Letra O do nosso abecedário – Oleiros de Loulé

Antiga Olaria de José João (Edifício na actualidade)

Antiga Olaria de José João (Edifício na actualidade)

Antigos oleiros de Loulé

Antigos oleiros de Loulé

LOULÉ, TERRA DE OLARIAS

Não propriamente hoje, mas até aos anos 70 do século passado, poder-se-ia dizer, sem exagero, que as oficinas de olaria funcionavam em pleno em muitas das ruas de Loulé. Perde-se na noite dos tempos o estabelecimento das primeiras olarias em terras algarvias, mas acredita-se que os fenícios e mais tarde os romanos e os árabes desenvolveram essa indústria a partir do litoral algarvio, no fabrico de ânforas para o transporte de vários produtos, entre os quais vinho, azeite, azeitonas, peixe salgado e outros.

A forma das peças pouca alteração teve ao longo dos tempos, mas a louça feita em Loulé, devido à característica dos barros utilizados, tinha uma cor creme esbranquiçada, rija e indicada para o transporte de água, e não propriamente para cozinhar. Inicialmente, devido ao fumo que exalavam quando o forno cozia, as olarias situavam-se na periferia da povoação, mas o crescimento do burgo fez com que muitas delas ficassem paredes meias com as principais artérias.

Nos anos 40 havia mais de uma dezena de olarias em pleno funcionamento em Loulé. Na Campina de Cima, a nascente de Loulé, ainda não integrada na então ainda vila, contavam-se várias, a começar pela do Delfim Baptista, junto aos moinhos e ao depósito de água, mais abaixo a do Zé Costa, e logo a seguir a do velho Baptista. Não muito distante, a de “Paixão de Cristo” e Joaquim Russo. Na Corredora ficava a do Chico Bicho, e já perto ponte várias se aglomeravam: a o velho Péconim, e no plano inferior da ponte, João e José Russo e o tio Zé Velhote. José Valtelheiro e José João Velhote tinham oficina na Rua Francisco Grandela, hoje Martim Moniz. Outras haveria que a memória não recorda.

A olaria era considerada uma arte e exigia alguns anos de aprendizagem. Havia verdadeiros mestres que deixaram nome. Um deles, mais pícaro e boémio que esforçado oleiro, foi um dos últimos espécimes entre os profissionais que conheci. Chamava-se Chico Jorge. Desapareceu há muito, como há muito desapareceram as olarias, sem rasto nem lembrança.

Das peças que então se faziam, a chamada louça de água, potes, cântaros, quartas, meias quartas, infusas, etc. etc. creio não haver quem as saiba executar. Faz-se, hoje, nalgumas olarias recicladas, louça decorativa de matriz alentejana; valha-nos isso, para que de todo se não perca a arte.

É lógico que o inexorável progresso determine o fim de algumas profissões. Porém, lamento a incúria da Câmara em não preservar, num espaço digno, a memória de um património cultural impar no nosso concelho: a olaria e as suas peças tradicionais.

Até quando?

J.B.

23 comentários a “Letra O do nosso abecedário – Oleiros de Loulé

  1. Antes de mais tenho a agradecer ao meu amigo JB a ajuda para a construção deste post já que os seus conhecimentos de uma vida no que diz respeito às artes da Olaria e a outras, tornaram mais fácil o nosso trabalho pois muito pouco sabíamos para além do conhecimento
    de uma ou outra olaria já desaparecidas. Na verdade Loulé foi uma terra rica de artesãos desta ancestral arte sendo hoje
    o que todos conhecemos. Esperamos que participação deste ilustre amigo possa acontecer mais vezes desde que seja essa a sua vontade. Obrigado. Palma

  2. Post mais que merecido ao artistas do barro louletano. Tantas foram as
    olarias na nossa terra e tantos os oleiros que merecem uma lembrança condigna. Parabéns ao JB por nos fazer recordar muita gente que caíu no esquecimento. LILI

  3. Belo texto este do Batista!
    Já agora, será que se pode obter uma colecção de fotografias ou desenhos de toda a diversidade de peças de loiça de água tradicionais de Loulé com os respectivos nomes?

  4. Concordo com o Sr. Almeida. Este era um texto que o Abecedário necessitava. Loulé terra de oleiros
    estão práticamente esquecidos nos dias de hoje. Tenho gratas recordações. Pedia muitas vezes barro para moldar bonecos. Boa noite a todos.

  5. Recordo das águas frescas bebibas das cantarinhas de barro. Aquela era uma verdadeira frescura. Natural em o sabor dos frigorificos de hoje.

  6. Viva Palma; muita coisa ainda haverá para contar sobre as olarias e essa nobre arte de trabalhar o barro. Foi aí, na oficina do José João “Velhote”, que tudo começou… foi aí, na convivência com o barro, que despertaram para outras artes, dois amigos de infância. Essa oficina encerra muitas histórias… o Baptista, melhor que eu, saberá conta-las. Lastimo o “descuido” que se tem vindo a acumular em certos sectores ligado às artes… bem sonhei com um Museu onde fossem todas inseridas… sonham os Artistas, desprezam-se as artes e não só!!!… Almeida, o quadro pertença da Família Andrade, ainda se vê a oficina em ruínas do José Valtelheiro, Pede-o para a exposição… tenho em meu poder um outro, (por acabar), com a oficina do José João, vou leva-lo como está. Hoje, a comoção não deu para grandes sorrisos,rsrs. Inté. L.F.

  7. Quem sabe sabe. E o Luís fala do que sabe e isso sente-se nas suas palavras. O seu amigo Baptista também é outro homem de Loulé com o dom que muitos não têm. Mas nem todos podem nascer para as artes. As outras coisas da vida também são necessárias e muito. Parabéns.

  8. O J.B poderá dizer se ainda existem esses modelos, pelo menos um de cada, dos que enumerou ? É que se não existirem de pouco vale um espaço a eles dedicado. S. Santos

  9. Luis Furtado: Estou crente que o amigo deve ter recordado muita coisa ao falarmos deste assunto. O nosso JB teria ainda muito mais para falar sobre a quase esquecida arte da olaria na nossa terra. Mas quem sabe se num dia destes não voltaremos ao assunto.O Luís por acaso não tem foto da época naquela rua ou nas redondezas ? Até mais tarde. Palma

  10. S. Santos só JB poderá dizer se existem esses tais modelos das peças fabricadas nesses tempos. Obrigado\\Almeida: Temos de falar com o J. sobre este assunto porque também terá a sua importância para o Sebastião. Palma

  11. Snr. Furtado esta manhã na Antena Um estive a ouvir um programa em que apresentava a programação de animação do Parque Mayer de hoje até ao Outono. Gostei do que ouvi. Oxala´ que se concretize também o novo projecto para o Parque. Felicidades para si e já agora para os artistas louletanos.

  12. Luís; recebi ordem, será executada!
    Palma; a importância é global, trata-se de património histórico e pode dar origem a um Projecto Escolar de Olaria tendente a realizar réplicas de todas essas peças. Disso me encarregarei!

  13. Almeida: Bela ideia. Grande Projecto Escolar esse. O nosso amigo JB estará de certeza à disposição para um trabalho desse teor.

  14. Que este post leve ao trabalho fantástico que é colocar essas peças de olaria vivas de novo pelo menos para pudermos apreciá-las. O Professor Almeida sempre de parabéns pelo seu trabalho em prol de uma escola viva.

  15. Informação ARS Algarve:A Organização Mundial da Saúde anunciou, dia 11 de Junho de 2009, a passagem à fase 6 da pandemia de Gripe A (H1N1). Esta fase indica que a transmissão de gripe na comunidade passou a ser em maior escala, designadamente em países não afectados durante a fase 5. A passagem à fase 6 da pandemia deve-se à facilidade e velocidade de propagação do vírus a nível mundial e não à sua gravidade clínica. Apesar de ter atingido um elevado número de países em todo o mundo, o vírus tem revelado, até à data, de baixa virulência.

  16. Lusa; sempre que há eleições, não faltam grandes espectáculos e grandes projectos para o Parque Mayer, só que depois fica tudo na mesma. Os Artistas, como têm o carinho do grande Público Lisboeta, tá a ver não está?… começamos a ficar fartos de tantas promessas, por mim, só vendo, pena é, que não haja eleições de 6 em 6 meses, podia ser que o processo se concretizasse mais rapidamente.\\\ Boa Almeida, além dessa, lembrei-me que eles têm outra com uma rua de Loulé(?). Palma, fiquei quase com uma lágrima ao canto do olho, como diz o Bana… coisas de “viejos” amigo… passei ali grande parte da minha infância… o que me dava mais prazer, (além de outras), era procurar entre as cascas da amêndoa algum miolo esquecido, era docinho,rss… como estas serviam para cozer a loiça, estava sempre à espera de nova fornada,rsrs. Tenho alguns elementos, (poucos), em slid com muito má qualidade, melhor é ver o/os quadros. Inté. L.F.

  17. Viva Luis: Segundo a nossa amiga Lusa vai haver balho armado ou balho mandado , no Parque. Ainda vamos vê-lo a balhar com uma dessas bailarinhas de 1,90 sem salto alto à moda da Rep. Theca. rssss. Brincando..\\\Agora que você me fala dessas tais cascas de amêndoa que haviam ali na Rua da Olaria às sacas lembrei-me de que quando lá passava, dava sempre uma espreitadela para o forno, mas cá da porta de entrada. Gostava imenso de ver aquele forno com as labaredas saíndo . Era um espectáculo magnífico. Que pena nessa altura não haver as máquinas digitais de hoje. Aguardemos depois para fotografar os quadros. Abraço Palma

  18. Boa noite para todo o auditório desta grande casa. Saudações para o pessoal do teatro.

  19. A Olaria é uma arte que as crianças deveriam aprender pelo menos as bases nas escolas. Li aí que um Professor estava disponível para tal. Parabéns. Afinal há gente interessada para lá do vencimento.

  20. Saudações algarvias para o pessoal que se encontra no estrangeiro e que nasceram nesta terra à beira serra e junto ao mar.

  21. O meu avô foi oleiro em Loulé. Tenho realmente pena que se tirassem tão poucas fotografias nesse tempo. E eu que gosto de fotografia adorava ter uma dele. Mas foi há 70 ou 80 anos. A juventude de hoje não consegue imaginar um mundo sem fotografia, sem computadores e o resto que por aí temos à mão.

  22. Palma; diz lá: há alguma tertúlia prevista para breve?
    Uma visita ao Polo Museológico – Cozinha Tradicional, na Alcaidaria, pode ajudar a identificar algumas das peças de olaria de produção louletana… penso eu de que!

  23. Almeida: Pelo menos não tenho conhecimento. Mas o Luís quando cá vier abaixo informará certamente com uns dias de antecedência. Mas ele agora anda ocupado com nova cenografia.\\\ Quanto à Alcaidaria é bem possível que lá hajam algumas peças cá do burgo. Espero eu. Vai saír o post do Padre Luís. Até depois. Palma

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