Letra E do nosso abecedário – Escola das Mucancas

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APRENDER NA ESCOLA DAS MUCANCAS

O edifício que a fotografia mostra é nada mais nada menos do que a mais antiga escola particular , que se designava ao tempo por «escola paga», de Loulé.

Muitas gerações da nossa terra passsaram por lá para aprenderem as primeiras letras e números antes de iniciar oficialmente a 1ª classe na Escola Primária. Práticamente todos os alunos que dali saíam, quando iniciavam o ensino oficial já sabiam ler e escrever com alguma desenvoltura já que o método de ensino era de certo modo duro e implicava muito trabalho às pequeninas cabeças de quatro, cinco ou seis anos de idade . A Cartilha Maternal de João de Deus era naturalmente utilizada como o método ideal.

Muitos de nós recordamo-nos certamente da entrada para a escola das Senhoras Mucancas. Com a sacola de serapilheira comprada na mercearia do Snr. Leal ali à Rua das Lojas, contendo a ardósia encaixilhada em madeira de pinho, o lápis de pedra, o caderno de duas linhas e a caneta com o respectivo aparo, lá nos sentavam em cadeirinhas ou banquinhos de tamanho a condizer e esperávamos que uma das quatro senhoras nos chamasse para junto delas para então receber a lição do dia, bem diferente das actuais Creches, apoiadas em profissionais com preparação adequada.

Havia uma palmatória que por vezes era utilizada para assustar os mais desinteressados.

É certo que na velha casa da Rua da Corredoura não havia espaço nem tempo para brincadeiras. Apenas aprender… aprender…. aprender.

As idosas professoras já se foram há muito. Resta apenas o velho edifício centenário para nos lembrarmos que muitos de nós ali aprendemos a ler e escrever tal como o Mestre e Poeta João de Deus imaginou. – ( Texto e fotoPalma -)

( A fotografia da antiga escola foi obtida há relativamente pouco tempo notando-se a degradação do velho edifício desabitado, sendo certo que o actual proprietário pretende alindar o mesmo).

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26 comentários a “Letra E do nosso abecedário – Escola das Mucancas

  1. E assim pouco a pouco, o Palma, da lei das letras se vai libertando,rsrs. Sempre que passo pela Corredora, olho e lembro, aquela que foi a minha primeira “Escola” onde aprendi as primeiras letras… depois fui pra “Faculdade” (que ficava junto à Torre do Relógio), aí tirei o “curso superior” da 4ª classe, magistralmente ensinado pela Dª Adélia… o curso era tão “difícil” que andei 2 anos na 3ª… não admira pois, que de vez em quando, um ponteiro roçava-me a cabeça fazendo-me lembrar que estava ali para aprender outras coisas para além dos “riscos” que estava a fazer no papel,rss… serviu-me de emenda, passei a fazer os “riscos” em casa com tinta de choco, era meu professor particular, o amigo Baptista, e assim tirei um curso de dois em um,rsrs. Tudo isto parece que foi ontem. A “escola” não poderia ser recuperada, (respeitando a fachada), para um infantário, a que se daria o nome de João de Deus?… bem… estes são outros “cursos”,rsrs. Inté: L.F.

  2. Amigo Luís: Cá estamos junto à pequena Universidade da Corredoura
    ou Corredora não sei ao certo. Também lhes chamavam Mecancas e Mucancas. Temos de descobrir donde teria vindo esse nome. Talvez o amigo Luís Guerreiro nos possa contar alguma coisa sobre isso.\\ Não sabia que tinha tido como professor particular o amigo Baptista. \\\ E como era essa tinta de choco ? Servia para desenhar em substituição de carvão ? Nunca frequentei a Escola Conde Ferreira ali à Praça da República . A minha foi a da Rua Ancha. Sofri por lá uns bons bocados. Mas prefiro não falar nisso… Uma boa semana de trabalho em prol do Parque que é Mayer e que se quer renovado segundo o novo projecto. Palma

  3. A Escola Conde Ferreira existiu até quando ? Não tenho ideia desse edifício.

  4. Um homem de dinheiro que pensou no seu parceiro……O Conde Ferreira foi um dos grandes impulsionadores da instrução pública em Portugal. Deixou um legado para a construção e mobília de 120 escolas primárias de ambos os sexos em terras que fossem cabeças de concelhos, todas com a mesma planta e com habitação para o professor, sendo depois de terminadas entregues às respectivas juntas de paróquia. O seu custo por unidade não deveria exceder 1 200$000[2]. Essa vontade corresponde a uma verba do seu testamento em que sobre a construção das escolas, o conde de Ferreira escreveu:

    “Convencido de que a instrução pública é um elemento essencial para o bem da Sociedade, quero que os meus testamenteiros mandem construir e mobilar cento e vinte casas para escolas primárias de ambos os sexos nas terras que forem cabeças de concelho sendo todas por uma mesma planta e com acomodação para vivenda do professor, não excedendo o custo de cada casa e mobília a quantia de 1200 reis e pronta que esteja cada casa não mandarão construir mais de duas casas em cada cabeça de concelho e preferirão aquelas terras que bem entenderem”.

  5. A Escola Conde Ferreira foi destruída sem apelo nem agravo pela responsável pela cultura e património histórico de Loulé,há uns vinte anos ????, Drª Isilda Piriquito. A conhecida historiadora eleita pelo PSD local para os destinos históricos da terra prestou nesse aspecto um mau serviço ao concelho. Enquanto noutras terras se restauraram as Escolas Conde Ferreira aqui foi simplesmente dinamitada num fim de semana qualquer. Coisas desta terra! Milena

  6. A escola´ou o edifício a que se refere o post fica situado na Rua Engº Duarte Pacheco e não na Corredora. Paul

  7. Interessante assunto! Conde Ferreira e Duarte Pacheco, ambos decididos a indicar caminho e deixar obra. Sendo que ambos, pensaram o futuro e construiram escolas.
    A Dra Isilda Maria Renda Martins, mulher forte da Cultura de Mendes Bota, formada em História e que entendeu ser sabedora de Arqueologia (???)dominou as intervenções no Património Edificado até que os entendidos apareceram; vislumbrou uma Sinagóga onde tal não teria espaço temporal para acontecer (!) mas, à conta dessa gralha, o imóvel depois adquirido continha os Banhos Públicos Islâmicos (!!). Mas ainda restam fiéis que não acreditam e nunca a senhora pisou o local para confirmar com os próprios olhos. De resto não pediu desculpa por ter mandado demolir a Escola do Conde Ferreira, como aliás, Seruca Emídio nunca pedirá desculpa pelo derrube da Casa do Chafariz no Largo Afonso III, antecipando-se à chegada dos técnicos do Instituto Português do Património… são ambos pela higiene e boa aparência dos sítios e edifícios!!! Do gabinete dão a ordem e noticiam o acidente.

  8. Professor Almeida gostei da sua intervenção porque ela corresponde à verdade. Sei que o Senhor está ligado ao trabalho árduo e digno da Casa das Bicas, a tal que a Drª Isilda Martins historiadora louletana nunca se dignou a lá colocar os pés. É muito curioso este aspecto que eu desconhecia como muitos outros louletanos certamente . Lembro-me perfeitamente ainda do olhar de espanto ou quase de boca aberta,
    dos transeuntes numa determinada segunda-feira ao repararem que a Escola Conde Ferreira tinha desaparecido no fim de semana como por encanto.
    Coisas da nossa terra! Anyta

  9. Acabei de ler uma notícia TSF que diz respeito à nossa bonita aldeia de Querença. «Os norte-americanos foram os primeiros a pisar a lua, mas há ainda quem desconfie deste feito. Em Querença, uma aldeia no interior do concelho de Loulé, não havia electricidade há 40 anos e as poucas televisões que existiam funcionavam a gerador. Os mais idosos ainda duvidam que o homem tenha chegado à lua e há até quem acredite que foi Américo Tomás o primeiro a pisar este satélite da terra.»

  10. A escola que se pode ver na foto foi como uma pequena Universidade Louletana já que a malta acabava a 4 ª classe e a seguir esperava-o o trabalho. Casas de 4, 5, 6 filhos, apenas o aprender um « ofício» era o que estava destinado. Apenas os filhos dos ricos tinham acesso ao ensino superior ou então algum pobre com padrinho rico. Essas velhas paredes estão carregadas de somas, subtrações, divisões e multiplicações. A juntar a isso o b e a = ba e por aí fora. Lembrar é bom. Sinal que cá estamos com o saber transmitido por outros. Pedro

  11. Caro Palma; acabo de escrever alguns hieróglifos da escrita Egípcia que aprendi na escola da vida,rsrs. A tinta de choco; como não havia escudos para comprar tinta da china, aproveitava-se a tinta do choco para substitui-la… diluía-se com água ou álcool… aprendi com o Jobat, só que não era muito durável… ainda guardo um desenho que ele passou, (uma parte), com a dita.\\\ O que a gente fica a saber, sobre a escola onde andei. Inté. L.F.

  12. Luís: E quem sabe se a tal tinta da China não terá na sua composição a tinta dos chocos ? O Jobat queria substituir as Professoras Mucancas está visto!
    Como é que você descobriu que tinha jeito para os riscos ? Foi ainda cá ou ja em Lisboa ? Na sua 4ª classe já deve ter brilhado no meio da malta ou não ? Coisas que a gente quer saber não por «cusquice» mas porque gostamos de saber do princípio dos nossos artistas.
    Abraço Palma

  13. Há há; com que então chásinho das 5… foi coisa que nunca me passou pelo garganêto, nem um docinho, gosto mais de fruta e de chocos com tinta,rsrs.\\\ Foi aí que tudo começou… saía da Conde Ferreira e passava pela olaria do pai do Jobat e entretinha-me a fazer berlindes de barro e outras coisas. Um dia, o “professor” volta pra terra de castigo por ter perdido o ano na António Arroio… foi a cereja em cima do bolo… eram serões e serões a vê-lo desenhar e a aprender, despertando em mim o bichinho da BD… um dia o amigo, (depois de cumprir o castigo), voltou pra Capital para continuar os estudos e eu por cá fiquei a fazer riscos na escola e não só, e a chumbar por causa do bichinho,rsrs… depois de ter recebido o diploma da 4ª classe passado pela Universidade Conde Ferreira, foi a luta que travei para me ir pra Lísbia… Continua no próximo capítulo,rsrss. Inté. L.F.

  14. Parabéns pelos posts e sobretudo pelas descrições do Snr. Luis Fortado que ajudam a dar força ao blog. Agora se me permitem aqui deixo um extracto do blog O Jumento para mostrar como nós portugueses somos para umas coisas e para outras.Só mesmo em Portugal é que há deputados tão idiotas que chamam um ministro ao parlamento para o criticarem por se manifestar optimista quanto ao futuro. A crise tem servido para que políticos sem qualquer projecto se apresentem como abutres eleitorais, tudo fazendo para que o país se sinta mais deprimido do que já está, se é que isso é possível.

    Sempre que há uma má notícia para os portugueses, ouvem-se os suspiros de um orgasmo vindos de uma orgia colectiva onde se deitam na mesma cama personalidades que em condições normais não se podem ver umas às outras. Desde a família da TVI a Manuela Ferreira Leite, passando por Louçã e Jerónimo de Sousa, ninguém esconde o desejo de ver o país afundar-se, o aumento dos problemas dos portugueses são um argumento eleitoral mais forte do que qualquer projecto alternativo que, aliás, ninguém apresenta.

    Mesmo assim vão-se ouvindo boas notícias, começaram por ser os indicadores económicos e agora a notícia da escolha de Portugal pela Nissan-Renault para a instalação de uma importante fábrica de baterias. O país que há poucos anos era um exemplo de dependência energética começa a surgir como referência internacional pela aposta nas energias renováveis.

    Algum político da oposição se manifestou? Nenhum, fazê-lo implicaria elogiar o governo, ainda que de forma implícita e isso nenhum político da oposição o fará.

  15. Caro Luís: E eu que pensava que você gostava de levar um chá de vez enquando…rsss… mas vendo bem quem gostará ? \\ Quanto à sua saga em Loulé aguardamos o próximo episódio para saber como conseguiu «fugir de casa» rumo a Lisboa. Faço ideia nessa altura, o que Lisboa representava para a maior parte das pessoas. Abraço – Palma

  16. Amadeu: Pode crer que os comentários do Luís ajudam a prender os espectadores ou leitores da sala já que a vida dele é uma autêntica epopeia.\\ Quanto ao extracto do ” Jumento” já o tinha lido na minha ronda por alguns blogs. E é verdade aquilo. As notícias boas não contam. Adiante, que amanhã já é qurta! rsss . Uma boa noite – Palma

  17. Muito mudou na escola desde a Monarquia. A República afirmou-a como causa primária do novo Regime. Fez alguma coisa, sobretudo nas cidades mas deixou muita “província” à margem desse benefício básico. O Estado Novo, mais “doutrinário” em causa própria, tratou de usar a escola como veículo de emissão da mensagem… segregando economicamente o acesso aos graus de formação cultural mais elevados. Neste contexto Duarte Pacheco deu um empurrão com as Escolas do Centenário, essas que decoram Aldeias e são agora alvo de cobiça para tudo o que é associação ou para residência particular(!) por serem belas e bem situadas ao centro do seu recreio que pode dar um bom jardim.
    Os tempos mudam e a Escola mudou com eles; mas, aqui em Loulé, vá-se lá saber porquê, famílias houve que pagaram a escolarização precoce das suas crianças, talvez para aceitarem melhor os rigores do Ensino Elementar ainda não Obrigatório. Um tempo em que ao Edifício escolar não eram exigidos os requisitos da Modernidade e em que a Formação Profissional dos Agentes de Ensino era muito diversa e pouco questionada. Num tempo de férrea autoridade, não era por ninguém cauteloso, questionadas as punições aplicadas e muito menos as crianças queixosas, a menos que se disposessem a “apanhar dobrado”. Tempos em que o Ensino era herdeiro da tradição conventual definidas pelas Ordens Religiosas, ou em casos muito particulares, por pedagogos com João de Deus.
    A esta distância sobre a Escola das (obscuras) Mucancas desejava convidar o Palma a um esforço de memória e à resposta a estas questões:
    -Quantos anos funcionou a Escola das Mucancas(desde/até)?;
    -Qual era o valor mensal da Propina?;
    -Onde era o Recreio se havia?;
    -Qual o motivo do encerramento (a reforma de Veiga Simão), ou foi antes?;
    -Qual era o período diário (manhã/tarde), quantas horas?
    E pronto, já chega…! Com a resposta a estas questões podemos traçar um paralelismo com a Escola de cada um de nós e, dessa, com a da Actualidade.

  18. Caro Almeida e Professor conceituado da Escola louletana. Esse comentário e ainda por cima vindo de alguém que está por dentro do assunto, mais interesse pode ter para os leitores do blog. Há muitos anos atrás obter um diploma da 4ª classe era o caminho certo para um bom «emprego» na época.
    As professoras mucancas «deram» escola, como se costumava dizer, durante décadas. Não posso precisar o ano em que teriam iniciado mas sabe-se para já que recebiam alunos já depois do 25 de Abril. E a escola encerrou porque siplesmente as ditas senhoras foram falecendo; como era miúdo de 4 a 6 anos não tenho agora ideia de quanto poderia ser o valor mensal da Propina ( 20$00 ???) não sei; Não havia recreio. A casa tinha e tem dois pisos. No 1º andar havia uma dependência que também era cozinha que ligava com um pequenino quintal onde existia uma casa de banho e não era hábito alguém brincar no pequeno espaço ; o horário era único. Havia quem entrasse de manhã e saísse ao meio dia para vir almoçar e voltasse pelas 14H00, como se poderia entrar pelas nove horas e só dali saísse quando algum familiar nos ía buscar. E nesse caso tínhamos de levar o almoço.Às vezes saí-se de lá às 19H00 e mais.Era difícil saír-se daquela escola sem se saber ler e escrever, dado o número de horas que ali se passavam e sempre ocupadas com trabalhos relacionados com os ensinamentos do dia. Tudo isso desapareceu e o ensino hoje não tem nada a ver com o desses tempos quer a nível particular quer a nível oficial. Abraço – Palma

  19. Amanhã Domingo vamos ver o documentário sobre esta escola no Cine Teatro Louletano.

  20. Não gostei mada dessa escola embora compreenda que as professoras estavam talhadas para aquele tipo de ensino pois concerteza ensinaram-lhes da mesma forma. Bela Lu

  21. Nesses tempos os pais até não se importavam que os filhos levassem pancada pois o que eles queriam era que quando dali saíssem estivessem prontos para começar em grande a escola oficial.

  22. Passados estes anos é dificil quem não viveu esse tempo fazer ideia de como era. Os jardins escolas e as creches de hoje são realmente outra coisa. É um caminho que sefez para melhor sem dúvida.

  23. Na verdade, eu também andei nessa escola das Mucancas. Recordo-me de três senhoras, decerto a quarta já teria morrido. Recordo ter que levar uma cadeirinha para me sentar pois a imundice da sala onde aprendíamos era imensa. Muitas reguadas … e o contrário do autor do texto que faz uma abordagem toda ela positiva, eu não concordo. Aprendíamos, sim! Mas o medo é que nos impulsionava… Aprender à base das reguladas todos aprendem…não gostei de lá andar e hoje sou professora e não acho que seja necessário amedrontar e bater para se aprender. Essas manas desconheciam a palavra…conquista !
    Isabel Viegas

  24. Isabel Viegas …não entendo quando diz que o autor do texto faz uma abordagem toda ela positiva…quando afinal se fala ali nas reguadas…no metodo duro de aprendizagem, da diferença entre aquele tempo e os jardins escolas de hoje com gente preparada e trabalhando como seria de esperar «à moda actual ». Mas é preciso recuarmos no tempo… as instalações era as de uma velha casa propriedade das senhoras. É preciso ver que elas começaram a recebert crianças por mera casualidade pois apenas tinham a 4ªclasse e nunca na vida receberam aulas de pedagogia de ensino (ainda por cima naquele tempo ). No texto pode haver alguma nostalgia por as ditas senhoras nos terem preparado para o ensino oficial e até porque não um agradecimento por isso. Que culpa têm elas de ter nascido num tempo de educação muitio rigida ? Afinal na maioria das casas era assim. Vamos condenar os nossos pais e avós por não lhes terem ensinado a educação que passados 50 anos as crianças de hoje recebem ? Afinal eram simples curiosas a quem os vizinhos analfabetos pediram em 1930 para que os ajudassem no ensino dos seus filhos. Palma

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