ALEIXO E O BANDOLIM DA SUA DESPEDIDA

Bandolim da última serenata a A. Aleixo  de José Clareza

Bandolim da última serenata a A. Aleixo de José Clareza

Passa hoje mais um aniversário do desaparecimento físico do grande Poeta António Aleixo.

Muito já se escreveu sobre a sua vida e obra. Louletania não queria deixar no entanto, passar este dia sem dedicar ao nosso poeta uma humilde homenagem.

Desde muito pequeno que me habituei a ouvir de meu pai, algumas histórias sobre Aleixo já que como mestre barbeiro e tocador de guitarra e bandolim, muito conviveu com o dito na sua barbearia. Mas uma dessas descrições me chamou sempre mais a atenção. Trata-se da serenata dedicada ao A.A. já nas última horas antes do seu falecimento.

Assim, em breves linhas extraídas do Livro “ O Poeta do Povo” de António Sousa Duarte fica contada a tal serenata desejada por Aleixo e cumprida pelos amigos.

António Aleixo dirige-se com vagar para a barbearia do «Ginha» ou Zé Clareza, como também muitos outros lhe chamavam na Rua das Lojas.

Desloca-se com dificuldade. As dores no peito aumentaram consideravelmente. O expecturador que traz na algibeira é o seu companheiro de todas as horas. E uma tosse cavernosa assoma-lhe à boca a todo o momento…. Sentado à mercê do barbeiro e amigo, António Aleixo desabafa que não gostava de se ir deste mundo sem uma serenata. E sonhava, em voz alta: uma serenata em sua homenagem, que o fizesse viver alguns momentos de satisfação, junto da família e amigos. « Ó Ginha, isso é que era, uma serenata. Eu nem queria mais nada. Mas quem é que me faz isso ?» dirige Aleixo ao mestre barbeiro José Clareza. Este, que de imediato tomou a decisão de encetar os preparativos para que esse desejo do poeta viesse a cumprir-se, não lhe respondeu ao desafio e tão-pouco deu mostras de qualquer das intenções, com que horas mais tarde, convocou um pequeno grupo de amigos para que em conjunto pudessem tratar de dar corpo e satisfazer os anseios finais de A. Aleixo. E se assim se pensou, melhor se fez.

Nessa mesma noite Zé Clareza tratou de juntar quatro ou cinco amigos mais chegados e juntos prepararam a surpresa ao poeta seu conterrâneo. …….

15 de Novembro

A noite caiu há pouco quando António Aleixo se encontra deitado. Está só, no quarto escuro de casal, seu e de Maria Catarina…… De repente escuta uma movimentação anormal na rua, bem ali debaixo da janela, trancada do seu quarto. Começa a música e a serenata.

Durante alguns minutos, longos, pelo menos para António Fernandes Aleixo, o tempo pára e um estado puro de emoção turva-lhe os sentidos……

Rendido à doença e a uma noite entregue nos braços de uma serenata que ambicionara mas que jamais entrevira com viabilidade, António Aleixo depressa começa a chorar, numa manifestação de alegria e reconhecimento por um gesto que manifestamente não esperava…….

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Para ilustrar este pequeno e humilde artigo dedicado à memória de António Aleixo, aqui ficam duas fotografias, uma, de uma pintura a óleo sobre o poeta, de autoria do nosso caro amigo e pintor louletano Luís Furtado e a outra mostrando o bandolim utilizado pelo meu pai para a serenata daquela noite e que felizmente ainda hoje existe.

O texto que reproduzimos em parte foi extraído do Livro de António de Sousa Duarte intitulado : “António Aleixo o Poeta do Povo. “

Palma

AA2

António Aleixo num quadro de Luis Furtado

23 comentários a “ALEIXO E O BANDOLIM DA SUA DESPEDIDA

  1. No Blog SMS do Jornal do Algarve e de autoria do nosso caro amigo e ilustre jornalista Dr. Carlos Albino, vimos hoje uma referência ao nosso blog Louletania. Obrigado pela deferência. Palma

  2. E no início do dia em que se completam 60 anos da morte deste grande poeta popular deixo algumas quadras para quem não conheça a obra do poeta Aleixo.

    A vida é uma ribeira;
    Caí nela, infelizmente…
    Hoje vou, queira ou não queira,
    Aos trambolhões na corrente.

    O luxo valor não tem
    Nos que nascem p’ra pequenos:
    Os pobres sentem-se bem
    Com mais pão e luxo a menos!

    A esmola não cura a chaga;
    Mas quem a dá não percebe
    Ou ela avilta, que ela esmaga,
    O infeliz que a recebe.

    A ninguém faltava o pão,
    Se este dever se cumprisse:
    – Ganharmos em relação
    Com o que se produzisse.

    O homem sonha acordado;
    Sonhando a vida percorre…
    E desse sonho dourado
    Só acorda, quando morre!

    Sem que o discurso eu pedisse,
    Ele falou; e eu escutei.
    Gostei do que ele não disse;
    Do que disse não gostei.

    Chegasses onde pudesses;
    Mas nunca devias rir
    Nem fingir que não conheces
    Quem te ajudou a subir!

    Os que bons conselhos dão
    Às vezes fazem-me rir,
    – Por ver que eles próprios são
    Incapazes de os seguir.

    Entra sempre com doçura
    A mentira, pr’a agradar;
    A verdade entra mais dura,
    Porque não quer enganar.

    Se te censuram, estás bem,
    P’ra que a sorte te perdure;
    Mal de ti quando ninguém
    Te inveje nem te censure!

  3. Caro Palma,

    no dia em que se cumpre o Sexagéssimo Aniversário do falecimento do Poeta Aleixo eu começo a publicar, n’ A Voz de Loulé, uma evocação pessoal sobre o Grande Poeta.

    Na última edição do jornal já publiquei a verdadeira história do célebre fato emprestado.

    Na edição de 16 de Novembro começo a publicar a dita evocação/investigação, que por já ir um pouco longa, será repartida por nove ou por dez edições d’ A Voz de Loulé.

    Portanto, na coluna que tenho a honra de assinar n’ A Voz de Loulé, pela minha parte, até Março ou Abril de 2010 só se irá falar do Poeta Aleixo.

    É a minha homenagem, em jeito de tributo e de evocação de um Louletano leitor, admirador e investigador da sua personalidade e obra poética.

    Saudações Louletanas

  4. Bem … o Palma deixou-me com uma lágrima … no canto do olho … Parabéns pelo post … pelas fotos, do bandolim e do retrato do Luis Furtado que acho fantástico. . .

    Nada melhor que esta quadra do eterno poeta do povo que conquista os mais letrados …para homenegear vocês …

    Ser artista é ser alguém!
    Que bonito é ser artista…
    Ver as coisas mais além
    do que alcança a nossa vista!

    Um abraço

  5. Anyta: Por estas poucas quadras se pode apreciar o nível da poesia do A.A. Uma boa semana Palma

  6. Caro João Chagas Aleixo: Já me tinha apercebido da sua homenagem ao nosso A.A. e até recortei esse primeiro artigo da história do fato emprestado que por acaso também conhecia. Não sabia é que tinha tanto material para tantas crónicas, até Março ou Abril. É obra. Dou-lhe os parabéns pelo magnífico trabalho e sobretudo pela pesquisa da vida e obra do homem que passados sessenta anos da sua morte continua admirado com justiça. Abraço amigo – Palma

  7. Lila: Essa lágrima só prova que é uma pessoa sensível. Aquele bandolim tem realmente uma história muito interessante e ainda bem que ele existe porque também me traz muitas e gratas recordações. Quanto ao retrato de autoria do nosso amigo Luís Furtado também tenho a mesma opinião. Foi certamente um momento feliz na vida do amigo pintor. Uma boa semana. Abraço amigo – Palma

  8. António Aleixo, na terra acho, na terra deixo é o título do documentário que a RTP2 exibe esta noite (21.00) como contributo para desmistificar a obra do poeta algarvio (1899-1949), que morreu faz precisamente hoje 60 anos.

    O que a estação pública pretende é derrubar “certos preconceitos sobre a sua obra”. “A denominação de poesia popular, muitas vezes associada a um certo número de representações negativas que a situam ao lado da literatura menor, é descabida quando se fala de António Aleixo”, propõe-se a RTP, referindo-se provavelmente ao estigma do semianalfabetismo do poeta. Para este documentário de 50 minutos foram ouvidos familiares e amigos do poeta que é símbolo do Algarve.

  9. O programa da RTP 2 passa às 20H52 e foi feito por malta do Algarve. Vale a pena espreitar. O nosso Poeta Aleixo merece. Não foi uma figura qualquer.

  10. qUEM PRENDE A ÁGUA QUE CORRE
    é POR SI PRóPRIO EMGANADO
    o RIBEIRINHO NÃO MORRE
    vAI CORRER PARA OUTRO LADO

    gENIAL ESTA QUADRA DO POETA. bOAS NOITES .

  11. Excelente post. Acho que o melhor de sempre desde que conheço o “Louletania”. Uma verdadeira homenagem ao poeta.

  12. Tal como aconteceu com a Lila, confesso que o texto do Palma me deixou comovida. Obrigada Palma. Assim fiquei a conhecer melhor António Aleixo. Cravo

  13. Jorge: Agradeço o elogio mas na verdade este é um tema que me toca em especial pois desde miúdo que me habituei a ouvir o meu pai contar momentos vividos com o Aleixo tanto na barbearia como no Café Calcinha . E contava-os com um entusiasmo que me tocava profundamente. Ele desde sempre que reconheceu ao Aleixo um dom superior em relação a outros poetas populares que apareciam por aí. Pena que naquela altura não existissem gravadores com a facilidade com que qualquer pessoa hoje pode obter. É que certamente se perderam coisas fantásticas pois como o Aleixo era um repentista grande parte das coisas que fez não tendo sido escritas levou-as o vento. Boa noite e abraço amigo – Palma

  14. Amiga Cravo : Obrigado por ter gostado do post de hoje e aconselho-a por isso a ler ” Aleixo Poeta do Povo” de António Sousa Duarte. Ficará certamente mais conhecedora sobre quem foi este homem tão simples e com esta arte de fazer poesia como quem respira. Uma noite boa- Palma

  15. Quero deixar aqui os meus parabéns ao meu caro amigo Rui Sena e à equipa que produziu o documentário passado esta noite na RTP 2 ” António Aleixo, na terra acho, na terra deixo”. Um documentário diferente do que tem sido feito ao longo dos anos e muito melhor documentado do que outros a que já assisti. Estaremos atentos para
    uma próxima passagem do mesmo e da data daremos aqui conhecimento aos nossos visitantes. Palma

  16. Assim é Palma!
    A concluir o documentário, a “Serenata a Aleixo”, que o teu pai organizou, demontra bem a amizade e o respeito que por ele tinham aqueles o conheciam melhor. Na blogosfera louletana a “Louletania” demonstrou o seu inegável conhecimento factual sobre a vida do poeta e usou-o com arrepiante oportunidade.
    Muitos Parabéns!

  17. Almeida amigo deve ter sido um momento de grande emoção. Naquele tempo as serenatas não eram apenas dedicadas às moçoilas enamoradas mas também a amigos e familiares. Pena que já não existam algumas pessoas que poderiam enriquecer o documentário mas como já se disse elas vão sendo cada vez menos pois o tempo passa por todos nós vertiginosamente. Abraço – Palma

  18. Um óptimo documentário. Toda a homenagem que lhe seja feita, saberá sempre a pouco … Concordo com o prof. Almeida … Força Palma! abraço

  19. Escutei hoje uma canção na voz do Paco Bandeira com quadras do nosso António Aleixo. Sem me permitem aqui ficam.

    O mundo só pode ser
    Melhor do que até aqui
    Quando consigas fazer
    Mais pelos outros que por ti.

    A ninguém faltava o pão
    Se este dever se cumprisse
    Ganharmos em relação
    Com o que se produzisse

    Vinho que vai pra vinagre
    Não retrocede o caminho
    Só por obra de milagre
    Pode de novo ser vinho

    Julgando o dever cumprir
    Sem descer no meu critério
    Digo verdades a rir
    Aos que nos mentem a sério.

  20. O Professor Joaquim Magalhães grande Professor do antigo Liceu de Faro, que certamente nunca teve um aluno que dele não gostasse, o que não acontece infelizmente com muitos outros professores salvou pode-se dizer grande parte da obra do poeta algarvio. São deles estas palavras bem elucidativas:
    António Aleixo compõe e improvisa nas mais diversas situações e oportunidades. Umas vezes, cantando numa feira ou festa de aldeia, outras, a pedido de amigos que lhe beliscam a veia; ora aproveitando traços caricaturais de pessoas conhecidas, ora sugestionando por uma conversa de tom mais elevado e a cuja altura sobe facilmente. De todas as maneiras, passeando, sozinho, a guardar umas cabras ou a fazer circular as cautelas de lotaria – sua mais habitual ocupação -, ou acompanhado por amigos, numa ceia ou num café, o poeta está presente e alerta e lá vem a quadra ou sextilha a fixar um pensamento, a finalizar uma discussão, a apreciar um dito ou a refinar uma troça. E, a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso.

    Os motivos e temas de inspiração são bastante variados. Note-se, porém, que não fere, com a habitual pieguice sentimental lusitana, a nota amorosa. E isto é bastante singular; uma ou outra pequena composição com esse carácter lírico foi quase sempre, de certeza, de inspiração alheia ou a pedido de qualquer moço amigo.

  21. Também o depoimento do Dr. Vítor Aleixo, neto do poeta, ao Blog Sebastião é de interesse para este artigo, acho eu. Espero puder ver brevemente na RTP de novo aquele documentário.
    E agora as palavras do do neto do poeta:
    #
    Vítor Aleixo permalink

    Parabéns ao Fraga e ao Sena. Fizeram um trabalho irrepreensível. Deram-se ao trabalho e brindaram-nos com belos depoimentos de familiares, amigos e académicos que ajudaram muito na caracterização da figura do homem e poeta que foi António Aleixo.
    Retive aquela da Teresa Rita Lopes de que a maior homenagem que se pode prestar a um poeta é dizer os seus poemas de cor. Impressionou-me o relato feito pelo Prof. Romero Magalhães do convite ao poeta para almoçar em casa de seus pais. Desconhecia este facto que, aliás, atesta tão bem a nobreza de carácter do Dr. Joaquim Magalhães.
    Foi realmente uma pena o filme não ter incluído a Balada Para o Aleixo do António Clareza. Ficava ali tão bem!
    Pela qualidade e seriedade demonstradas no trabalho este filme / documentário fica a fazer parte do nosso património cultural. A Fundação e a CML certamente se encarregarão de que tal aconteça.

    Vítor Aleixo

  22. Grande poeta do Povo. Grande poeta algarvio. Grandes verdade ditas em verso. Obrigado António Aleixo.

  23. Teho apenas um livro deste grande poeta Aleixo e posso dizer que a sua poesia é de um nível superior.Elza

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