Letra N do nosso abecedário – Neve em Loulé

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Foto cedida por Henrique Louro

LOULÉ DE BRANCO VESTIDA

Ainda o vento não havia despido por completo as amendoeiras naquele frio Fevereiro e eis que S. Pedro resolve pintar de branco a nossa terra.

Seriam talvez horas de anoitecer, quando naquele dia ao abrir a porta à mulher que vendia leite ao domicilio, deparei com um espectáculo deveras insólito. Para uma criança de seis anos que não tinha ainda ido para lá da grande capital Lisboa, e já era muito, era verdadeiramente fantástico assistir à queda daqueles pequenos farrapos, que muito lenta e silenciosamente foram cobrindo o guarda-chuva da simpática vendedeira de leite.

Espreitando por detrás da janela do meu quarto, em cima de uma cadeira ali colocada, para que a visibilidade da paisagem fosse mais grandiosa, fui assistindo ao lento vestir de branco da velha moira terra de Loulé.

Agora sim, a vila estava branca e linda como as paisagens que apenas conhecia dos bilhetes postais natalícios.

No dia seguinte, bem agasalhado e ostentando vaidosamente uma luvas de lã compradas na conceituada loja do Snr. José do Rosal (ainda hoje existente), fui dar uma espreitadela à Avenida José da Costa Mealha ( ver foto abaixo) e ao Jardim de S. Francisco. Muitas foram as escorregadelas de inúmeros louletanos que também tiveram o prazer, para muitos, único de sentir entre os seus dedos, essa coisa maravilhosa que é previlégio das terras do norte, a neve !

Numa das noites seguintes, tive a oportunidade de ouvir ler pela primeira vez a célebre “Balada da Neve” do poeta Augusto Gil. E ainda hoje quando por vezes assomo à janela da velha casa, parece-me ainda ouvir a voz de minha mãe lendo devagarinho….

Quem bate assim levemente,

Com tão estranha leveza

Que mal se ouve, mal se sente ?

Não é chuva, nem é gente,

Nem é vento, com certeza…

Fui ver, a neve caía…………

Palma

19 comentários a “Letra N do nosso abecedário – Neve em Loulé

  1. Há dois ou três anos ainda se viu aqui em plena serra do Algarve alguma coisa parecida com neve mas nunca um nevão desses de há 50 anos. Realmente deveria ser uma festa para os habitantes da vila . Hoje sem dificuldade faz-se daqui a Granada -Serra Nevada em poucas horas e com auto estrada até lá.
    Outros tempos outras facilidades. Calculo eu. kolman

  2. Que bom no meio desta onda de calor uma fresquinho do Norte. O problema será a Gripe A que o México criou à custa de milhares de suínos. O Algarve está a ser contaminado com mais intensidade. Há muita gente de fora que faz falta ao Turismo necessáriamente mas é preciso tomar cuidado. Mãos lavadinhas várias vezes. Nada de ajuntamentos com espirros e tosse para cima do parceiro. Será que escapamos ao malandreco do cab…. do virús ?
    Tomemos as devidas precauções. Mica

  3. Não vi. Ainda não estava cá. E nem faço ideia onde estava. Mas o poema do Augusto Gil esse aprendi-o na escola e ainda hoje o sei. Quem não se recorda afinal ?

  4. MEUS OITO ANOS

    Oh ! que saudades que eu tenho
    Da aurora da minha vida,
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem mais !
    Que amor, que sonhos, que flores,
    Naquelas tardes fagueiras
    À sombra das bananeiras,
    Debaixo dos laranjais !

    Como são belos os dias
    Do despontar da existência !
    – Respira a alma inocência
    Como perfumes a flor;
    O mar é – lago sereno,
    O céu – um manto azulado,
    O mundo – um sonho dourado,
    A vida – um hino d’amor !

    Que auroras, que sol, que vida,
    Que noites de melodia
    Naquela doce alegria,
    Naquele ingênuo folgar !
    O céu bordado d’estrelas,
    A terra de aromas cheia,
    As ondas beijando a areia
    E a lua beijando o mar !

    Oh ! dias de minha infância !
    Oh ! meu céu de primavera !
    Que doce a vida não era
    Nessa risonha manhã !
    Em vez de mágoas de agora,
    Eu tinha nessas delícias
    De minha mãe as carícias
    E beijos de minha irmã !

    Livre filho das montanhas,
    Eu ia bem satisfeito,
    De camisa aberta ao peito,
    – Pés descalços, braços nus –
    Correndo pelas campinas
    À roda das cachoeiras,
    Atrás das asas ligeiras
    Das borboletas azuis !

    Naqueles tempos ditosos
    Ia colher as pitangas,
    Trepava a tirar as mangas,
    Brincava à beira do mar;
    Rezava às Ave-Marias,
    Achava o céu sempre lindo,
    Adormecia sorrindo,
    E despertava a cantar !

    Oh ! que saudades que eu tenho
    Da aurora da minha vida
    Da minha infância querida
    Que os anos não trazem mais !
    – Que amor, que sonhos, que flores,
    Naquelas tardes fagueiras
    À sombra das bananeiras,
    Debaixo dos laranjais !

    Casimiro de Abreu (Brasil)

  5. Palma, e eu a pensar que para a letra N nos ia pôr todos a andar à Nora… e se os visitantes deste simpático Blog não conseguissem decifrar o que é uma Nora, que nos chamaria a todos de Nabos,rsrs… tudo a acabar em N excepto o calor,rs. Lembro-me perfeitamente desse dia onde as brincadeiras com a Neve não faltaram, até dava para fazer bolas para atirar-mos uns aos outros… não me lembro em que ano foi, mas deve estar perto do ano 50, antes ou depois?… e a festa que foi ver ao vivo aquela “massa” estranha toda branquinha? Só tornei a vela de novo ao vivo passados 24 anos na serra da Estrela, daí pra cá só nos documentários. A propósito da serra, que surpresa nos reservará hoje o CCL?… aguardemos… até aqui têm estado com um excelente comportamento. Inté. L.F.

  6. Que belo poema recordando com saudade o que foi a nossa infância. Tanto que sonhámos, brincámos e imaginámos. Hoje, outros meninos estão tomando nosso lugar. Obrigado Cris. L.F.

  7. Alôôo; que se passa com a Louletania? Querem ver que o Palma foi de vacances para a neve para fugir ao calor e não nos avisou… espero bem que assim seja e não outra coisa, ou então, avariou-se de novo o computador,rsrs. espero notícias e que esteja tudo bem. L.F.

  8. Calma Luís!
    Toda a blogosfera entrou em férias.
    Esta coisa da neve de 1953 apenas está ao alcançe de “cotas” mesmo cotas… poucos poderão falar daquilo que não viram, até eu se cá vivesse, nada recordaria para sobre tal raríssimo evento falar. Não achas?

  9. Caro Luis: A gente não pode dar um passo em falso que notam logo rsssss.Ainda bem que se recorda desses dias de telhados branquinhos sobre a Louletania. Para mim é uma coisa muito longínqua mas ainda se notam algumas coisas. \\Foi por essa época um pouco mais tarde.\\\ O Almeida que não quer passar dos 42 anitos anda-se a fazer de rapazinho para não lhe chamarem cota.\\ Eu continuo graças à Natureza e ao seu Criador com espírito de 35.\\\ Por agora porque a gente nunca sabe o que vai acontecer nem como se vai sentir não tenho queixas a fazer. Assim seja. Abraços do Palma

  10. Luis (de novo): Essa da Nora deixou-e à Nora. É um bom post quando houver de novo Abecedário da Louletania. Duas ou mais cabeças lembram-se realmente de mais coisa do que apenas uma. E aqui está uma prova. Embora a Neve em Loulé fosse um tema que recordei mais rápidamente porque nos marcou a todos. Bonito o poema da Cris…. \\ Almeida: Espero que estejas já a preparar a Noite Branca. Não vale ir vestido de sorvete haaaa. Até mais tarde – Palma

  11. Esse nevão apenas caíu na província do Algarve ?. Desculpem a minha ignorância.

  12. [Faro Este] LOULÉ – Recordar ANOS 60

    Será no sábado, dia 29, em Salir, no Restaurante “Quinta do Cavaco”, que se vai recordar Loulé, e não só, nos Anos 60!
    A pretexto de se juntarem numa almoçarada os elementos do conjunto (hoje diz-se banda) “TOP KINGS”, o que efectivamente vai acontecer é o recordar, e certamente com algum saudosismo, a década de 60 em Loulé, Quarteira, e um pouco de todo o Algarve!
    Não serão certamente os da foto, o Barão, o Clareza, o Tota, eu e o Zé Palha, que farão a festa!
    Há também o Pepe, o Sérgio Rodrigues, o Paulo Carapinha e julgo que todos os que aparecerem terão estórias para contar!
    Os bailes da Campina, dos Artistas, do Ateneu, da Música Nova e Música Velha, a Esplanada de Quarteira, o Carnaval, as Sociedades Recreativas onde os Top Kings actuaram, as relações com Vitorino, Janita Salomé e Paco Bandeira, os cafés do Calcinha e Isidoro,o Scalet, o General Caca, o nosso professor Clareza, o Adelino dos instrumentos, o Dr. António Pedro e a 1ª. boite de Quarteira, decorada pelo grande pintor Farense, Sidónio de Almeida, o Zequinha Fala Fina, etc.,etc.,etc..
    Venham mais cinco e seja bem vindo quem vier por bem!
    Certamente que não darão o tempo por mal empregado!

    Publicada em Faro Este

  13. Pois é Pedro, já estamos na fase das recordações e muita coisa há para falar, pois parecendo que não os cinco anos que durou o nosso Conjunto dá para uma tarde bem passada certamente com cada um de nós a lembrar-se de mais um pormenor engraçado.Parece que foi tudo há uns meses atrás mas já lá vão uns anitos.Abraço

  14. Nelson respondendo à sua pergunta digo-lhe o nevão foi de norte a sul de Portugal. E para ter nevado no Algarve desta forma tal não teria sido lá para os norte. Boa noite

  15. Pois é Palma; o Almeida saiu mesmo fora dos Carretos… repare só quando escreve, « ao alcance de “cotas”» aqui, ele põe as aspazinhas para logo de seguida reforçar que são « mesmo cotas… » sem aspas… então isto não é uma “ofensa” aos jovens?… mal sabe ele que, (no meu caso), aquela criança nos anos 50 era um meu antepassado e eu sou uma sua reencarnação… com tudo isto que idade terei eu?… agora é que os pus mesmo à nora,rrsss. está tudo bem é o que interessa… desejo uns bons recuerdos para os KINGS de Portugal e dos Algarves,rsss. Hoje, (depois do “Roubin”), vou para uma feira de “Ciganos”… Inté. L.F.

  16. Luis: O Almeida por mais que queira disfarçar o peso dos anos de sabedoria que carrega nas suas costas não consegue. E ainda bem porque os seus alunos só têm a ganhar com isso.\\ E você bem precisava de uns alunos para continuarem a arte cenográfica e a dos grandes cartazes que apesar das novas tecnologias não derrubam o trabalho manual dos artistas. Até mais tarde.

  17. Que bem sabia uma neve agora Palma … com tanto calor … nem assim as banhas derretem :)))) É verdade … mas isso foi há 50 e muitos … acho que era ainda muito pequena, porque não me lembro de nada … apenas da minha mãe contar … Com que então cotas … tá bem … tá 🙂 Afinal não fui com a Cravo a Loulé … fica para quando não fizer tanto calor … Já rumaram à capital … eleições à porta … 🙂 Uma noite fresquinha aí pela Louletania 🙂

  18. Lila: Estou a ficar farto de tanto caloraço. A neve foi salvo erro em Fev.1954 de norte a sul de Portugal. Você com os seus 37 aninhos actualmente como poderia lembrar-se de tal quadro rsss? Na próxima vinda da Cravo diga qualquer coisa. Até mais tarde. Palma

  19. Para vos aliviar do caloraço, façam como eu… trabalhem em calções de banho e pé descalço. Por causa disso, ontem, na feira dos “ciganos” foi tal o reboliço que hoje encontro-me no Palácio da Jus(in)justiça, por causa do “clube das virgens” por ter dito… inscreva-se agora e seja virgem depois… a virgindade ao alcance de todas… descontos para grupos!… desconfio que ainda sou engaiolado,rsrs. é da maneira que vou passar umas férias numa masmorra com TV e ar condicionado… não?… tá bem pronto, não sabia que essas benesses era só para alguns… nesse caso retiro o que disse,rsrs. Então, deu para esquecer o calor por uns momentos??… Inté. L.f.

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