Censuras de outros tempos !

O Maestro Pedro Osório no seu livro ” Memórias irrisórias com algumas Glórias” publicado há cerca de quatro meses dá-nos a conhecer muitas histórias da sua já longa vida de maestro e de excelente observador do mundo musical português.
Deixamos hoje aqui um pequeno excerto que demonstra como era difícil aos autores trabalharem, neste caso, numa Revista do Parque Mayer com mínimo de liberdade que necessitavam.
“…………Sim, é  bom que os mais jovens saibam o que se passava nesse tempo. O espectáculo estava pronto a estrear, tínhamos de fazer um ensaio geral com roupas e luzes, portanto práticamente uma ante estreia, para um público constituido exclusivamente pelos Censores, que tinham o desplante de se fazerem acompanhar das suas digníssimas esposas.
Chegavam fingindo um ar cordial de funcionários cumprindo o seu dever, assistiam ao espectáculo todo em silêncio e no fim, após um breve concilio, decretavam:
– O Terceiro quadro é  para cortar, as piadas tal e tal do quinto quadro são para cortar, o refrão da canção  do final, tem de mudar a letra, o cenário do penúltimo quadro tem que alterar….
Era um momento simultâneamente humilhante e de pânico. Por vezes, a poucos dias da estreia ficava-se praticamente sem espectáculo.
Os actores mais conhecidos tentavam convencer os esbirros a não cortarem tanto do seu número e nesta tarefa, há  que dizê-lo, as mulheres tinham mais argumentos do que os homens porque os Censores,mesmo com a familia por ali, fraquejavam, perante uns olhos bonitos que prometiam, ou simulavam prometer, gentilezas futuras.
Nestes momentos  eu fugia para o Ribeira Brava – o café no centro do Parque – para evitar uma de duas coisas: começar a vomitar ou perder a cabeça, atirar-me a um dos censores e, lógicamente, acabar a noite na Pide, então já rebaptizada de DGS. ”

Imagem: Cartaz de uma Revista \ Portuguesa de autoria do nosso caro amigo e cenógrafo louletano Luis Furtado.

10 comentários a “Censuras de outros tempos !

  1. Mesmo assim parece haver gente que tem saudades desse temo pois fartam- se gabar qualquer coisa de asqueroso. Filomena

  2. O “lápis azul” riscou notícias, fados, peças de teatro e livros, apagou anúncios publicitários, caricaturas e pinturas de parede. Sendo proibida qualquer referência ao material censurado, poucas foram as oportunidades de ver o que se perdeu.(4)

    “ (…) Com Salazar, a Censura carimbava CORTADO quando os cortes eram integrais, AUTORIZADO COM CORTES quando eram parciais, e também apunha o carimbo de SUSPENSO , nos casos em que era requerida decisão superior.

    Com Caetano, o Exame Prévio carimbava PROIBIDO nas provas cortadas na íntegra, AUTORIZADO PARCIALMENTE nas que sofressem cortes parciais e DEMORADO nas que fossem sujeitas a instância superior. As que passavam sem cortes eram simplesmente carimbadas a azul com a designação VISADO (no tempo de Salazar) ou VISTO (no de Caetano).

    Todos os artigos passavam pelo exame prévio e só depois seriam publicados, se os censores o autorizassem (…)”.

  3. Caros amigos este post é mais um dedicado à censura que muitos anos tornou Portugal um país mais triste e atrasado. Os vossos comentários
    deram uma ajuda ao tema. Pedro Osório o grande Maestro que todos conhecem tem agora neste seu livro muitas historias sobre músicos, espectáculos e outras coisas relacionadas com este mundo fantástico das artes.Boa noite.

  4. Bom dia Palma; a Piratada à Portuguesa continua por mais que mude o símbolo ou as cores da bandeira dos Piratas,rsrs. Assisti a algumas cenas tal e qual o Maestro transcreve… ali estavam os autores perante uma cambada de bimbos julgando-se “donos e senhores” da mente criativa de quem escrevia, eles bem censuravam, na volta, compunha-se os textos com outras palavras mais simpáticas e passava, eram tão bimbos que nem se apercebiam que queria dizer o mesmo, por vezes, eram cortados na sua totalidade e aí não havia nada a fazer, ganhava o lápis azul. Hoje, não à censura é certo, mas cuidado com a auto censura que é bem “pior”, ficamos deprimidos, andamos doentes e lá se vai a liberdade… desabafamos com os amigos, no café, aqui, ficamos todos “contentes”, mas não resolvemos patavina porque não passamos de um zero à esquerda… é favor não contrariar o chefe por mais razão que se tenha. \\\ Estou a pintar para a nova revista uns cenários com uma esfregona, verdade!… ainda por cima com verdes, para uma cena com a Flor, que é tudo menos bela,rsrs. Inté. L.F.

  5. Luis: Apesar de tudo e da revolta que a malta devia sentir na altura, o ridiculo de tais figurantes ainda por cima acompanhados das respectivas esposas era mesmo melhor do que alguns quadros censurados….\\\ Essa de agora pintar cenários com esfregona vai ficar nos anais……(nada de confusões rs).\\\ A Flor n está um pouco derrangada ???? Ou ainda se aguenta ?…..\\\ Abraço Palma

  6. O Senhor Furtado com os anos que tem de trabalho nesta área deve ter bastantes histórias para contar. Quanto à Liberdade o que havia antes de mais, parece que agora há muita gente a absuar dela. Diz-se tudo de toda a gente sem olhar a quem. Há jornalistas se calhar sem carteira, que lançam qualquer um na fogueira, queimam as pessoas na praça publica e querem se fazer passar por Juízes. Eu sou um amante da liberdade como qualquer um de voces mas acho que a coisa está a atingir proporções de descaramento a que não se pode chamar de Liberdade.
    Sabemos que há sempre excessos, mas assim é um abuso. J.Santos

  7. Queria rectificar a frase « quanto à liberdade, o que havia antes de menos, parece que há agora muita gente a abusar dela…

  8. O Santos tem razão. Muita gente neste pais que nunca soube o que era falta de liberdade são hoje autenticos pides disfarçados quer em jornais, televisões e ate em restaurantes e cafés. O que vale e que para muitos de nos o valor que lhes damos e ZERo. Laurentis

  9. O que mais me entristece é ver e ouvir malta jovem, que nem sequer eram natos no 25 de Abril, falar em voltar atrás … o ser humano é um insatisfeito … quer sempre o que não tem … mesmo o muito mau … O pão pra boca é necessário … a LIBERDADE é essencial.

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