O poeta que detestava conceder autógrafos

O poeta que detestava conceder autógrafos

Trazemos hoje a esta página um poema do grande escritor Miguel Torga, aproveitando para mostrar aos nossos leitores um dos seus poucos autógrafos. Um homem tão avesso a conceder autógrafos não recusou deixar para a posteridade a sua assinatura num livro do Poeta António Aleixo quando este se encontrava em tratamento em Coimbra. Não restam dúvidas de quão apreciador Torga era do nosso Aleixo o humilde poeta algarvio.

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“” A poesia foi e será sempre universal. Transversal atravessou de forma imparável todos os tempos e sociedades, as ideologias e as correntes de opinião, como se fosse a voz dos deuses. Ela foi o suporte dos grandes anseios e dúvidas da Humanidade. Nenhum Hino capaz de mobilizar as energias de um Povo, utilizou tão bem outra arma para o exaltar na sua alma colectiva. A poesia tem a vitalidade das situações eternas, acompanhou os homens nos momentos de desalento, na solidão das trincheiras, das grades de uma prisão, na subversão e claro… no amor. “”

Fleming de Oliveira

Poema

Quase um Poema de Amor

Há muito tempo já que não escrevo um poema

De amor.

E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!

A nossa natureza

Lusitana

Tem essa humana

Graça

Feiticeira

De tornar de cristal

A mais sentimental

E baça

Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo

E ninguém me deseje apaixonado,

Ou que a antiga paixão

Me mantenha calado

O coração

Num íntimo pudor,

— Há muito tempo já que não escrevo um poema

De amor.

Miguel Torga, in ‘Diário V’

Imagem de Autógrafo: Gentileza de Luís Guerreiro a quem agradecemos.

10 comentários a “O poeta que detestava conceder autógrafos

  1. É uma simpatia podermos ver um autógrafo de Torga o homem que pelo jeito não era muito dado a essas ofertas. Tamb+ém não entendo muito bem porque teria ele esta aversão ? Os seres humanos são demasiado complicados para por vezes os entendermos. Maria Alice Rells

  2. É a primeira vez que vejo um autógrafo de MT. mas é verdade que desconhecia que o poeta não gostava de conceder autógrafos. Não é que a coisa tenha uma importância desmesurada mas para os coleccionadores deveria fazer-lhes confusão.

  3. Com votos de um bom fim de semana para a Louletania:

    Da Realidade

    Que renda fez a tarde no jardim,
    Que há cedros que parecem de enxoval?
    Como é difícil ver o natural
    Quando a hora não quer!
    Ah! não digas que não ao que os teus olhos
    Colham nos dias de irrealidade.
    Tudo então é verdade,
    Toda a rama parece
    Um tecido que tece
    A eternidade.

    Miguel Torga

  4. Palma, ficamos com a alma lavada!!! e como amo estes dois maiores, não acrescento mais pra não estragar …

    … e como disse o maior dos maiores: a minha pátria é a língua portuguesa!!
    Bem haja!

  5. Cara Liliana: Também eu digo : a minha pátria é a língua portuguesa ! Um bom fim de semana para si.

  6. Palma; já não posso dizer que a minha pátria é a língua portuguesa… pra que conste nasci no Algarve, logo, a minha pátria é a língua Algarvia,rsss. \\\ Como é que as coisas andam por aí??, por aqui a prima está a dar as boas vindas com calor, ainda bem porque os ossos estavam a precisar,rsss. Sabe uma coisa?, parece que consigo mais rapidamente respostas de amigos lá de fora no face do que dos Louletanos… “será chuva, será gente” ou falta de sensibilidade?, deve ser por isso que o quadro ainda se encontra nas “masmorras”. Inté. L.F.

  7. Caro Luís Furtado….Por aqui a coisa continua mais ou menos dentro do mesmo ritmo…. Calor não falta ao contrário da chuva que não aparece……\\ Como você diz às vezes é mesmo assim….santos de casas diz que não fazem milagres…mas já os fizeram noutras vezes…….\\ Desconhecia o problema das masmorras. Já decorreu tanto tempo. Já era tempo de ser colocado no devido lugar. Abraço

  8. Um caso raro, por isso muito especial: Miguel Torga a conceder um autógrafo a alguém que considerava da sua igualha!
    Não deve causar confusão que os grandes poetas e os grandes homens não gostem de dar autógrafos. Quem gosta de o fazer são os medíocres da pena – e, claro, os “grandes” futebolistas…!
    Mas os espíritos elevados são, por via de regra, humildes e avessos a exibicionismos e ostentações… ao contrário de muitos “escritores” de hoje que enchem centenas de folhas (desertas de ideias) na mira de serem publicitados com vista à obtenção lucros fáceis e avantajados…
    Os poetas, homens de letras, músicos, artistas autênticos, sejam quais forem os domínios em que se inserem, são intimistas, não gostam de se expor, detestam ser adulados… Daí, o seu natural repúdio em autografarem as suas obras.
    Só o fazem quando o seu coração se sente irmanado a outrem a quem presenteiam com uma sua obra…

  9. O Chitaroedus tem alguma razão, mas eu também gosto de de ficar com autógrafos de pessoas que aprecio pelas suas qualidades literárias ou outras. Se me negarem não fico satisfeito embora estejam no seu direito.

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