
Louletania comemora hoje o dia de Stº António com um trono feito em seu louvor como manda a antiga tradição.
Fernando de Bulhões (verdadeiro nome de Stº António) nasceu em Lisboa no dia 15/8/1195 e faleceu a caminho de Pádua em 13 de Junho de 1231.
Padroeiro dos pobres, Stº António adquiriu grande renome como orador sacro no sul de França e em Itália. Ficaram célebres os seus sermões proferidos em Forli, Languedoc e em Paris. A ele foram atribuídos feitos prodigiosos, o que contribuíu para o crescimento da sua fama de santidade.
Aqui fica um poema dedicado a Stº António de Lisboa de autoria de um grande poeta português que a maioria dos portugueses conhecem.Refiro-me a Augusto Gil.
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Saíra Santo António do convento,
a dar o seu passeio costumado
e a decorar, num tom rezado e lento,
um cândido sermão sobre o pecado.
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Andando, andando sempre, repetia
o divino sermão piedoso e brando,
e nem notou que a tarde esmorecia,
que vinha a noite plácida baixando…
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E andando, andando, viu-se num outeiro,
com árvores e casas espalhadas,
que ficava distante do mosteiro
uma légua das fartas, das puxadas..
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Surpreendido por se ver tão longe,
e fraco por haver andado tanto,
sentou-se a descansar o bom do monge,
com a resignação de quem é santo…
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O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
o Menino Jesus baixou do céu,
pôs-se a brincar com o capuz do frade.
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Perto, uma bica de água murmurante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
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De braço dado, para a fonte, vinha
um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
ele trazia… o coração no peito.
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Sem suspeitarem de que alguém os visse,
trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
— Ó Frei António, o que foi aquilo?…
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O santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada,
mentiu numa voz doce como o mel:
— Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…
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Uma risada límpida, sonora,
vibrou em notas de oiro no caminho.
— Ouviste, Frei António? Ouviste agora?
— Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…
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- Tu não estás com a cabeça boa…
Um passarinho a cantar assim!…
E o pobre Santo António de Lisboa
calou-se embaraçado, mas, por fim,
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Corado como as vestes dos cardeais,
achou esta saída redentora:
— Se o Menino Jesus pergunta mais,
… queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!
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Voltando-lhe a carinha contra a luz
e contra aquele amor sem casamento,
pegou-lhe ao colo e acrescentou: — Jesus,
são horas…
———— E abalaram prò convento.
———————–Augusto Gil ————–
(a) Foto: Trono de Stº António .- Palma