Antes do vinte e cinco….

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre, O Canto e as Armas, 1967


Este poema de Manuel Alegre simboliza a esperança pela Liberdade e foi cantado por  Adriano Correia de Oliveira. O cantor era um amigo do poeta e companheiro das lutas estudantis em Coimbra.
Anos antes, o convívio entre os dois possibilitou a criação de um  poema-cantiga que ficou na história da resistência à Ditadura. *Conta-se que numa noite, em plena Praça da República em Coimbra, Manuel Alegre exprimia a sua revolta:
«Mesmo na noite mais triste/ Em tempo de servidão/ Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não».
E Adriano Correia de Oliveira disse «mesmo que não fiquem mais versos, esses versos vão durar para sempre». Ficaram. António Portugal compôs a música .  «E depois o poema surgiu naturalmente». Tinha nascido a Trova do vento que passa.
Três dias depois vieram para Lisboa, para uma festa de recepção aos alunos na Faculdade de Medicina. Manuel Alegre fez um discurso emocionado, depois Adriano Correia de Oliveira cantou e quando acabou de cantar:
«foi um delírio, teve de repetir três ou quatro vezes, depois cantou o Zeca, depois cantaram os dois. Saímos todos para a rua a cantar. A Trova do vento que passa passou a ser um hino».

*Eduardo M. Raposo, Cantores de Abril – Entrevistas a cantores e outros protagonistas do Canto de Intervenção, Lisboa, Edições Colibri, 2000.

11 comentários a “Antes do vinte e cinco….

  1. Com mãos se faz a Paz se faz a Guerra e com mãos tudo se faz e se desfaz. Grande poema de Alegre que nunca cansa porque é genial. Bom 25 de Abril para todos.

  2. Fui combatente no Ultramar e penso que a Guerra nessas colónias talvez tivesse sido evitada quando Norton de Matos sugeriu a Salazar uma Autodeterminação. Rápidamente foi considerado um facínora. Era assim….

  3. Palma,

    Felicitações por este belo trabalho de post.

    Sigo um blog [Marcas de água] que há dias me pôs de lágrima no canto do olho, ao evocarem musicalmente e com imagem, o Luto Académico onde estive inserido em 1968/69!

    Este seu belo post também me arrancou um pouco a Alma…!

    Manuel Alegre, de facto anda por aí e bem…! Mas o Adriano, que foi meu vizinho – onde apareceu morto -, não é por ter falecido tão novo, sempre tive preferência pela voz dele!

    Na verdade, com as mãos faz-se tudo… e, eu que não falo a voz do dono, também às vezes tenho sentido crítico e digo:

    – Tudo bem!… mas olhem lá, que nesta hora de Abril, falando em mãos, Portugal está a precisar de uma boa «demão»!

    É um desabafo. Apenas um desabafo!

    Viva o 25 de Abril!Com uma Rosa do Adriano Correia de Oliveira!

    Eu acho que as rosas são mais ‘difíceis’ do que os cravos!
    Estão armadas de espinhos para evitar facilidades, muito embora sempre belas!

    O raio dos cravos encravaram os canos das armas…!

    É só um desabafo. Desculpem!

    O raio dos vampiros andam por aí,… à solta, porque nunca foram capazes de os extinguir!

    Um grande abraço Palma!

    César Ramos

  4. Caro Cesar: Cá estamos em vésperas de mais uma comemoração de uma grande data na História recente de Portugal apesar de algumas aves não compreenderem ou fingem não compreender.\\Nunca assisti a nenhum concerto do Adriano seu vizinho e que por acaso era das melhores vozes dos cantores de intervenção.\\ È verdade que em tempo de crise até as rosas e os cravos andam sem cor. E também é verdade que anda por aí muita gente interessada em descorá-las por completo já não contando com uns saudosos da da DGS de má memória. Mas enfim…saudemos mais este dia que aí vem e tenhamos esperança no futuro como é hábito dizer nestas datas. Mas que não se diga apenas por hábito mas com convicção. Abraço amigo e bom fds. Palma

  5. Na véspera, ainda dou os bons dias a toda a Louletania. Nas minhas arrumações pelas velharias musicais, além do Adriano, Zeca, Fausto, entre outros, encontrei esta do P. Barroso…
    Cravo vermelho ao peito,
    A muitos fica bem,
    Sobretudo faz jeito,
    A certos filhos da Mãe.
    Como o tempo passa Palma… há 36 anos andava pelo Quartel do Carmo, este ano vou andar por Loulé. As raízes do mal andam por todo o país… a gente bem fala e desabafa, mas não passamos de zeros à esquerda… isto está a precisar é de outro 25 de Abrir… pode ser em Maio, assim comemoro 2 aniversários,rsrs. Inté logo. L.F.

  6. Esclarecedor texto cantado pelo Paco Bandeira que, sem dúvida, nos remete ao lado mais negro do regime derrubado com a Revolta dos Cravos. Deveria falar-se mais da Guerra Colonial em vez de querelar sobre as via para Descolonizar como se, quem opina soubesse de verdade, a real reprovação mundial que a Ditadura vivia.
    Ainda hoje uma estranha vergonha silência os combatentes!
    É por isto e porque não “deixaram” que Abril se comprisse plenamente que precisamos de Reforçar Abril e observar os anseios do Povo!
    Por um Abril Novo!

  7. Caros Furtado e Almeida: Por um Abril NOVO. A frase está certa. O Cravo vermelho ao peito, cantiga conhecida e muito cantada nos 75 e 76 está sempre actualizada já que há por aí muitos filhos da mãe que o ostentam ao peito desejando por dentro que tudo fosse igual ao tempo em que nos encravavam todos os dias. Quer com a Guerra quer com milhentas outras coisas do arco da velha. Tudo se esquece rápidamente. Abraço . Palma

  8. A maioria do PSD no parlamento madeirense voltou a recusar as propostas para a realização de uma comemoração solene do 25 de Abril na Madeira, tendo os restantes partidos programado iniciativas para assinalar a data.

  9. Será que a Madeira terá consciência que se não fosse o 25 de Abril o chefe máximo da Ilha seria um reles advogado com escritório algures ? O 25 de Abril mudou definitvamente Portugal para melhor, meus queridos. Quer queriam ou não. Saudações democráticas.

  10. Olá Palma. Bom dia de Abril. Há dias felizes na vidas dos povos. Esse foi um deles. Grande entrevista ao Louletano. O teatro bem o merece assim como todos os que o fazem existir. Vi hoje uma reportagem na SIc sobre a extinção do Ballet em 2005 na Gulbenkien. Arrepiante. Como a cultura é frágil em Portugal. Onde estava o teatro de Loulé no 25 de Abril de 74?

    Um grande abraço
    João Martins

  11. João Martins: É verdade que há datas que ajudaram a mudar a vida dos Povos. E essas por mais que o tempo passe serão sempre recordadas, como esta no nosso país.\\ Quanto à entrevista deu realmente para dizer umas coisinhas sobre a nossa vida teatral amadora de Loulé. É bom que os jornais do concelho falem também destas coisas
    que por vezes tão esquecidas são e assim desconhecidas ficam de grande parte, neste caso, dois louletanos.
    Não vi a reportagem da extinção do Ballet Gulbenkian em 2005 que foi uma perda nacional.\\ Em Abril de 74 o nosso teatro ainda não tinha visto a luz do dia. Uns anos mais tarde é que surgiu e com algum esforço e amor à Arte tem-se mantido.
    Abraço amigo e um bom dia de 25 com muito sol nas ruas e dentro de nós. rss. Palma

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