LETRA B do nosso Abecedário

tozinho

BARBEARIA CLAREZA

Ficava situada na Rua 5 de Outubro , mas mais conhecida de há muitos anos pela Rua das Lojas . Pode-se dizer que foi uma barbearia algo singular, já que durante décadas foi considerada como que um « conservatório de ouvido». O mestre barbeiro e tocador de guitarra e bandolim José Clareza ,transmitia os seus conhecimentos musicais aos clientes, nomeadamente na década de sessenta, quando a «malta» mais jovem começou a querer imitar os Beatles e outros grupos semelhantes. Esses conhecimentos eram então transmitidos uns aos outros chegando a ser dezenas, os jovens que ali se encontravam e ali tocavam dias inteirinhos. Naquele pequeno espaço passei eu e muitos jovens louletanos , momentos de puro gozo musical/amador. Os instrumentos encostados a um canto da velha barbearia, estavam sempre à disposição de quem chegasse e lhe apetecesse interpretar qualquer trecho que soubesse. Mas acontecia porém, que muitas vezes alguns intérpretes não tinham qualidade alguma e os ouvidos do Mestre Clareza, meu pai, ficaram certamente algumas vezes em transe. Ali nasceu o 1º grupo musical de Loulé, da chamada música Yé-Yé de que falaremos mais tarde, os “ Caveiras Negras”.

Mas antes da chegada da música dos anos sessenta, já outros músicos mais velhos ali se reuniam e ensaiavam serenatas muito populares na época. Lembro ainda de nomes como José Azevedo, Lela Azevedo, Nico e Manuel Sopeira que faziam « parar o trânsito» da rua das Lojas quando interpretavam belos trechos da canção napolitana e outros de Alberto Ribeiro por exemplo.

Aos sábados à noite as barbearias encerravam muito tarde. E esta, porque a parte musical estava sempre presente, chegava a estar aberta até às cinco horas da madrugada.

Ainda guardo no ouvido, embora fosse muito criança nessa altura, o som dessas melodias acompanhadas por bandolins, guitarra, viola e por vezes acordeon que ecoavam nas noites desse tempo com um encantamento indescritivel.

Saudades ? Sim ! Porque não ?

– Palma

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Da esquerda para a direita, Daniel Farrajota, João Maria da Silva, José de Sousa Clareza, Nico Azevedo e o mais novinho, eu.

27 comentários a “LETRA B do nosso Abecedário

  1. Ora aí está: Um “B” que enquadra bem o “A”!
    Há muito que esta homenagem tardava, devendo o filho presente continuar a contar histórias dessa notável Barbearia ausente. Esta, devido ao Sr. “C” ficou na memória de muita gente que bem podia vir, agora, contá-la na “sua” pessoa.
    Letra precisa de Música para poder ser cantada!

  2. Boas Palma; por este andar depressa se esgotarão as letras do abecedário,rsrs. Se bem me lembro, (já lá dizia V. Menésio), e se essa barbearia ficava junto ao mercado, ainda lá fui cortar o cabelo, não foram muitas vezes, em dada altura, minha Mãe, achou muita “gracinha” aos meus cabelos alourados, (hoje brancos,rsrs,) e fez com que eles crescessem, entretendo-se a fazer-me caracóis dando-me um ar de qual menina… e a vergonha que passava pela rua quando os vizinhos; olá menina Luísa… como eles estavam enganados… então não viam que ia vestido de menino e que a menina era só do pescoço para cima,rsrs… você safou-se, os caracóis não ficam lá muito bem em cabelos escuros,rsrs. Naquele tempo essas serenatas ecoavam pela Vila, quando nela, ainda existia um silêncio de ouro, lembro-me de as ouvir, como lembro muito bem do Manuel Sopeira, do barbeiro nem tanto, ficava-lhe cá com uma aversão, (sem ofensa),rsrs… cortar o cabelo,brrr. Boa semana. L.F.

  3. Vamos bem encaminhados sim senhor, renovo os meus parabéns. Homenagem mais que merecida … 🙂
    … agora a letra “C” para continuar a saga … já mencionada … grande terra louletana que muito boa gente tem gerado …
    Palma, obrigada pelos parabéns ao moço … 33 a idade de Cristo … o outro já tem 37 … vê como é? ainda há bem pouco tempo era você uma criança … pelo menos nessa foto né? um abraço e uma muito boa semana 🙂

  4. Luís Furtado escreveu este comentário em 8 de Outubro de 2008, onde falava da Barbearia Clareza:

    “Luís Furtado: às 5H41 da manhã estava eu a dormir não muito profundamente porque já há muito tempo que não tenho daqueles sonos de horas e horas seguidas. No tempo de moços dormia-se «até caír» como se costumava dizer mas o tempo passa e o funcionamento da máquina vai sofrendo algumas alterações. E que sejam só esta e não outras piores. \\\ Quanto ao fado poder-se ouvir na taberna já que não estamos em Lisboa, há por aqui no Algarve alguns sítios onde se pode fazê-lo. Loulé nunca teve tradição fadista/taberneira mas na barbearia Clareza isso aconteceu inúmeras vezes, já que era um local de reunião de músicos e cantores. Grandes serenatas ali se fizeram sobretudo nas noites de sábado quando esses estabelecimentos estavam abertos por vezes até às 5 da manhã. Um bom dia. Palma Enviado por Palma em outubro 8, 2008 02:01 PM”

    cravo

  5. Antes de mais quero deixar aqui os votos de um feliz aniversário para o bloguista/esritor/contista e marido da Cravo – esperando que sejam ainda muitos os que estão pela frente para que continue a poder dedicar-se além da família à arte da escrita e à defesa dos valores que entende necessários para uma sociedade mais justa. Palma

  6. Almeida infelizmente os contadores
    de histórias da Barbearia Clareza
    não andam por estas estradas da internet já que grande parte já não são própriamente jovens. Mas havia muita malta, já do meu tempo que poderia dar uma ajudinha mas se calhar nem têm conhecimento do post. Obrigado pela visista. Abraço – palma

  7. Lila: 33 e 37….? bonitas idades, mas deve-lhe parecer a si assim como me acontece, que foi tudo há uns anitos atrás. Que poderemos nós desejar-lhes senão o tal bem essencial, acompanhado pela sorte ? Ainda bem que está gostando do Abecedário da Louletania. Um bom fim de tarde .Muitas outras coisas haveriam para focar mas são necessárias várias voltas ao abecedário. Palma

  8. Cravo: Boa visão e orientação no tempo. Isso é que é. KKkk. Quanto ao Alberto Ribeiro, era pelo jeito, o galã das meninas românticas daquele tempo. Tinha uma grande voz e bem timbrada, embora por vezes parecesse um pouco artificial já que fazia uns floreados à betinho rsss.

  9. Luis: Você também deve ter sido daquelas criancinhas de longos caracois que faziam as delicias das mãezinhas, da família e da vizinhança e eram o terror das barbearias. rsss. Lembro-me de assistir a cortes de cabelos a miúdos que mais pareciam combates de Judo. A Barberaria a que me refiro era na Rua das Lojas e não na Praça. Mas é verdade que houve mais do que uma no terreiro da Praça. Os barbeiros, barbeiros estão em fase de desaparecimento passando os cabeleireiros de senhora a fazerem os cortes aos homens. Abraço – Palma

  10. Foi com redobrado prazer que recebi do António a notícia da nova fase do Louletania, e sobretudo do post sobre a Barbearia Clareza!Que saudades!
    Falar do Sr. Clareza não é fácil pois faltarão argumentos para elogiar a pessoa!Extremamente correcto, educado simpático, Amigo,….
    Muitos momentos de prazer que ainda hoje tenho, devo-os a ele!
    Foi o meu professor de música! Se sei alguma coisa foi o Sr. Clareza, com a sua paciência, que me ensinou!Em determinda altura da minha vida, se não estivesse no Colégio da D.Arlinda, estava com o Sr. Clareza!Ouvia-o, e lá ía tentando fazer o que o professor me dizia!Mas aquele espaço não era só escola de música!O Sr. Clareza tinha muitas histórias para contar, algumas das quais com o Poeta Aleixo!
    Na Barbearia Clareza passou muita gente, uma boa parte não para tratar do cabelo mas para aprender música que um Homem simples sempre se disponibilizou para ensinar!
    Não é a primeira vez que digo :- Obrigado Sr. Clareza por tudo o que me deu e que ainda hoje serve para me alegrar a alma!
    Grande Homem e Grande Amigo!
    Um grande abraço ao filho, do tamanho do mundo, e que dê para chegar ao Sr, Clareza onde quer que ele esteja!
    Pedro

  11. Não é todos os dias que se escutam ou lêem palavras elogiosas tão sentidas como as do Pedro Cabeçadas. E digo isso porque sei quanto amigo foi do Snr. Clareza, Mestre Barbeiro, tocador de quitarra e bandolim e amigo nos bons e « chatos» momentos» que na juventude também os há. E apesar da diferença de idades o interessante é que estava ali alguém sempre pronto para escutar. E como nós gostamos de ser escutados principalmente na adolescência das nossas vidas.
    Também numa outra ronda deste Abecedário será obrigatório falar de outro alguém a quem Loulé e o Algarve muito devem. Falo do pai do Pedro, o Dr. Manoel Cabeçadas. Por agora ficamos por aqui. Um Abraço amigo e obrigado por teres vindo até esta sala falar de um assunto que também me é muito querido. Palma

  12. Não conheci a famosa Barbearia louletana embora o meu pai me tenha já explicado onde ficava, ou seja na actual Rua das Lojas.
    É uma casa com historia. Se ali nasceu o 1º grupo musical da era Beatle é caso para dizer que maravilha. Sou fã desse e de outros grupos dessa época. Francis

  13. Quando passava àquela rua havia sempre música o dia inteiro. Mas música ao vivo, não gravada. Violas e muitas vozes jovens. Lindos dias aqueles.

  14. Muito bom dia; no comentário 4 onde se lê. Luís Furtado escreveu, deve ler-se, Palma escreveu. Foi um lapso da nossa amiga Cravo e aqui fica a rectificação… o seu a seu dono,rsrs. Pois é Palma, foi há tantos anos que uma pessoa baralha-se, o lancil e a porta parecem ser igual à da Praça na recordação que tenho no meu cerebral sótão,rss… de qualquer das maneiras lembro-me de parar à porta de uma barbearia e ouvir música. Já agora diga-me se na Praça também havia alguém que toca-se. Vou ver se encontro as fotos da “Luísa”, uma encostado ao portão da horta Del Rei, outra, mascarado no Carnaval, e quem diria que a “menina” seria um dos protagonistas do Carnaval de hoje,rsrs. As voltas que a vida dá… Inté. L.F.

  15. Mil desculpas pelo engano, Amigo Palma e muito obrigada Amigo Furtado, pela rectificação do erro.

  16. Caro Luís: Em relação às barbearias da Praça penso que nos anos trinta haveria música por lá já que nesse tempo nas barbearias havia sempre alguém que tocasse um instrumento. Mas isso já é muito recuado e eu só sei pelo que ouvi falar. Também é verdade que mesmo algumas coisas que eu já vivi na minha época de moço também já não estão muito nítidas. Não admira portanto que você confunda algumas imagens do seu sótão… rsss. Tudo se vai apagando lentamente e não é preciso ser velho para que isso aconteça. Vela se encontras as fotos. Abraço

  17. Ora viva,
    Visitei agora o louletania, tá muito giro.
    Gostei muito da história da barbearia Clareza, infelizmente não é do meu tempo, mas consigo imaginar o tipo de ambiente e se fosse hoje em dia eu estaria lá batido de certeza. Fazem falta sítios como essa barbearia, onde o popular e o folclore se encontram.
    O meu pai já me tinha falado numa barbearia de Loulé com um ambiente muito especial, é bastante provável que fosse esta.
    Continua com o blog pois está óptimo e retrata bem o nosso pequeno canto do mundo que nos faz tanta falta ás vezes…

    Abraços e beijinhos
    Benjamin e carla

  18. incrível!Adorei este artigo…é excelente a história dos louletanos ter aqui este museu humano…abraços

  19. Parabéns pelo site e pelo blog, parabéns por este post. Estou fascinado a “descobrir” Loulé e os Louletanos. muito bom

  20. Obrigado Clareza, e demais parceiros, por este blog.
    A cada consulta mais me sensibilizo com as fotos, artigos e etcs… Faz-me lembrar de Loulé e da minha infância/juventude. Uma alegria, sobretudo por constatar que ainda há génios com paciência e determinação para estas “loucuras”. Bem hajam!

  21. Obrigado Ângelo. O intuito deste blog é precisamente fazer com que ele chegue aos louletanos e não só espalhados pelos quatro cantos do mundo levando-lhes recordações da nossa terra. Abraço. Palna Clareza

  22. As barbearias eram lugares onde se transmitia o saber dos mais velhos. É sempre de agradecer.

  23. Tenho saudades da Rua das lojas desse tempo. Havia uma azáfama de gente que trabalhava, que comprava, que passeava, enfim uma rua em movimento constante. J.João

  24. Lembro-me muitíssimo bem do Nico, era o António Mateus Azevedo, dedicava-se mais ao canto e trabalhava na Moagem Louletana, junto com o pai. Do seu irmão mais velho, José Mateus Azevedo que chegou a estar a estudar no seminário, era um optimo músico, tocava piano, acordeão, bandolim e viola: e, do Lela, Manuel Mateus Azevedo, seu irmão mais novo que foi músico na Filarmónica União Marçal Pacheco, onde tocava saxofone e também clarinete, tendo feito parte de diversos grupos Musicais, entre eles o Black and Rose. O Lela era da minha idade e andávamos quase sempre juntos, trabalhou na Sapataria Elias, como mestre de corte de calçado, tendo mais tarde, já depois de casado, emigrado para a Austrália. Quanto ao Manuel (Manel) Sopeira, dedicava-se a cantar e foi vocalista nos grupos do Lela, trabalhaa de sapateiro e também fazia malas de srª, em cabedal. Tempos que passam e a saudade fica.

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