E não sou nada !

De vez enquando trazemos aqui Florbela Espanca.

Nunca nos cansamos. Em cada nova leitura parece descobrir-se um novo poema.

E porque achamos que há muitos que adoram a sua poesia, tal como nós, trazemo-la hoje

aqui de novo….. Florbela…. a da Charneca em Flor !

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— Vaidade —

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...

                                Florbela Espanca
***  Foto: Palma

5 comentários a “E não sou nada !

  1. Grandes poetas tem Portugal. Somos verdadeiramente grandes na arte da poesia. Juju

  2. A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.
    Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões.
    (in Bibliografia de Florbela )

  3. Ao ler a poesia da poetisa alentejana recordo outra grande poetisa não neste estilo mas num outro que nos mostra também a sua grande força poética. Chamava-se Alda Lara e é uma das minhas preferidas. Angolano

  4. Aqui fica então uma poesia da Alda Lara.

    PRESENÇA AFRICANA

    E apesar de tudo,
    ainda sou a mesma!
    Livre e esguia,
    filha eterna de quanta rebeldia
    me sagrou.
    Mãe-África!
    Mãe forte da floresta e do deserto,
    ainda sou,
    a irmã-mulher
    de tudo o que em ti vibra
    puro e incerto!…

    – A dos coqueiros,
    de cabeleiras verdes
    e corpos arrojados
    sobre o azul…
    A do dendém
    nascendo dos abraços
    das palmeiras…
    A do sol bom,
    mordendo
    o chão das Ingombotas…
    A das acácias rubras,
    salpicando de sangue as avenidas,
    longas e floridas…

    Sim!, ainda sou a mesma.
    – A do amor transbordando
    pelos carregadores do cais
    suados e confusos,
    pelos bairros imundos e dormentes
    (Rua 11…Rua 11…)
    pelos negros meninos
    de barriga inchada
    e olhos fundos…

    Sem dores nem alegrias,
    de tronco nu e musculoso,
    a raça escreve a prumo,
    a força destes dias…

    E eu revendo ainda
    e sempre, nela,
    aquela
    longa historia inconseqüente…

    Terra!
    Minha, eternamente…
    Terra das acácias,
    dos dongos,
    dos cólios baloiçando,
    mansamente… mansamente!…
    Terra!
    Ainda sou a mesma!
    Ainda sou
    a que num canto novo,
    pura e livre,
    me levanto,
    ao aceno do teu Povo!…

    Alda Lara

  5. Viva a Poesia. Se quiserem espectáculos de poesia contactem o Grupo Poetas Seres. Poesia de vários estilos. L i s a

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