No dia dos meus anos…

Quando Eu For Pequeno

 

Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
[pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria, in “O Livro Branco da Melancolia”

 

(Para a minha mãe, neste dia dos meus anos \ 29 de Janeiro de 2012)

7 comentários a “No dia dos meus anos…

  1. Sempre gostei de José Jorge Letria como escritor poeta. Aqui está uma obra sua digna de um grande escritor. Lobo

  2. Foto de estúdio, naturalmente. Belo contraste de cinzentos. Quanto ao poema é maravilhoso. Boa noite a todos os louletanicos. Senior

  3. Gostei muito do belo poema. Faz-nos voltar à infância ou melhor pensar no como seria bom que pudesse acontecer. Cumprimentos. Ana Paula

  4. O menino de sua mãe … não o de Fernando Pessoa. Tenho a certeza que a mãe ficou muito feliz … o Tó era mesmo o menino da maman e não a dececionou, porque ela era também uma artista, tal qual o papá. Bonita homenagem camarada!!

  5. Cara amiga Lila, verdade que nestas datas sentimos mais a ausência das pessoas que amámos em tempos idos e que delas restam boas recordações e o tal amor infinito. Abraço.

  6. Por achar que está dentro do tema passo a transcrever este belo poema:
    Já fui sonho… projecto … feto…
    Hoje, sou como o raiar de um novo dia,
    O brotar de uma semente,
    O desabrochar de uma flor!
    Sou como uma doce melodia,
    Com autor e partitura,
    Só preciso que me “toquem” com ternura,
    Para que eu possa ser gente!
    Do bem, quero ser sempre contexto,
    Não nasci para ser avesso!
    Sou portador de sol,
    Trago luz,
    Alegria e esperança,
    Afinal sou criança,

    Walter Pimentel
    Isabel Guerreiro

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