Contos da Guerra Colonial – O Carteiro e os aerogramas

Foi um percurso muito duro, repleto de histórias às quais os mais novos não têm acesso e quando têm, dificilmente compreendem e nem sequer acreditam.
O país estava embrenhado na Guerra Colonial e os mancebos eram recrutados por todo o lado, independentemente das suas capacidades psíquicas ou físicas.
. O Correio da Guerra
As relações sociais num aglomerado populacional predominantemente rural não eram, como ainda não o são, obviamente, iguais aquelas dos condomínios convencionais nas grandes cidades, nos quais mesmo que os prédios só possuam um elevador a servir dois ou três pisos, os condóminos quando se encontram a viajar nele apertados, pele contra pele, não se cumprimentam, ignorando-se entre si enquanto aquele caixote sobe ou desce, uns esforçando-se por olharem para o tecto, outros baloiçando as chaves do carro enquanto vão mirando a barguilha, outros, os “agarradinhos do celular”, enviando ou procurando mensagens e outros, até, aproveitando despudoradamente para se coçarem. Na maior parte das vezes nem sequer manifestando uma cortesia, mesmo que hipócrita, de segurarem a porta quando o vizinho ou a vizinha vão a entrar ou a sair… Curiosamente podem encontrar-se algumas destas pessoas na missa dominical cumprimentando-se efusivamente, “saudando-se na paz do Senhor”, com muita fé (…)
O CARTEIRO, por demais carregado com tanta notícia de riso e choro, surgia cada vez mais perto em virtude das suas passadas sempre muito largas, enfrentando finalmente o primeiro aglomerado ruidoso e inquieto : os seus destinatários que diariamente ali, sensivelmente no mesmo horário, aguardavam notícias dos seus netos, filhos, maridos, pais, namorados ou simplesmente vizinhos e amigos. Aqueles aerogramas, cartas ou postais haviam sido escritos há pelo menos dois dias e as notícias que relatavam poderiam, entretanto, de alguma maneira, haver sido drasticamente alteradas. Mas não ! Quem se atreveria a pensar assim ? O ritual da abertura da correspondência era sempre o mesmo : rasgava-se apressadamente o aerograma ou a carta como se do seu interior se esperasse ver saltar milagrosamente, de braços bem abertos, o ente querido.

 

Fonte : “ Contos da Guerra Colonial “ blogspot.com

1ª Foto – Carteiro que ao longo da sua vida profissional e

durante a Guerra, distribuiu milhares de cartas e aerogramas;

2ª Foto :Militar \ex- Furriel Miliciano Manuel Sousa escrevendo uma carta para os seus familiares numa localidade de Moçambique chamada Muidumbe e que segundo ele, era « terra de guerra, da fome e dos ratos »

– in Blog dos Combatentes da Guerra do Ultramar. –

14 comentários a “Contos da Guerra Colonial – O Carteiro e os aerogramas

  1. Essa historia dos aerogramas fez parte das nossas vidas durante muitos anos. Quem não teve um irmão, um primo, um filho que de África tivesse escrito centenas de aerogramas.

  2. Essa guerra empobreceu Portugal e destruiu a vida de milhares de portugueses. Pena que se fale tão pouco dessa época triste e marafada.

  3. Ainda cá tenho em casa muitos aerogramas e cartas de avião mandadas por um tio que estava na Guiné. São uma reliquia.

  4. Os carteiros eram tão desejados como um dia de sol mesmo por vezes trazendo noticias menos boas.

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  6. Tempos para esquecer embora seja dificil . O ditador Salazar nunca saíu uma vez às colónias e à Índia nunc a lá pôs os pés embora tivesse dado ordem para ninguém saír de lá de forma alguma.

  7. Todas as guerras são estúpidas e a Guerra Colonial que os portugueses queriam vencer em África foi outra estupidez. Paula

  8. Porque é que Salazar se manteve no poder durante tantos anos? Resposta – pelo medo. As pessoas tinham medo de expressar as suas opiniões. Tinham medo de falar, não fossem denunciadas à pide. Tinham medo de serem rebeldes perante as imposições do antigo regime. Tinham medo de desobedecer. E foi o medo que empurrou muita malta para uma guerra que a esmagadora maioria dos jovens não queria, não desejava. Ia “porque era obrigada”. Não conheci um único que fosse para “defender a fé e o império”, conforme a propaganda de Salazar apregoava. Mas se a rapaziada aliasse à consciência política e humana uma certa dose de coragem (não era necessária muita) dava, inevitavelmente, o salto. Porque se a rapaziada tivesse consciência política sabia, de antemão, que o regime estava podre, isolado (o tal ‘orgulhosamente sós’) e, portanto, prestes a cair, pois nada é eterno. Quando atrás digo – só ia para a guerra quem queria – faço-o propositadamente, em termos provocatórios. É um eufemismo. Qual dos jovens que ia para as antigas colónias sabia o que era a guerra e os horrores e atrocidades associados? Quem dos jovens que partiam para as antigas colónias ia de boa vontade? Acontecia, porém, que a ida para a guerra passou a ser propagandeada como algo de trivial, normal, associando-se até a um certo espírito de aventura. Portanto, nada de especial a temer. Nada de especial a fazer. Só depois de lá estarem é que muitos se aperceberam do buraco em que se haviam metido e, creio que, se pudessem, voltariam atrás e teriam tomado outra decisão. Texto de Manuel Vargas extraído do face. Obrigado MV

  9. Concordo Paula Mami. O medo é que condicionava tudo neste país. E a Guerra Colonial durou onze anos porque as pessoas acomodaram-se. A coisa passou a ser quase normal. E depois havia aquele jornalista Ferreira da Costa que falava de Angola e que dizia que estava tudo bem. Um paraíso. Uma boa merda. Barto

  10. Houve famílias que chegaram a ter dois filhos mobilizados. Uma vergonha. Regime triste que ninguém quer ver repetido . Mas infelizmente ainda há´alguns do estilo por esse mundo fora.

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