Onde a terra acaba e o mar começa….

Após percorrer uma das maiores pontes de madeira da Europa, por sobre a Ria Formosa, ficamos frente a frente com o mar. Ali… onde a terra acaba e o mar começa e onde o vento nos trauteia cantigas de velhos marinheiros, apetece-nos ficar……..olhando e conversando com o velho M A R…….

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Passei o Dia Ouvindo o que o Mar Dizia

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Eu ontem passei o dia
Ouvindo o que o mar me dizia.
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Chorámos, rimos, cantámos.
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Falou-me do seu destino,
Do seu fado…
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Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Pôs-se a cantar
Um canto molhado e lindo.
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O seu hálito perfuma,
E o seu perfume faz mal!
Deserto de águas sem fim.
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Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?…
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Ele afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado…
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Ao longe o Sol na agonia
De roxo as águas tingia.
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«Voz do mar, misteriosa;
Voz do amor e da verdade!
– Ó voz moribunda e doce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte…»
…………………………………………..

E os poetas a cantar
São ecos da voz do mar!

António Botto, in ‘Canções’ \\\\ – Foto de Palma : Tarde de Outono na Ria Formosa- Nov. 2010

13 comentários a “Onde a terra acaba e o mar começa….

  1. Esta fotografia convida à poesia.
    De Fernanda de Castro aqui vos deixo:
    Não Fora o Mar!

    Não fora o mar,
    e eu seria feliz na minha rua,
    neste primeiro andar da minha casa
    a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
    calada, quieta, sem um golpe de asa.

    Não fora o mar,
    e seriam contados os meus passos,
    tantos para viver, para morrer,
    tantos os movimentos dos meus braços,
    pequena angústia, pequeno prazer.

    Não fora o mar,
    e os seus sonhos seriam sem violência
    como irisadas bolas de sabão,
    efémero cristal, branca aparência,
    e o resto — pingos de água em minha mão.

    Não fora o mar,
    e este cruel desejo de aventura
    seria vaga música ao sol pôr
    nem sequer brasa viva, queimadura,
    pouco mais que o perfume duma flor.

    Não fora o mar
    e o longo apelo, o canto da sereia,
    apenas ilusão, miragem,
    breve canção, passo breve na areia,
    desejo balbuciante de viagem.

    Não fora o mar
    e, resignada, em vez de olhar os astros
    tudo o que é alto, inacessível, fundo,
    cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
    iria de olhos baixos pelo mundo.

    Não fora o mar
    e o meu canto seria flor e mel,
    asa de borboleta, rouxinol,
    e não rude halali, garra cruel,
    Águia Real que desafia o sol.

    Não fora o mar
    e este potro selvagem, sem arção,
    crinas ao vento, com arreio,
    meu altivo, indomável coração,

    Não fora o mar
    e comeria à mão,
    não fora o mar
    e aceitaria o freio.

    Fernanda de Castro

  2. Amo este poema do António Botto … “e os poetas a cantar são ecos da voz do mar” … Fantástica foto, amigo!

  3. Liliana: Também sou um admirador do Botto. Por isso escolhi este poema para esta foto….

  4. … depois há este: meus olhos que por alguém, deram lágrimas sem fim, já não choram por ninguém, basta que chorem por mim … … —é pois— eu ainda não cheguei à ponte Palma … é a da Qta do Lago?

  5. Adoro a poesia do Botto. Mais um grande poeta portugues quase esquecido e inconpreendido. Maria

  6. É mesmo aqui neste mar que já quase que se vê a costa de África. Boas Festas para todos. Tom

  7. Maravilhosa a poesia do António Boto. Sempre gostei. Portugal é um país de grandes poetas sem dúvida. Paulo.

  8. Não Fora o Mar! Não fora o mar,
    e eu seria feliz na minha rua,
    neste primeiro andar da minha casa
    a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
    calada, quieta, sem um golpe de asa.

    Não fora o mar,
    e seriam contados os meus passos,
    tantos para viver, para morrer,
    tantos os movimentos dos meus braços,
    pequena angústia, pequeno prazer.

    Não fora o mar,
    e os seus sonhos seriam sem violência
    como irisadas bolas de sabão,
    efémero cristal, branca aparência,
    e o resto — pingos de água em minha mão.

    Não fora o mar,
    e este cruel desejo de aventura
    seria vaga música ao sol pôr
    nem sequer brasa viva, queimadura,
    pouco mais que o perfume duma flor.

    Fernanda de Castro

  9. Se é na Quinta do Lago essa é a ponte de madeira das maiores da Europa. ali junto à Ria Formosa. Ana Suzy

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