A ÚLTIMA AMENDOEIRA

Encontrei-a por acaso ainda vestida de noiva, enquanto as suas companheiras já mudaram de vestido há já algum tempo.

Não resisti e tirei-lhe a fotografia que hoje vos ofereço. Tal como a Teresa Rita Lopes

refere no poema que se transcreve neste post, também eu acho que esta é uma avó amendoeira, daquelas que talvez pelo peso dos anos, se havia esquecido de vestir o seu vestido branco de Fevereiro.

Palma

AMENDOEIRA

Junto a um muro velho
A uma casa ruída
A velha amendoeira diz não
À morte
E fica
De repente
Menina e noiva
Ao mesmo tempo.
O vento ri-se dela
Arranca-lhe as pétalas
-Mas são tantas que não se nota-
Escarnece-a:
-“És uma velha louca de véu e grinalda”-
Para enxotar os insultos machistas do velho
Vento
Acudo-lhe com estes versos!
-“Não ligues! É inveja!
Estás tão linda assim de noiva,avozinha!”

Teresa Rita Lopes

11 comentários a “A ÚLTIMA AMENDOEIRA

  1. A invernia deste ano levou-lhes as pétalas mais cedo. Agora já estão verdinhas graças à chuva. Ficou essa para nos alegrar. Que pena todos os anos serem deitadas abaixo inglóriamente muitas e muitas amendoeiras. Que crime ! O poema da algarvia Teresa é lindo.

  2. Interessante este texto de Lídia Jorge retirado do Público:
    Jornal Público, 03.05.2009
    “No princípio duma tarde de Janeiro de 1998, eu encontrava-me na casa dos meus avós, em Boliqueime, quando vi um descapotável amarelo subir a rampa duma colina em frente, e dele sair um jovem casal que se dirigiu a uma casa em ruínas que recentemente havia sido posta à venda. A imagem maravilhosa de um casal jovem à procura duma casa abandonada era demasiado envolvente. Fiquei a imaginar como iriam ser no futuro esses meus vizinhos, românticos, que se passeavam abraçados, e se viam desfocados, por entre as amendoeiras em plena floração. Não tardou, muito, porém, que não tivesse chegado uma terceira personagem – uma escavadora, que se pôs a abrir uma passagem no valado, pulverizando as pedras. E de lá, ou de outra máquina qualquer entretanto chegada, saíram umas pessoas com moto-serras e abateram as amendoeiras cujas copas estavam em flor. Devo dizer que não deixaram uma única em pé, mesmo aquelas que supostamente não estorvariam ninguém. Fazia frio. O descapotável desapareceu com o casal. Decorreram 11 anos, a ruína já passou de proprietário várias vazes, mas os troncos das amendoeiras ainda lá estão como naquele dia, e também está um montinho de terra cinzenta a atestar que alguém fez um furo artesiano para fazer prova de que ali havia água. Provavelmente, os seus proprietários actuais aguardarão pelo momento próprio em que seja assinado um projecto de trinta ou quarenta casinhas do tamanho de pombais, encaixadas umas nas outras, como se vêem ao longo da Estrada 125 e nos sítios mais improváveis.”

  3. O que a Lída Jorge conta é o que acontece um pouco por esse Algarve fora. Gente que vem e que não tem qualquer espécie de sensibilidade pela nossa natureza a não ser o mar para tomarem banho. O que nos vale é que há muitos estrangeiros que gostam de preservar as coisas dos nossos ancestrais.

  4. Junto ao troço de estrada de Loulé para a Goncinha que era uma verdadeira maravilha nesta altura nada já é possível ver pois todas elas foram cortadas pela raíz.

  5. Lindas noivas se vêm por aí por essas estradas fora. Mesmo as mais velhinhas no encantam.

  6. Elucidativo o texto de Lídia Jorge que o “Almansor” transcreveu. Por isso cada vez se vê menos amendoeiras em flor neste nosso Algarve; por isso cada vez se vê mais e mais betão!!!
    Uma pergunta ao “Almansor”. Porque não coloca o seu nome? Sei que podemos colocar um nome falso; sei que por exemplo Jorges há muitos mas, em minha opinião, o anonimato faz baixar o nível de um debate. Polui, tal como o abate das amendoeiras!!!
    Óbvio que estas palavras não são dirigidas ao “Almansor”. Porque até me deu a conhecer um texto que eu desconhecia e que gostei de ler.

  7. Branco mais branco não há Palma… eu tenho o grato prazer de ter perto de mim essa brancura sem ter de me deslocar ao Algarve graças ao nosso conterrâneo Duarte Pacheco que não quis deixar de dar a Monsanto um cheirinho da sua terra… são poucas eu sei, mas dá para matar saudades e têm um branco mais branco do que essas… já viu uma Amendoeira em flor rodeada de verde por todos os lados?… só aqui,rsrs. Também fico apreensivo quando vejo o “desprezo” que se dá às ditas, não só à apanha das amêndoas como o seu bárbaro abate, tornando a paisagem mais pobre… perdoa-lhes Amendoeiras que eles não sabem o que fazem, e assim, o nosso Algarve vai ficando descaracterizado. Afinal a Amêndoa não é uma mais valia para a riqueza do Algarve?… já agora abatam também as Figueiras para o cenário ficar mais completo. Inté. L.F.

  8. PS: esqueci-me de perguntar, e quem é que não gosta de um Figuinho com Amêndoa??? L.F.

  9. Caros amigos as amendoeiras afinal ainda são assunto de interesse para os algarvios. Vê-se por estes comentários. O João tem razão que às vezes os últimos são os primeiros e esta «noiva» foi das ultimas. Desejamos desde já que para o ano o vestido ainda seja mais bonito.

  10. Luís Furtado: Não me fale em figuinho com amêndoa que eu fico com os olhos arregalados. É caso para perguntar : Quem não gosta ? \\\ Com que então no Centro de Lisboa uma amendoeira florida para recordar o Algarve hem ?
    \\ É verdade Luís, a construção por vezes até parece sem rei nem rock pois tudo à sua volta seca . E não era necessário. As amendoeiras ou outras árvores do nosso Algarve, como as alfarrobeiras ou figueiras nunca fizeram mal a ninguém a não ser a mentes de pedra. Abraço – Palma

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