À ESPERA DE UM ANJO……

Esta manhã depois de uma forte chuvada e ao passar por uma ruela perto de minha casa, reparei numa menina, que à janela olhava o céu ainda bastante nublado. Perguntando-lhe

se estava esperando nova chuvada, da mesma apenas recebi como resposta: Estou à espera que passe um anjo no céu !

Acabei por não saber se ela chegou a vislumbrar algum anjo ou mesmo se a sua imaginação infantil lhe trouxe até ao parapeito da sua janela um desses misteriosos seres

de que tanto ouvimos falar desde os primeiros tempos da nossa infância.

Almeida Garrett deixou na sua obra poética um belo poema que hoje transcrevemos aqui e que fala igualmente de uma Anjo e de umas asas brancas…………

Foto: Benjamim Kanarek

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Tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.
– Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:
Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.

Veio a cobiça da terra.
Vinha para me tentar;
Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.
– Veio a ambição, co’as grandezas,
Vinham para mas cortar
Davam-me poder e glória
Por nenhum preço as quis dar.

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Em me eu cansando da terra
Batia-as, voava ao céu.

Mas uma noite sem lua
Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,
Ia voar para elas,
– Deixei descair os olhos
Do céu alto e das estrelas…
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz mais bela que elas.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores…
Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!
– Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,
O acre prazer das dores.

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu
Pena a pena me caíram…
Nunca mais voei ao céu.

…………………………………

Almeida Garrett

6 comentários a “À ESPERA DE UM ANJO……

  1. Os Anjos andam por aí. É preciso é saber encontrá-los. Às vezes estão bem perto de nós.

  2. Na visão espírita, “Anjos da Guarda” são Espíritos que atuam fora da matéria, e tem por missão acompanhar o homem durante a vida carnal, ajudando-o a progredir através de intuições, de caráter moral elevado, pois são de natureza superior àqueles que protegem.

  3. Admirador confesso de Almeida Garrett
    deixo por aqui este poema ao jeito de antigamente quando os amores eram fortes e por vezes muito dificeis de se concretizar.
    Não És Tu

    Era assim, tinha esse olhar,
    A mesma graça, o mesmo ar,
    Corava da mesma cor,
    Aquela visão que eu vi
    Quando eu sonhava de amor,
    Quando em sonhos me perdi.

    Toda assim; o porte altivo,
    O semblante pensativo,
    E uma suave tristeza
    Que por toda ela descia
    Como um véu que lhe envolvia,
    Que lhe adoçava a beleza.

    Era assim; o seu falar,
    Ingénuo e quase vulgar,
    Tinha o poder da razão
    Que penetra, não seduz;
    Não era fogo, era luz
    Que mandava ao coração.

    Nos olhos tinha esse lume,
    No seio o mesmo perfume ,
    Um cheiro a rosas celestes,
    Rosas brancas, puras, finas,
    Viçosas como boninas,
    Singelas sem ser agrestes.

    Mas não és tu… ai!, não és:
    Toda a ilusão se desfez.
    Não és aquela que eu vi,
    Não és a mesma visão,
    Que essa tinha coração,
    Tinha, que eu bem lho senti.

    Almeida Garrett, in ‘Folhas Caídas’

  4. Boa tarde a todos .Admiradores de Garrett não é dificil encontrar pelo que aqui se vê. O Poeta Só ainda ofereceu mais um, ” Não és tu”. \\ Luisa Moreira espero que esteja restabelecida. O nosso amigo Cesar parece estar bastrante aborrecido não por qualquer maleita mas porque o seu blog Alfobre não está a funcionar em pleno. O mesmo aconteceu com este há uns dias .Mas a coisa agora parece ter normalizado. Bom resto de fim de semana. Palma

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