O MEU PRIMEIRO DIA DE ESCOLA

Todos nós temos mais ou menos presentes, lembranças do nosso 1º dia de escola.

Através do caro amigo Luis Guerreiro descobri um texto magnifico da nossa conterrânea e grande escritora Lídia Jorge, texto esse em que ela relata o seu primeiro dia na Escola da Cabeça de Águia na freguesia de Boliqueime de onde é natural. Aqui fica então para apreciação de todos vós: – – – –

 

«A Escola da Cabeça d’Águia era uma casa com uma porta, duas janelas e mais nada. No primeiro dia em que me levaram até lá, fiquei feliz porque ia encontrar crianças da minha idade. Elas lá estavam, divertidas, barulhentas, grandes olhos, faces magras. Também era a primeira vez que me colocavam na mão uma caneta de tinta de molhar e ela escorregou-me da mão, borrou a folha e rebolou pelo chão. Tive de gatinhar debaixo das carteiras para a encontrar. Foi então que eu reparei que os pés dos meus colegas, em grande parte, estavam descalços. Vi os seus pés pousados no chão e percebi que a turma se dividia em duas metades – os que tinham e os que não tinham sapatos. Nessa noite, procurei sapatos que servissem aos meus colegas, e em casa havia-os em várias caixas, mas de criança encontrei só um par, e eu queria encontrar botas, formatos vários. A minha mãe descobriu o que eu andava a fazer e disse-me – “Para quê tudo isso? Desengana-te, por mais que faças, nunca vais calçar toda a gente”. E assim foi. Passei muitos anos sem contar este episódio, até que desisti desse silêncio. Passado todo este tempo, a Humanidade continua a dividir-se, exactamente, nesses mesmos dois grupos – Os que andam e os que não andam descalços. Só na Literatura conseguimos encontrar sapatos para todos. Talvez essa seja uma das razões por que escrevo. Talvez escreva desde aquele dia em que a caneta escorregou pelo tampo espalhando tinta no papel e conduzindo-me ao chão do mundo.

Lídia Jorge

12 comentários a “O MEU PRIMEIRO DIA DE ESCOLA

  1. Que belo texto da Lídia Jorge. A diferença entre o contar um primeiro dia de escola de alguém que sabe escrever e outr alguém que apenas limita-se a contar. Naturalmente nem todos nasceram com o dom da escrita.

  2. Recordo-me pefeitamente. Não foi numa pequena aldeia como muito bem descreve Lídia Jorge mas numa graande cidade. Alhumas emoçoes serão as mesmas.

  3. Foi um tempo de miseria que não queremos que voltasse de novo. Mas a sermos governandos desta maneira revoltante….não sei.
    Maria Zeza

  4. Lídia Jorge é na verdade uma grande escritora. É evidente que este texto embora pequenino dá para perceber a diferença entre quem escreve por aí e quem sabe escrever na verdadeira acepção da palavra. JVD

  5. São muitas vezes momentos tão simples como estes que mudam a vida de uma pessoa. Eu quero acreditar que tenha sido por isso que Lídia Jorge se tornou escritora, para poder viver num mundo onde haja igualdade entre todos.

  6. Francisco é bem possível que este momento vivido naquele dia tenha marcado para sempre a esxritora Lídia Jorge.

  7. QUe receio tinha do meu professor. Só de o olhar, tremia. Hoje caímos no oposto.

  8. Hà professores que deixaram boas recordações, outros apenas desejo de esquecer. Nicole

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