A uma distância de quase cem anos…….

CIMG2653 Entreada de Loul

A rua na sua configuração não parece ter mudado muito nestes quase cem anos. Mas reparando em pequenos pormenores, ela já não é a mesma, nem poderia ser. Gente que já partiu e portanto nela já não mora, janelas e portas que foram sendo substituídas ao longo destas dezenas de anos…e até os meninos de agora já não páram para olhar o fotógrafo…é que eles têm nas suas algibeiras uma versão ultramoderna e em pequeno formato, da máquina com que o fotógrafo os fixou naquele dia longínquo para esta foto de cores esbatidas e queimadas pelo tempo. (Velho postal de Loulé e foto actual da mesma rua)

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Poema de Fernanda de Castro, in “Asa no Espaço “-1955

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Deixem a casa velha! Que os pedreiros
não lhe tirem as rugas nem as gelhas.
Que não limpem de urtigas os canteiros,
que lhe deixem ficar as velhas telhas.

Deixem a casa velha! Que a não sujem
com óleos e com tintas os pintores.
Que lhe deixem as nódoas de ferrugem,
os velhos musgos, as cansadas flores.

Que não fiquem debaixo do cimento
mais de cem anos de alegria e dor.
Não lhe pintem a chuva, o sol, o vento,
que a cor do tempo é assim: vaga e incolor.

Que tudo fique assim, parado e absorto,
no tempo sem limites, sempre igual.
Ah, não, por Deus! Como se faz a um morto,
não a sepultem sob terra e cal!

Não fechem as janelas mal fechadas,
ouçam da brisa o tímido lamento,
deixem que a vida e a morte, de mãos dadas,
vão com seu passo reflectido e lento.

Não endireitem as paredes tortas
nem desatem, da aranha, os finos laços.
Abram ao vento as desmanchadas portas,
ouçam do tempo os invisíveis passos.

Deixem que durma, quieta, ao sol do Outono,
velada pela flor, o vento, a asa.
Será talvez o derradeiro sono…
Que importa? Morra em paz a velha casa.

2 comentários a “A uma distância de quase cem anos…….

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