A ÚLTIMA AJUNTADEIRA

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Na Rua dos Almadas, em Loulé e que outrora se designava por Rua do Arco do Chafariz, encontramos um pequeno espaço típico e familiar onde D. Maria Encarnação do Nascimento, conhecida por D. Sanita, trabalha como ajuntadeira.

Mal saíu da escola foi logo aprender o ofício, porque a dureza da vida e as circunstâncias dos tempos assim o exigiam. Mas D. Sanita confessa-nos, com a a sua simpatia irradiante: “ O meu sonho era ir para uma creche tratar de crianças, mas a vida não era fácil e eu precisava de ganhar, os tempos eram muito pobres”. Hoje reformada com uma modesta pensão, continua agarrada à arte de coser e ajuntar, soltando um desabafo: “ Hei-de morrer a trabalhar”.

Nascida e criada em Loulé, na Rua do Poço, trabalhou em lojas desde menina e moça, mas há mais de trinta anos que está instalada neste cantinho, próximo da Rua das Lojas, onde alia ao trabalho o gosto pelo convívio, pois muitas clientes habituais param na porta nº 10, não apenas para encomendarem algum serviço, mas também para dois simpáticos dedos de conversa.

Antigamente havia muitos sapateiros e lojas tradicionais e as pessoas deslocavam-se à “vila” para fazer compras e arranjar calçado ou peças de vestuário. Ainda hoje tem algumas clientes fixas que lhe pedem para fazer bainhas ou colocar fechos, fazer pequenos arranjos. Há roupa com um significado especial, com um valor sentimental e afectivo para quem a possui. Calçado já não arranja,apenas vestuário, pois a máquina que ali está parada não funciona por falta de uma peça.

Sobre Loulé e os louletanos considera que os tempos mudaram hábitos e costumes e que antigamente talvez existissem mais laços de afectividade. “ Era outra época. As pessoas ajudavam-se mais, eram mais amigas umas das outras “.

É um prazer falar com D. Sanita pela sua afabilidade, pela sua doçura, ela que é uma figura muito querida e estimada na cidade. E aquele espaço tão aconchegado, que chama a atenção de qualquer visitante que ali passa, é um espaço onde o afecto

e o gosto pelo ofício se misturam com uma visível devoção à Nossa Senhora da Piedade, a Mãe Soberana, padroeira dos louletanos, patenteada nas diversas imagens que decoram as paredes da sua simpática “oficina” e que sobressaem entre as máquinas, as tesouras, as linhas e outros utensílios e peças que também têm a sua história.

Na Rua dos Almadas…em Loulé, a vida tem um ar muito tradicional.

(a) Este texto publicado na Revista Raízes – Loulé identidade e cultura – é de autoria de Luis Monteiro Pereira, jornalista, poeta, funcionário público e que entretanto de forma inesperada nos deixou.

10 comentários a “A ÚLTIMA AJUNTADEIRA

  1. Conheço bem esta senhora. Desde há muitos anos que ali está na sua pequena oficina ajudando quem tem pequenos problemas de bainhas e outros arranjos. É mesmo a última ajuntadeira louletana. A arte de ajuntar aprendeu-a há muito tempo. Vou continuar a visitá-la se Deus quiser.

  2. MJ Vitorino Que bela homenagem a uma "arte" só possível de ser realizada por quem tinha "arte" para o fazer. Este tema aviva as minhas emoções em disse:

    Que bela e merecida homenagem feita à D. Sanita, símbolo vivo da “arte “de bem juntar sapatos e que tenho o prazer de conhecer.
    Tal como ela , também minha mãe , (D. Albertina) dominava na perfeição a mesma arte , trabalhando com enorme precisāo e delicadeza cada peça do sapato que depois de armado ganhava vida nas mãos do meu pai, também um verdadeiro mestre, na sua arte de sapateiro. O mestre Carlos Pinguinha.
    Que muitos e bons anos permitam à D.Sanita continuar a representar essa delicada arte de “ajuntadeira” cuja actividade era o ponto de partida para o inicio da confecção dos mais variados e belos modelos de sapatos que na época fizeram de Loulé “a terra dos sapateiros”.

  3. Que rua interessante essa. Boa sorte para a senhora ajuntadeira. Barto

  4. É profissão de que me não recordo. Mas ao que parece na sua pequena oficina a senhora é muito admirada pelos da terra. Felicidades. Luciana

  5. Obrigado pela tua descrição MJVitorino. Foi realmente assim durante muitos anos. Também hoje a D.Sanita já pouco trabalha nessa interessante arte de « ajuntadeira» dedicando-se quase inteiramente a pequenos arranjos em peças de roupa. Tudo tem um fim……Uma boa noite .

  6. Algumas profissões estão desaparecendo a grande velocidade. A China está a invadir o mundo e é difícil fazer-lhes frente com os ordenados que lhes pagam. Elsa

  7. E assim vão desaparecendo as pequenas profissões artesanais. Era bom que se fizesse um rol de todas as que existiram em Loulé. Mad.

  8. É dificil subsistirem com uma oferta de coisas da China que partem de lá a tostão. Quanto ganha um trabalhador na China naquelas fábricas ?
    Manuel Porto

  9. Esta senhora penso que já deixou de trabalhar. Uma pena. Uma das ultimas ajuntadeiras de Loulé. Obrigado. MJG

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