No tempo em que íamos à G U E R R A !

Histórias da Guerra Colonial – 1 EMBARQUE

 

…) O tempo não estava muito diferente do dia de hoje, só que naquela manhã um bando de gaivotas sobrevoava o Niassa, talvez em direcção a uma das lixeiras da cidade de Lisboa, depois de desesperadas terem esperado em vão algum alimento de uma das traineiras que acabara a faina e fundeara no Tejo. As tropas já haviam desfilado defronte da tribuna apinhada de oficiais generais, ladeados por “serviçais ocasionais da caridadezinha” do MNF, e estavam agora a ser “empurradas” para o fundo dos porões daquele velho cargueiro, que há muito já deveria ter sido desmantelado num qualquer estaleiro de sucata. Eram cerca de 11,00 horas do dia 24 de Janeiro de 1971, e o Cais de Alcântara assistia ao embarque do Batalhão de Caçadores 3834 composto pela Companhia de Comando e Serviços, da Companhia de Caçadores 3309 (de que eu fazia parte) e das Companhias de Caçadores 3310 e 3311, todas elas com destino ao reforço das tropas estacionadas em Moçambique, dando continuação à ocupação colonial daquele território banhado pelo Índico.

No cais o descontentamento dos familiares era generalizado, ouvindo-se por entre laivos de patriotismo alguns desabafos quase que em surdina, que expressavam outros protestos, mas também uma forte angústia por verem partir mais um familiar, cujos braços deixariam de empurrar o arado e espalhar as sementes na terra, ou de atear o fumeiro até que o cheiro das chouriças trespassasse os telhados de ardósia. Pelas 12,00 horas e após cinco apitos estridentes, o Niassa largara do cais ao som dos gritos e do acenar dos lenços que se transformavam numa onda de ausência colectiva. Amontoados no fundo dos porões, onde outrora se apinharam fartas mercadorias e se respirava um ar de tons ocres que tornava a respiração sufocante, alguns soldados meio pálidos eram presa fácil do enjoo, com o Niassa a deixar-se embalar pelas ondas do Atlântico já muito para lá da Torre do Bugio, enquanto os oficiais e sargentos se “espreguiçavam” nos seus camarotes e se banqueteavam servidos por empregados de mesa nos salões do navio, numa desigualdade tão perversa que aguçava a revolta dos mais inconformados.

Faz hoje 37 anos que iniciámos aquela “odisseia trágico-marítima”, dando início a “uma breve pausa num tempo das nossas vidas” de onde alguns de nós não regressaram, arrancados à força de uma vida já gasta de cansaço, “sem jeito nem prosa”.

Aqui fica um abraço solidário de quem sobreviveu (…)

 

Carlos Vardasca

24 de Janeiro de 2008

( Fonte : In Blog “Do Tejo ao Rovuma “ – Fotos: Blogs: “Memória visual 2 “e “Galo de Barcelos ao Pode” pac manpap)

9 comentários a “No tempo em que íamos à G U E R R A !

  1. Lembro-me como se fosse hoje. Cais cheio de gente. Gritaria, choros, abraços e um nó na garganta. Só a nossa geração sentiu isso. Hoje há por aí uns sábios que dizem que a Guerra estava ganha. Guerra de guerrilha nunca acaba. Dois indivíduos numa mata podem fazer andar um pelotão uma noite inteira e não mais os encontrarão. De quslquer modo o Dr. Salazar com a sua espertexa de saloio podia ter evitao tudo isto com autodeterminação. Pagámos todos com língua de palmo.

  2. Foi um tempo terrível. Milhões de portugueses neste peueno país sofreram com esta Guerra que Salazar e os seus falsos moralistas acompanhetes fizeram durar até à exaustão. Mesmo que não tivesse havid o 25 de Abril estou convencido que a malt se recusari a ir para guerra nos tempos seguintes. Havia um maus estar geral. Não esqueço não. Nunca esquecerei eu um jovem de 20 anos que nunca janais estava prepardo para uma coisa daquelas ser atirados para uma mata onde nem veredas quase haviam. A malta dos primeiros anos de Guerra é que abriram caminhos e estradas en Angola…depois de 400 anos de evangelização e dominio daqueles pobres que qundo lá cheguei estavam praticamente na mesma como h+a centenas de anos atrás.

  3. O meu pai foi à Guerra Colonial e nem sequer quer falar sobre isso. Tantos foram os momentos maus que por lá passou.

  4. Haviam gtanes diferenças entre os portugueses graduados que íam salvar a Pátria e os soldados rasos que iam igualmente para o mesmo serviço só que inda sobre mais perigo. Não se esquece fácilemtne esta Guerra injusta que nos fizeram passar a nós jovens portugueses . Muitos fugiram para outros países e fizeram muito bem pois de heróis mortos estamos fartos. E medalhinhas do 10 de Junho fiquem eles com elas.

  5. O meu irmão nem quer ouvir falar disso. Esteve lá quase tres anos na mata e diz ele que ninguem lhe agradeceu por isso. N em os colonos que lá viviam. Acredito.

  6. Fui assistir ao embarque de um primo que foi para a Guiné. A gritaria no cais era tanta que fiquei sem nenhuma vontade de lá ir outra vez. E não fui. Que tempos marafados. Lili

  7. Viviamos aqui na miseria pois a maior parte do orçamento de estado era para sustentar estas guerras. O Salazar e a camarilha que o apoiava esses sim eram autenticos terroristas contra este Povo sofredor e miseravel que teve de fugir para outros países do mundo. E ainda há por aí quem tenha saudades daquele tempo ? Só gente mal formada e fingida. Abaixo o FASCISMO onde ele existir !

  8. O meu pai ainda conta histórias da Guerra Colonial e do regime do Salazar o ditador. Acho que todos os pais deveriam contar aos filhos o que passaram para que possam fazer uma avaliação daquele tempo.

  9. Há muitos pais que nunca chegaram a contar aos filhos o que foi a Guerra Colonial. por isso muitos jovens são analfabetos nessa matéria. Mas também as escolas deveriam falar sobre a nossa história ainda recente.

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