernambuco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OS BANHOS DE ANTIGAMENTE

Até finais do século XIX ter a pele bronzeada era sinal de pobreza. Só os camponeses, que tinham de trabalhar de sol a sol para garantir uns trocados pegavam uma corzinha. Nos países escravistas, como o Brasil, isso podia fazer com que a pessoa parecesse uma escrava e isso ninguém queria naquela época de violência racial. Mesmo o mar, tão bonito, era só para ser admirado. Não passava pela cabeça de uma dama lançar-se à água e nem havia roupas apropriadas para isso. Claro que já devia rolar uns banhos de riacho, mas bem na moita e cercados pelos cuidados das mucamas.
Acontece que o final do século XIX é o auge do cientificismo. Houve uma revolução de pensamento em diversas áreas. São os médicos que vão começar a indicar os banhos de mar, dizendo que é saudável, como também os de rio, de águas termais, etc. O próprio sol – de vilão passa a amigo – ao menos um pouco de exposição a ele era bem vinda. Não fiquem pensando que rolava alguma marquinha de biquíni ou algo parecido. É na Belle Époque que surgem os primeiros trajes de banho, uma espécie de macacão. Compostos por uma espécie de calçolas e uma blusa um pouco mais cavada. Nada sexy. Quer dizer, não para nós que hoje já chegamos ao fio dental, mas uma mulher sem anáguas e metros de tecido sobre o corpo já era algo muito provocador. Imagine quão agradável seria dar um mergulhinho com isso?

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(Texto e foto: Autores desconhecidos – Net )

O CINEMA DO NOSSO CONTENTAMENTO

O CINEMA DO NOSSO CONTENTAMENTO

 

 

Atores como António Silva, Vasco Santana ou Beatriz Costa são como que parentes chegados de todos nós. Aqui a manha de Salazar deu na mouche.

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«Palerma ! Chapéus há muitos ! » E Vasco Santana franzia o sobrolho furioso, para o elefante do Jardim Zoológico que lhe roubara o vistoso adereço. Esta cena do filme “ A canção de Lisboa “ dirigido por Cotinelli Telmo em 1933, está tão presente na memória de todos como se se tratasse de um tema de actualidade..

E não o será ? A «comédia portuguesa» como se convencionou chamar a uma série de filmes humorísticos rodados nas décadas de 1930 e 1940 por realizadores afetos ao Estado Novo ou trabalhando em consonância com ele, reproduz com uma grande maestria os tiques e os preconceitos mais ou menos imutáveis da sociedade portuguesa urbana, e nomeadamente lisboeta: as relações de vizinhança, os namoricos, as invejas, as calúnias, as simulações, as alegrias e as tristezas. António Silva um ator que se tivesse nascido noutro país teria alcançado fama internacional, forma com Vasco Santana e Beatriz Costa o trio de estrelas mais brilhante do género, destacando-se uma constelação a que pertencem também Ribeirinho, Milú, Laura Alves,, Elvira Velez, Barroso Lopes, Erico Braga, Curado Ribeiro, Maria Eugénia, Maria da Graça, Maria das Neves e muitos outros nomes. Realizados por António Lopes Ribeiro, Arthur Duarte, Ribeirinho, Chianca de Garcia, Cotinelli Telmo, etc., fitas como A aldeia da roupa branca, O Pai Tirano, O Pátio das Cantigas, A menina da Rádio ou o Leão da Estrela, rodadas nos estúdios da Tóbis ou com o apoio técnico destes, fazem parte de todos nós tanto quanto os clubes desportivos em que irracionalmente nos revemos. A sua frequente passagem, ainda hoje, nos diferentes canais de televisão atestam, a par da venda de DVD, o interesse que continuam a despertar.

Claro que a ideologia salazarista, ainda que não citada está subjacente aos enredos destas comédias de enganos concebidas para fazerem esquecer os amargos de boca. Nem poderia ser de outro modo, num tempo em que o Estado autocrático controlava palavras, atitudes, gestos, pensamentos e emoções. Na década seguinte, porém, já sob a influência do neorrealismo italiano,haveriam de ser dados alguns passos mais arrojados, como no caso da comédia de Perdigão Queiroga “ Sonhar é fácil “, de 1951, um inesperado manifesto do cooperativismo abrilhantado pelo talento do «eterno» António Silva.

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O cinema italiano da época do fascismo de Benito Mussolini (1922-1943) produziu comédias populares de costumes semelhantes às que se fizeram em Portugal.

Fonte: “ 365 dias com histórias da História de Portugal – Autor: Luis Almeida Martins

Poster: “ Restos de Colecção”

AS RÉCITAS DA MINHA INFÂNCIA

Nos anos cinquenta e sessenta, poucos acontecimentos artísticos haviam na nossa vila de Loulé, para lá dos concertos das duas Bandas Filarmonicas ainda existentes e de um ou outro baile nas Sociedades Recreativas.

Com a chegada à nossa terra de um novo pároco italiano, o Padre Luís Celato, que trazia na sua bagagem mil ideias para a paróquia, Loulé passou por um período de criatividade e entretenimento como há muito não acontecia. Falamos hoje das famosas Récitas de S. Sebastiao. Tratavam-se de pequeninas representações teatrais cujos textos eram de autoria de uma paroquiana muito admirada na época, quer pela sua bondade quer pela sua verdadeira dedicação às crianças que frequentavam a paróquia. Chamava-se ela Rosa Cabrita, mas mesmo não sendo já uma jovem, era carinhosamente tratada por todos, por «Menina Rosinha Cabrita».

O Padre Luís Celato, que criara uma biblioteca no pequeno salão de festas da Igreja de S. Sebastião, aproveitando alguns textos de livros que havia trazido consigo, ajudou a organizar novas récitas, aproveitando adereços e tecidos emprestados pelos paroquianos . Tudo coisas muito simples mas que na época faziam o encanto de quem assistia, sobretudo as crianças que não tinham

oportunidade de ver ou assistir a espectáculos teatrais.

Fica aqui esta pequena e humilde homenagem a esta gente que deixou em muitos de nós o gosto por representar apesar da simplicidade das tais Récitas.

Foto: Brito | Foto Arte -Loulé ( já desaparecida).

Na imagem : da esquerda para a direita – Graça, Bela Caldeira, Inocência M Lima, Inês M Lima, Angelita, Inês e M.José Caldeira.