Os « meninos da policia» – Histórias de uma Professora

Em Setúbal, em 1954, tive uma outra experiência muito linda. Chegada à escola, esperava que me destinassem uma turma quando o Diretor da escola nos entregou uma caixinha com papelinhos «para escolher com quem haviam de ficar os alunos da polícia».

Pensei que eram filhos de polícias mas logo percebi que eram meninos que andavam pela rua e a quem os polícias perguntavam que escola frequentavam. Se eles respondiam que não andavam na escola, a polícia ia falar com os pais e ameaçava que lhes retiravam o abono de família.

A turma que recebi tinha tantos alunos que nem sequer fui obrigada a apresentar serviço.

Os alunos, carentes de afeto e de possibilidades monetárias, recebiam de forma admirável toda a ternura que lhes era dada.

Havia muita fome e as escolas não tinham cantinas. Muitos alunos roubavam.

Um dia apareceu-me um aluno com um peixe grande para me oferecer, pelo que lhe perguntei se o pai era pescador, ao que me respondeu: – Não, professora. Eu roubei-o a um homem rico lá da lota para lhe dar a si.

Foi muito difícil convencê-lo a levar o peixe e que não devia fazer isso.

Os alunos eram obrigados a usar batas mas não havia dinheiro para os pais as comprarem, e isto não era só na classe chamada da polícia. Era geral.

Tempos bem difíceis, esses, mas valeu a pena os trinta e seis anos que vivi a ensinar e a amar as crianças.”

Antonieta 

Fonte:

ps-esta imagem, de finais dos anos 50, não está  diretamente relacionada com o texto.

por José Manuel Vilhena

In Blog : Memória com história –

7 comentários a “Os « meninos da policia» – Histórias de uma Professora

  1. Bela história dessa Professora Primária. Quantas e quantas outras não poderiam contar histórias passadas com elas ?

  2. Uma minha irmã foi professora em alguns sítios bem isolados do país. Muita coisa contava ela e todos gostávamos de ouvir.

  3. Gostei sinceramente desta pequenina história de um dia na escola de outros tempos.

  4. Gostei da pequena historia da Professora que leccionou no tempo do Salazarento. Quantas histórias não haverá por esse país fora. Allan

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