O GRANDE JOÃO VILLARET

Ator e declamador de excecional talento nasceu a 10 de Maio de 1913, em Lisboa tendo falecido a 21 de Janeiro de 1961, na mesma cidade. Depois de ter terminado o Liceu, dedicou-se ao teatro, tendo estado ligado à revitalização do teatro nacional. Gradualmente, ganhou fama de declamador pelo que causou algum escândalo quando decidiu, em 1941, enveredar pelo teatro de revista, provando em êxitos sucessivos que era possível conciliar o género dramático e o de revista. A mais popular de todas terá sido ‘Tá Bem Ou Não ‘Tá? (1947), onde popularizou o célebre Fado Falado, da autoria de Aníbal Nazaré e Nélson de Barros, que mais não era do que um recitativo sobre melodia de fado onde a letra em vez de ser cantada era declamada. Este género de poesia ganhou enorme popularidade, especialmente depois de A Vida É Um Corridinho (1952) ou o famoso A Procissão (1955), da autoria de António Lopes Ribeiro, que viria, anos mais tarde a popularizar num seu programa televisivo. Aliás, a poesia, especialmente a de Cesário Verde, era uma das suas grandes paixões, tendo ficado famosas as suas tertúlias no Café Brasileira do Rossio. De entre as suas peças mais célebres, destacam-se A Recompensa (1937), de Ramada Curto, A Madrinha de Charley (1938), de Brandon Thomas, Leonor Teles (1939), Melodias de Lisboa (1955), da sua autoria, Não Faças Ondas (1956) e Esta Noite Choveu Prata (1959). Das suas interpretações cinematográficas, destacam-se a sua personificação de D.João VI em Bocage (1936), um papel secundário, mas mordaz de mudo, em O Pai Tirano (1941), de Bobo, em Inês de Castro (1944), de D. João III, em Camões (1946) e aquela que terá sido a sua melhor interpretação de sempre em cinema, a de Telmo Pais, em Frei Luís de Sousa (1950). O seu último papel foi o de Sebastião, em O Primo Basílio (1959). Doença prolongada obrigou-o a retirar-se dos palcos em 1960, tendo falecido no ano seguinte. A sua morte causou manifestações de grande pesar em Lisboa, de tal forma que, durante muitos anos, os lisboetas celebraram o aniversário da sua morte com um recital de poemas no Cinema S. Jorge, onde a sua voz se ouvia num palco vazio iluminado apenas por um foco de luz. Em sua homenagem, Raul Solnado fundou, em 1965, o Teatro Villaret.

Fonte : Infopedia

 

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,


A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe

Fernando Pessoa

 

5 comentários a “O GRANDE JOÃO VILLARET

  1. Maravilhosa voz a deste grande declamador. O que é interessante é que o que se ouve hoje nas televisões não se comparam em nada a J. Villaret.

  2. Embora não o conhecesse vi através da RTP Memória os seus programas que demonstram a qualidade e o valor deste grande declamador.

  3. Comprei há pouco dois Cds do J.Villaret muito bonitos. Ainda bem que há esta possibilidade do vinil passar a CD porque caso contrário com o tempo perdiam-se estas pérolas.

  4. Grande actor que ainda vi representar num teatro de Lisboa. Para lá da televisão onde ficou mais conhecido Villaret dava recitais de poesia. Uma voz maravilhosa. Amo.

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