Louletania

Partiu o João. Assim , de um momento para o outro, vitíma de um estúpido acidente dos que infelizmente acontecem tantas e tantas vezes . Andámos juntos na Escola Primária da Rua Ancha e na da “ Barreira”.

E ao longo da vida fomo-nos encontrando por aí , sobretudo porque como técnico de farmácia o João era um conselheiro, quase médico… daqueles que até sabem informar que este medicamento surte mais efeito do que aquele já que os anos trazem o saber, além dos cabelos cada vez mais cinzentos e uma ou outra dor no braço ou na perna.

Tinha combinado com ele ampliar a fotografia que hoje aqui vos deixo e entregar-lha por estes dias.

Foi tirada pelo nosso professor da 4ª Classe já lá vão umas décadas e é a única que possuo de toda a instrução primária..

Junto também aqui fica “ Canção de Infância “ uma canção feita por outros amigos nos anos sessenta e que pretendia contar nalguns versos como havia sido a nossa infância ( Autoria: António Clareza, Paulo Lopes, Sequeira Afonso e cantada por José Cheta da Silva ).

Uma humilde homenagem de saudade.

Palma


Quando descia ontem a Praça da República, a horas que o calor já abrazava, alguém de idade um tanto avançada perguntava:- Não acha que as árvorezinhas que aqui estavam eram como uma fonte para as nossa cabeças ? – Respondi-lhe que sim mas argumentando, que se diz por aí… que vão ser plantadas novas árvores ao longo dos passeios. Resposta pronta:- De que me serve isso ? Quando elas derem sombra já cá não estarei. Eu precisava delas…. era agora, nestes tempos em que ainda posso passear por aqui.

E na verdade há vinte e tal anos Loulé era na realidade um manto verde como se pode ver no postal ilustrado editado nessa altura.

Aqui deixo dedicado à anciã que hoje passou por mim e me questionou sobre as sombras de que tanto gostava, (parte) deste belo poema de Nicolau Saião.

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Gostava de ter árvores como alguns têm flores.
Árvores, muitas árvores: laranjeiras, pinheiros, uma oliveira ao pé
do mar, se eu tivesse uma casa a sotavento das dunas
como as que se adivinham em certos quadros de Cézanne
se a luz é muito clara e permanece
com velhos nomes gregos que não sei.
Nespereiras, limoeiros, uma que outra ameixoeira
parecendo, vistas de longe, ser
de uma substância estranha e desconhecida.
Não me importava, até, de em tardes de calor
ter dentro do meu quarto um abrunheiro donde pendesse
um decente e fraternal cadáver.

Gostaria de me rodear, um dia, de videiras
- essas árvores turvas da esperança -
e quando digo rodear sei o que digo, pois
queria que se enrolassem nos meus rins, nas espáduas
me descessem pelas pernas e lançassem
perto do meu sexo folhas novas
e que, ao lusco-fusco, enquanto no céu passam
os pequenos satélites mortais e luminosos que o desespero
do Homem lá coloca, por surpresa se transformassem
em plantas de gesso de frutos impensáveis.

Sei perfeitamente que uma árvore é um símbolo
obscuro da nossa vida, principalmente da nossa vida
que não houve. Mas mesmo assim
dentro das ruas, dentro das casas
as árvores têm um outro entendimento
um mistério muito delas
- e não completamente inventados -
pois não desprezam a agonia dos homens, o choro dos homens
o seu riso, a sua fome, os sinais todos
que o Homem podia e devia ter.

As árvores começam e acabam sem amor
e sem ódio.

(Nicolau Saião)


Hoje e amanhã , terão lugar na Casa da Cultura de Loulé pelas 21H30, duas representações do “ Auto do Ti’Jaquim” de António Aleixo, pelo Grupo de Teatro Arte de Viver da Universidade Sénior de Loulé.

“……… Como deixou escrito esse ourives e Mestre de Teatro – Gil Vicente, num dos seus autos, “ nós somos vidas de gentes e gentes de nossas vidas”, queremos então com este Auto do Ti Jaquim, homenagear todos os mestres de saberes que ainda exercitam os seus ofícios e todos os que povoaram as aldeias e vilas, com a sua criatividade neste vasto concelho de Loulé.

António Aleixo, Mestre da palavra, que a sabia burilar com o bisturi do seu sentimento e compaixão por tudo o que é humano, com especial respeito e carinho pelos deserdados, deixou-nos em quadras e autos , tão ao jeito de Gil Vicente, jóias universais cujos conteúdos a traça do tempo não rói.

Este Auto, podia muito bem ter acontecido na Barbearia Clareza, ali na rua das Lojas, onde Aleixo tantas vezes lançou quadras ao vento e se perderam, e, encantado com esta arte o Mestre Clareza, brindava-o noite fora com o dedilhar, tangido e dolente da sua guitarra, fazendo ambos, mais os fregueses e amigos, serões que resultavam na festa de almas irmãs, recordados para sempre como momentos de grande felicidade que se podem imortalizar nesta quadra : Goza mais um desgraçado\ num dia de felicidade\ do que qualquer abastado\ em toda a eternidade\…..

José Teiga (encenador do Grupo da U.S:L. )

Foto: Cartaz de autoria do Professor António Almeida


Fotografia de Palma - Louletania

O silêncio

Por Fundação José Saramago

Provavelmente está feito de suspiros o silêncio que precede o silêncio do mundo.

In Cadernos de Lanzarote, Diário IV, Editorial Caminho, 3.ª ed., p. 204


Os Cigarrinhos do nosso descontentamento…….

A “ Tabaqueira” , empresa portuguesa produtora de cigarros e que todos os portugueses conhecem, tal o número de vezes que ouvimos falar dela, foi fundada em 1917 por Alfredo da Silva.
Qual de nós não terá ao menos uma vez, entrado numa mercearia ou no café da esquina mais próximo, para comprar para o pai ou para um avô, um maço de cigarros que poderia ser Português Suave, Definitivos, High-Life ou mesmo outra entre tantas escolhas que existiam nesse tempo ?
Nessa altura, ainda longe dos avisos de hoje, impressos nos maços e que alertam para os perigos a que estão sujeitos os fumadores, nenhum de nós imaginava, da guerra aberta que existe na actualidade e em todo o Mundo, contra essas simpáticas embalagens de cigarrinhos que tantas vezes adquirimos.

Palma

Fotos: (- Blog – Coisasdeantigamente.blogspot.com

(- Anúncio brasileiro – anti-tabaco)



Trazemos hoje  à ” Louletania”  um pequeno filme produzido pelo nosso caro amigo Joaquim Leal onde podem ser vistas imagens de um Loulé de há umas gerações atrás sendo certo  que muitas das  construções ali retratadas já não existem.

É com alguma saudade que revejo aqui locais da minha infância. E mesmo que esse tenha sido um tempo bem cinzento  em váriados aspectos é sempre com alguma comoção que podemos voltar atrás no tempo  graças  a essa  descoberta com pouco mais de cem anos  e que se chama fotografia. Hoje  possuir uma máquina quetire 500 ou mais fotografias é coisa vulgar em relação ao tempo em que estas fotos que vamos ver foram obtidas.  Poucas pessoas se podiam gabar de possuir  uma «Kodak» como lhes chamavam naquela altura.


Louletania comemora hoje o dia de Stº António com um trono feito em seu louvor como manda a antiga tradição.

Fernando de Bulhões (verdadeiro nome de Stº António) nasceu em Lisboa no dia 15/8/1195 e faleceu a caminho de Pádua em 13 de Junho de 1231.
Padroeiro dos pobres, Stº António adquiriu grande renome como orador sacro no sul de França e em Itália. Ficaram célebres os seus sermões proferidos em Forli, Languedoc e em Paris. A ele foram atribuídos feitos prodigiosos, o que contribuíu para o crescimento da sua fama de santidade.
Aqui fica um poema dedicado a Stº António de Lisboa de autoria de um grande poeta português que a maioria dos portugueses conhecem.Refiro-me a Augusto Gil.

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Saíra Santo António do convento,
a dar o seu passeio costumado
e a decorar, num tom rezado e lento,
um cândido sermão sobre o pecado.

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Andando, andando sempre, repetia
o divino sermão piedoso e brando,
e nem notou que a tarde esmorecia,
que vinha a noite plácida baixando…

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E andando, andando, viu-se num outeiro,
com árvores e casas espalhadas,
que ficava distante do mosteiro
uma légua das fartas, das puxadas..

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Surpreendido por se ver tão longe,
e fraco por haver andado tanto,
sentou-se a descansar o bom do monge,
com a resignação de quem é santo…

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O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
o Menino Jesus baixou do céu,
pôs-se a brincar com o capuz do frade.

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Perto, uma bica de água murmurante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

……………………………………………………………..

De braço dado, para a fonte, vinha
um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
ele trazia… o coração no peito.

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Sem suspeitarem de que alguém os visse,
trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
— Ó Frei António, o que foi aquilo?…

……………………………………………………………

O santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada,
mentiu numa voz doce como o mel:
— Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

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Uma risada límpida, sonora,
vibrou em notas de oiro no caminho.
— Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
— Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

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  • Tu não estás com a cabeça boa…
    Um passarinho a cantar assim!…
    E o pobre Santo António de Lisboa
    calou-se embaraçado, mas, por fim,

    ……………………………………………………..

Corado como as vestes dos cardeais,
achou esta saída redentora:
— Se o Menino Jesus pergunta mais,
… queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

………………………………………………………..

Voltando-lhe a carinha contra a luz
e contra aquele amor sem casamento,
pegou-lhe ao colo e acrescentou: — Jesus,
são horas…
———— E abalaram prò convento.

———————–Augusto Gil ————–

(a) Foto: Trono de Stº António .- Palma


No post anterior falámos dos grandes cartazes que anunciavam os espectáculos em Lisboa, do louletano e cenógrafo/pintor Luis Furtado e ainda do Cine/Teatro Monumental.

Naturalmente que hoje, falar de um artista que levou o público do Monumental ao rubro, nas muitas vezes que ali actuou, vem mesmo a calhar.

Falamos de Raul Solnado o grande actor português que faleceu o ano passado e que ao longo de 57 anos de carreira, fez revista e opereta, drama, comédia e musical, cinema e televisão, fez telenovelas e sitcoms, foi apresentador de concursos e talk-shows, especialista do nonsense, fez stand-up-comedy no tempo em que a expressão ainda não existia. Mas, se lhe perguntassem, dizia sem hesitar que era um actor cómico.

“O humor ou é fácil ou é impossível”, costumava dizer. “É um dom inato. Há pessoas que nascem com o dom, há outras que não o têm. A atenção que se dá ao mundo é fundamental. O humorista tem um ponto de vista muito especial sobre aquilo que o rodeia. Tem a habilidade de detectar o ridículo no seu semelhante. E serve-se disso.”

A primeira vez que percebeu o poder do riso tinha quatro anos. Estava no quintal, um pombo pousou-lhe no ombro e ele lançou um “foda-xe”. Os adultos riram-se, mas o pai pô-lo de castigo. Deve ter sido das poucas vezes que usou um palavrão para fazer rir, esse não era de todo o seu estilo. Preferia um “humor amável, não agressivo.”

Hoje vamos aproveitar para recordá-lo num programa na televisão brasileira, numa altura em que também por aquelas terras fez sucesso.

Palma: Fonte – D.N. – Artes


Quando nos finais dos anos sessenta, muitos de nós estivemos sentados na plateia de um desses pequenos cinemas de província ou numa grande sala de Lisboa, para ver “Camelot”, uma grande produção com Richard Harris, Vanessa Redgrave e Franco Nero entre outros, jamais imaginámos na altura, poder apreciar um dia, este ou outros filmes, em casa, sentado confortavelmente num sofá só nosso… e sem ter que esperar horas em filas para comprar bilhete.

Esse ritual tinha a sua magia é verdade. Mas os tempos mudaram muito na realidade.

Hoje pessoa amiga emprestou-me “ Camelot” em dvd e acabei há pouco de recordar este filme que havia visto há muitos anos do qual só guardava na memória algumas poucas cenas.

Grandes cenários, belos figurinos, excelentes fotografia e interpretações fazem de Camelot um filme que ainda vale a pena recordar.

A imagem que publicamos mostra o cartaz gigante que anunciava este filme no Cinema Monumental em Lisboa (1967 ) e foi da autoria do nosso caro amigo e pintor/ cenógrafo louletano Luis Furtado, a quem já nos referimos neste blog algumas vezes.

Segundo Furtado, há já alguns anos que se deixaram de anunciar os filmes quer em Lisboa ou noutras grandes cidades, com cartazes de grandes proporções como este que mostramos, pois as distribuidoras de hoje enviam com os filmes, o respectivo cartaz em proporções reduzidas não sendo assim necessário encomendar a artistas da especialidade a publicidade como era feita naquele tempo.

De qualquer modo, Viva a 7 ª arte ……cada vez mais perto de nós.

Palma

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Foto obtida em 1923 algures no Sul de França

Praia de Quarteira finais dos anos 5o - Foto cedida por Luís Guerreiro

Oficialmente abriu hoje a época balnear /2010. Habitualmente ela abre para muita gente, pelo menos aqui no nosso Algarve , às vezes em Março ou Abril. Mas este ano o inverno foi rigoroso e só agora o calor chegou.

A pequena fotografia que hoje aqui apresentamos foi obtida num Domingo de Verão nos idos anos cinquenta do século passado, na então Praia dos Pescadores de Quarteira .

É evidente que pela forma como vestiam as raparigas e os a rapazes, nunca poderia ser uma imagem obtida agora ou há poucos anos atrás. Aqueles vestidos compridos que elas ostentavam e os calções deles, acima do umbigo, não esquecendo nunca a camisola de interior, eram o permitido pela moral e os bons costumes da época. Sim, porque bons costumes….. não faltavam naqueles tempos.
Também é verdade que hoje, depois de termos passado pelo fio dental, bikini e monokini os homens já usam de novo calções abaixo do joelho. Não porque tivesse saído alguma disposição camarária ou governamental que o exigisse, mas porque lá pelas Américas alguém se lembrou de lançar o calção circense, ou seja o calção que os palhaços na nossa infância usavam nos espectáculos e que nos faziam rir pelo ridículo da vestimenta.
Mas de qualquer modo como neste espaço de tempo entre os anos cinquenta e os de dois mil, já se usou de tudo, se você tiver lá por casa uns antigos calções dos tais que chegavam quase ao pescoço pode usá-los sem receio, num destes domingos em qualquer das nossas praias da Louletania.
Certamente a maioria dos veraneantes nem sequer vai reparar, tão confusos eles estão quanto ao que se usa actualmente. Tudo afinal está na Moda ! Vamos a Banhos ?
Palma



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