O “ BIOCO” DAS MULHERES DE OLHÃO

O Algarve, como sabemos, foi marcado pelas influências dos Mouros e pelo legado de cinco séculos de ocupação Árabe, que se encontra ainda patente na sua arquitectura, bem assim como por determinados usos e costumes que marcaram a sua época, como este que aqui vemos: o do “bioco”, que seria posteriormente levado pela mulher olhanense para Moçâmedes – Angola. 

O “bioco” ou “biuco”, trata-se de uma peça de vestuário em forma de capa que cobria inteiramente a mulher que a usava, sendo a cabeça ocultada pelo próprio cabeção,  ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha. As mulheres embiocadas, dizia-se, pareciam “ursos com cabeça de elefante”

 

Raul Brandão escreve a propósito do biuco no seu livro “Os Pescadores”, em 1922:
” Ainda há pouco tempo todas (as mulheres de Olhão) usavam cloques e bioco. O capote, muito amplo e atirado com elegância sobre a cabeça, tornava-as impenetráveis.
É um trajo misterioso e atraente. Quando saem, de negro envoltas nos biocos, parecem fantasmas. Passam, olham-nos e não as vemos. Mas o lume do olhar, mais vivo no rebuço, tem outro realce… Desaparecem e deixam-nos cismáticos. Ao longe, no lajedo da rua ouve-se ainda o cloque-cloque do calçado – e já o fantasma se esvaiu, deixando-nos uma impressão de mistério e sonho. Será uma mulher esplêndida que vai para uma aventura de amor? De quem são aqueles olhos que ferem lume?… Fitou-nos, sumiu-se, e ainda – perdida para sempre a figura -, ainda o som chama por nós baixinho, muito ao longe-cloque…cloque”
Trata-se de uma capa que cobre inteiramente quem a usava. A cabeça era oculta pelo próprio cabeção ou por um rebuço feito por qualquer xaile, lenço ou mantilha.

As mulheres embiocadas pareciam “ursos com cabeça de elefante”
Oficialmente a sua extinção ocorreu em 1882 e por ordem de Júlio Lourenço Pinto, então Governador Civil do Algarve, foi proibido nas ruas e templos, embora continuasse a ser usado em Olhão até aos anos 30 do século XX altura em que foram vistos os últimos biocos.

 

Fontes : “Mossamedes do antigamente blogspot “

Trajes de Portugal – Blog

14 comentários a “O “ BIOCO” DAS MULHERES DE OLHÃO

  1. É bem possível que nalgum museu de Olhão se encontre este trajo. Não conhecia. Vou tentar ver4 como era.

  2. Encontrei na Net este Blog que tem um traje dos Açores
    muito parecido ao que referem aqui e tem algumas semelhanças com o de Olhão.

  3. Desco9n hecia po9r completo esta tradição de Olhão. Bem arabesca por sinal. Viriginia

  4. Gosto muito da arquitectura olhanense. Era muito bom que se mantivesse aquele traço tão original.

  5. José Neves Júnior, natural de Faro, na sua obra ” Notas Biográficas”, publicada pela Delegação da Secretaria de Estado da Cultura, refere que na sua primeira infância ( o autor nasceu em 15 de Outubro de 1901) “A tia Isacel que tinha,(…) uma venda de frutos, hortaliças, vinho e aguardente, era o modelo do tipo humano femenino pertencente ao grupo social das pessoas de poucos recursos da sociedade estática do tempo, em que os costumes permaneciam imutáveis através dos séculos. Quando saía fora do seu pequeno mundo que se estendia da venda até à estalagem, a tia Isabel cobria-se com o seu bioco, ampla capa que descia do cimo da cabeça até aos pés. e para que a cara ficasse oculta, como era uso, colocava-se um jornal em diedro (ângulo formado pelo encontro de dois planos), que avançava quase um palmo à frente da testa, entre o cabelo e o tecido do bico, quem se cruzava com uma embiocada apenas via, ao fundo da ogiva que emoldurava o rosto, brilharem uns olhos humanos.”
    Assim aqui vos deixo um testemunho escrito sobre o uso do bioco ,em Faro, ao início do século XX, com a curiosidade de uma folha de jornal ser acrescentada ao traje, apesar de ser difícil entender como funcionaria

  6. E houve a partir de uma certa altura um governador civil que ordenou a proibição do traje por poder haver gente que utilizasse o mesmo para fins menos correctos.

  7. Desconhecia este traje. Havia certamente muita gente que se encobria debaixo destes biocos.

  8. A Natercia Magalhães faz uma boa descrição aí atrás do uso do Bioco por uma farense. Obrigado pela sua informação. Barto

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