NO DIA DOS MEUS ANOS

 

OS TRES DA CASA

A casa estava cheia

Havia flores sobre a mesa

e o bolo mesmo que humilde,

reluzia qual árvore de Natal.

Os amigos chegavam

de olhos arregalados para os bonbons,

ou mesmo para o bolo pouco colorido

mas majestoso para todos nós.

Cantava-se desafinadamente os parabéns,

apagavam-se as pequeninas velas de pouca chama

e trocavam-se impressões sobre o próximo aniversariante.

Alguns nunca tinham tido um bolo mesmo singelo como este.

A gatinha da casa aproveitava a distracção dos alegres

convidados e dava mais uma lambidela no que restava do bolo.

Depois, cada um regressava às suas casas…..e eu lá ficava

imaginando como seria o próximo aniversário.

No dia dos meus anos, há muitos anos atrás, eu era feliz com o

pequeno bolo de aniversário o olhar bondoso dos meus pais e

avós bem como dos amigos que desafinadamente me

cantavam os parabéns a você.

A velha casa hoje está vazia e dos seus ocupantes apenas resta a

imagem em fotografias cinzentas dos seus amados rostos de

então.

No dia dos meus anos…há muitos anos, aquela casa estava cheia

e hoje continua cheia mas apenas das minhas recordações.

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AJPC

Colaboração no arranjo fotográfico : M João Vitorino

4 comentários a “NO DIA DOS MEUS ANOS

  1. Como eu me lembro do dia dos meus anos quando era criança. Aliás foi nesse tempo despreocupado, alegre e fantasioso que os dias foram mais bonitos. Eu sou pela fantasia nesse tempo de criança. Quem não tem fantasia nessas idades é muito mais insensível no futuro. ESTOU GRATO POR ME TEREM DADO TEMPO PARA FANTASIAR.

  2. Quem não se recorda do dia do aniversáriuo quando era criança ?
    No meu tempo pouco dinheiro havia para aniversários. Era um tempo de miseria do Estado Novo e de Guerra colonial em que os jovens eram obrigados a ir combater sem saber onde nem porquê.

  3. O Fernando Pessoa também tem este poema bem lindo sobre este tema :
    Aniversário
    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
    Eu era feliz e ninguém estava morto.
    Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
    E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
    Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
    De ser inteligente para entre a família,
    E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
    Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
    Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

    Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
    O que fui de coração e parentesco.
    O que fui de serões de meia-província,
    O que fui de amarem-me e eu ser menino,
    O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
    A que distância!…
    (Nem o acho… )
    O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

    O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
    Pondo grelado nas paredes…
    O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
    O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
    É terem morrido todos,
    É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos …
    Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
    Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
    Por uma viagem metafísica e carnal,
    Com uma dualidade de eu para mim…
    Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

    Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
    A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
    O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
    As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
    No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

    Pára, meu coração!
    Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
    Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
    Hoje já não faço anos.
    Duro.
    Somam-se-me dias.
    Serei velho quando o for.
    Mais nada.
    Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! …

    O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

    Álvaro de Campos, in “Poemas”
    Heterónimo de Fernando Pessoa

  4. Algfuns poetas brasileiros têm poemas dedicado ao dia de aniversário muito bonitos. Aqui fica um:
    Soneto de aniversário

    Passem-se dias, horas, meses, anos
    Amadureçam as ilusões da vida
    Prossiga ela sempre dividida
    Entre compensações e desenganos.

    Faça-se a carne mais envilecida
    Diminuam os bens, cresçam os danos
    Vença o ideal de andar caminhos planos
    Melhor que levar tudo de vencida.

    Queira-se antes ventura que aventura
    À medida que a têmpora embranquece
    E fica tenra a fibra que era dura.

    E eu te direi: amiga minha, esquece….
    Que grande é este amor meu de criatura
    Que vê envelhecer e não envelhece.

    ( Vinícius de Moraes )
    (Poema do livro “Vinicius de Moraes – Poesia completa e prosa”, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, p. 451.)

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