O Louletano que morreu no TITANIC

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Recordação da Exposição do Titanic em Lisboa

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Cópia de bilhete da viagem do Titanic

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Última foto do Titanic em viagem.

Eram 12:15 do dia 10 de abril de 1912 quando o maior e mais luxuoso navio transatlântico levantava âncora para a sua primeira viagem. Southampton, Inglaterra, fervilhava de emoção entre os passageiros que iam inaugurar o Titanic, os familiares e amigos que os viam partir ou os simples curiosos encantados com a fama já conquistada pelo navio. Haveria de ser coisa de pouca dura. Apenas quatro dias depois, o Titanic estaria afundado no Oceano Atlântico, juntamente com milhares de pessoas. Dos quatro portugueses que seguiam a bordo, um era algarvio e três madeirenses. Nenhum sobreviveu ao maior desastre marítimo em tempo de paz.

 

José Joaquim de Brito começou a grande viagem que foi a sua vida às 06:00 do dia 16 de abril de 1880 em São Clemente, Loulé, segundo o livro da paróquia. A data da tragédia dá-se na véspera de cumprir 41 anos. Em 1912, José de Brito, casado, era um homem de 1,62m, olhos acinzentados, cabelos castanhos, rosto comprido, nariz e boca regulares. Foi esta a descrição que que ficou assente no passaporte número 325 atribuído pelo Arquivo Municipal de Faro, e divulgado pela revista ‘Sábado’.

 

Munido deste passaporte, o algarvio haveria de embarcar em Southampton. O destino final era São Paulo, Brasil, onde pretendia reunir-se com os pais, que lá viviam e onde o próprio tinha vivido. Mas em vez de comprar uma passagem direta entre Inglaterra e o Rio de Janeiro, uma carreira regular à época, o algarvio decidiu fazer um desvio com passagem em Nova Iorque. José de Brito comprou um bilhete de 2ª classe, o que significa que gozava de um razoável nível de vida. O site Encyclopedia Titanica, que reúne informação sobre os mais de 1300 passageiros do navio, revela que o algarvio tinha o bilhete nº 244360, que custou à época 13 libras, que equivaleriam hoje a 1212 euros. A última morada indicada era Londres e o contacto era Fred Duarte, residente em 34 Mulgrave Street, Liverpool. Terá sido este a escrever ao Jornal de Notícias uma carta, publicada na primeira página a 27 de abril, a dar conta da morte de “um estimadíssimo rapaz”, português, de nome José de Brito, que seguia de Londres para Nova Iorque, donde iria depois para S. Paulo juntar-se com a família”.

 

Antes de embarcar no Titanic, José de Brito era já um viajante. Não se sabe como mas do Algarve viajou até São Paulo, onde trabalhou numa loja. Seguiu mais tarde para Itália e depois para Inglaterra, onde arranjou trabalho na agência bancária Pinto Leite & Nephews, que tinha escritórios abertos em Liverpool, Manchester e Londres. Foi nesta última agência que este dois anos, onde “alcançou gerais simpatias”, segundo relato do sr. B da Silva Salazar, que escreveu ao Diário de Notícias.

 

O bilhete para a segunda classe, significava que José de Brito iria viajar com algum conforto. O seu quarto teria secretária, sofá, armário e roupa de cama trocada todos os dias. Mordomias inferiores à 1ª classe do Titanic, mas semelhantes às encontradas nos melhores cómodos de outros navios da época. Aberto ao público, tinha ainda uma sala de fumar, biblioteca, sala de jantar e convés de passeio coberto. O que não tinha era passagem para as outras classes: 1ª e 3ª, onde viajavam os três madeirenses, mortos também no maior desastre marítimo em tempo de paz.

 

O nome de José de Brito e dos restantes 1316 passageiros, e dos quase 900 tripulantes, em que incluía o capitão Edward Smith, poderiam ter ficado na história como os primeiros a completar a viagem inaugural do Titanic. Mas na noite de 14 de abril de 1912 tudo se precipitou. Eram 23:40 quando o indestrutível navio chocou com um icebergue. Edward Smith ignorara os avisos do SS Californian, um barco que passava na zona, para a existência de grandes blocos de gelo.

 

Numa noite escura, sem nuvens na Lua e águas calmas, o Titanic, nome que deriva da palavra ‘titã’, os primeiros passageiros a acordados para a tragédia eram os da 3ª classe. O navio havia embatido no icebergue e grandes massas de água e gelo começaram a penetrar no indestrutível navio. Pouco depois da 01:00 do dia 15 de abril, o Titanic submergia nas águas atlânticas.

 

Não se sabe o que aconteceu aos portugueses. Se os corpos ficaram presos no navio por não haver passagem entre as diferentes classes, em particular para a 1ª onde estavam os botes salva-vidas, que como se veio a provar eram insuficientes para evacuar todos os passageiros, ou se afogaram nas águas gélidas do Oceano Atlântico. Os corpos nunca foram recuperados e, se foram, era impossível identificá-los, como se pode ler na página Encyclopedia Titanica.

********* Fonte : “In Algarve” Site de referência -Face Book –

Fotos: Google e Louletania

OS AMOLA – TESOURAS Profissão em extinção

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Há alguns anos que se diz estarem em extinção.

Quando os poucos que restam, passam às ruas das nossas cidades, vilas ou aldeias,tocando as suas flautas e extraíndo delas aquela conhecida melodia estridente e inconfundível, ainda há quem venha à janela ou à porta da casa para vê-los passar, ou mesmo para lhes pedir que afiem a faca ou a tesoura que com o passar do tempo ficaram em mau estado para serem utilizadas.

Os amola-tesouras fazem-se acompanhar de uma bicicleta e de uma roda feita de pedra de esmoril. Ainda existe em muitos de nós um certo fascínio que vem certamente dos tempos da infância, ao vermos soltar-se da pedra de esmoril em contacto com o metal, pequenas faíscas que fazem lembrar as cartilhas de fogo de artifício que se compravam antigamente pelos santos populares.

Certamente não resistirá por muito tempo esta velha profissão, já que hoje uma faca ou uma tesoura se adquirem com bastante facilidade e a preços módicos. Será cada vez menos provável que alguém espere um amola tesouras\facas para lhes afiarem as mesmas pois quando estas já não cumprem a sua função são deitadas fora e compram-se outras.

Por enquanto este que fotografei no dia de ontem, continua a fazer a sua ronda pelas ruas da cidade, fazendo-se anunciar ao som da sua velha flauta de som inconfundível.

A.C.

Fotos : 2 – Louletania; 1- obtida na Net.

Viva a Mãe Soberana de Loulé !

Madre 2 Mãe soberana 4 quadra à M Soberana

Quatro séculos depois, os louletanos continuam anualmente, no domingo de Páscoa e quinze dias depois, a homenagear a sua padroeira Nª Sª da Piedade com o mesmo entusiasmo e a mesma fé de sempre.

Aqui deixamos  duas fotos da festa deste ano e bem assim ” Uma Linda Quadra” escrita pelo poeta popular António Aleixo há algumas décadas atrás, glosada à Senhora da Piedade de Loulé.

Fotos: José Costa

 

A ÚLTIMA AJUNTADEIRA

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Na Rua dos Almadas, em Loulé e que outrora se designava por Rua do Arco do Chafariz, encontramos um pequeno espaço típico e familiar onde D. Maria Encarnação do Nascimento, conhecida por D. Sanita, trabalha como ajuntadeira.

Mal saíu da escola foi logo aprender o ofício, porque a dureza da vida e as circunstâncias dos tempos assim o exigiam. Mas D. Sanita confessa-nos, com a a sua simpatia irradiante: “ O meu sonho era ir para uma creche tratar de crianças, mas a vida não era fácil e eu precisava de ganhar, os tempos eram muito pobres”. Hoje reformada com uma modesta pensão, continua agarrada à arte de coser e ajuntar, soltando um desabafo: “ Hei-de morrer a trabalhar”.

Nascida e criada em Loulé, na Rua do Poço, trabalhou em lojas desde menina e moça, mas há mais de trinta anos que está instalada neste cantinho, próximo da Rua das Lojas, onde alia ao trabalho o gosto pelo convívio, pois muitas clientes habituais param na porta nº 10, não apenas para encomendarem algum serviço, mas também para dois simpáticos dedos de conversa.

Antigamente havia muitos sapateiros e lojas tradicionais e as pessoas deslocavam-se à “vila” para fazer compras e arranjar calçado ou peças de vestuário. Ainda hoje tem algumas clientes fixas que lhe pedem para fazer bainhas ou colocar fechos, fazer pequenos arranjos. Há roupa com um significado especial, com um valor sentimental e afectivo para quem a possui. Calçado já não arranja,apenas vestuário, pois a máquina que ali está parada não funciona por falta de uma peça.

Sobre Loulé e os louletanos considera que os tempos mudaram hábitos e costumes e que antigamente talvez existissem mais laços de afectividade. “ Era outra época. As pessoas ajudavam-se mais, eram mais amigas umas das outras “.

É um prazer falar com D. Sanita pela sua afabilidade, pela sua doçura, ela que é uma figura muito querida e estimada na cidade. E aquele espaço tão aconchegado, que chama a atenção de qualquer visitante que ali passa, é um espaço onde o afecto

e o gosto pelo ofício se misturam com uma visível devoção à Nossa Senhora da Piedade, a Mãe Soberana, padroeira dos louletanos, patenteada nas diversas imagens que decoram as paredes da sua simpática “oficina” e que sobressaem entre as máquinas, as tesouras, as linhas e outros utensílios e peças que também têm a sua história.

Na Rua dos Almadas…em Loulé, a vida tem um ar muito tradicional.

(a) Este texto publicado na Revista Raízes – Loulé identidade e cultura – é de autoria de Luis Monteiro Pereira, jornalista, poeta, funcionário público e que entretanto de forma inesperada nos deixou.