A Feira da Ladra ainda é o que era !

Há quase 20 anos que não ia à Feira da Ladra. Fui num dos últimos sábados. Continua a ser um local cheio de novidades apesar das coisas velhas que se vendem, sejam elas antiguidades, velharias ou apenas trastes.

Os sapatos usados e já sem forma, os discos que alguém ouviu, as cartas endereçadas com uma letra bonita, as chaves sem fechadura, as fechaduras sem chaves, as bonecas sem pernas ou sem olhos, os olhos sem bonecas.

Admiro quem se levanta cedo para ficar num bom lugar e estende um cobertor onde espalha os objectos mais estranhos, para quem não imagina de onde vieram, e depois volta a recolher quase tudo, vendida que foi apenas uma ou outra peça.  

Da minha única experiência como feirante, já lá vão tantos anos, recordo apenas o frio que passei, sobretudo nas primeiras horas daquele dia de Inverno, e a assunção de que o comércio não era, de facto, o meu forte. Mas não foi frustração que senti, antes um alívio por trazer de volta o que afinal não queria vender.

Naquela altura, os que espalhavam as suas coisas pelo chão pareciam-me todos novos,  jovens que aproveitavam para fazer uns trocos. Agora tive a sensação que há muitos velhos que, talvez por necessidade ou apenas para passarem o tempo ganhando algum dinheiro, ali ficam, tentando falar inglês com alguns turistas que parecem ser os mais interessados em velhas molduras com fotografias ou alfinetes de ama enferrujados.

– Esse modelo não tenho, responde um vendedor a alguém que queria um carregador para um telemóvel. – Mas ali, daquele lado, talvez arranje, diz, apontando. A solidariedade é substituída mais à frente por uma forte discussão entre dois homens, com muitos palavrões e ameaças à mistura.

Num dos cobertores estendidos encontramos, lado a lado, um livro sobre jardinagem e uma algália.

Alguns passos à frente um russo vende peças que, juntas, já foram fardas militares. Lá estão os chapéus, os casacos… Restos duma União Soviética que já só existe nos filmes. E, com olho para o negócio, mesmo que não venda sempre ganha algum dinheiro emprestando a farda a quem se quiser vestir e tirar uma fotografia.

Não comprei nada. Mas, de graça, trouxe o que queria trazer.

Fonte: “Delito de Opinião” de Ana Lima

Fotos : Feira da Ladra -Lisboa – 1966 -autor desconhecido

Feira da Ladra actualmente – Olhares Sapo.pt -autor Miguel Peixoto

9 comentários a “A Feira da Ladra ainda é o que era !

  1. H´anos que não passo pela Feira da Ladra. Mas também é verdade que aqui no Algarve em cada domingo há uma feira de velharias muito parecida com aquela. Cada semana uma localidade diferente.

  2. Gosto de explorar as Fieras da Ladra por aí. Há tanta coisa interessante no meio das velharias inuteis. Amanda

  3. Há até uma canção do Sergio Godinho que diz, É quarta feira, feira da ladra, vamos às cinco da madrugada.Maria Isabel

  4. Adoro visitar a Feira da Ladra. Encontram-se sempre preciosidades de antigamente.

  5. É Terça Feira
    Sérgio Godinho

    É terça-feira
    e a feira da ladra
    abre hoje às cinco
    de madrugada

    E a rapariga
    desce a escada quatro a quatro
    vai vender mágoas
    ao desbarato
    vai vender
    juras falsas
    amargura
    ilusões
    trapos e cacos e contradições

    É terça-feira
    e das cinzas talvez
    amanhã que é quarta-feira
    haja fogo outra vez
    o coração é incapaz de dizer
    “tanto faz”
    parte p´ra guerra
    com os olhos na paz

    É terça-feira
    e a feira da ladra
    quase transborda
    de abarrotada

  6. Essa canção do Sergio Godinho é Terça Feira, Feira da Ladra é um must, continua a ser um dos maiores.

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