Partida para a Eternidade

eternidade21

PARTIDA EM DIA DE OUTONO

Vai hoje a sepultar uma querida e velha amiga cujo último Outono da sua vida chegou

com as primeiras folhas caídas das árvores da Louletania. Chamava-se Liberdade e tenho a certeza que passou pela Vida com a alegria e a esperança numa outra vida….. um dia. Esse dia foi hoje.

Que descanse por toda a E t e r n i d a d e !

Texto: Palma

Outono. As árvores pensando …

Tristezas mórbidas no mar …
O vento passa, brando … brando …
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar …

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar …

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,

Minha alma sofre e põe-se aflita,

Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar …

Poema de Cecília de Meireles

12 comentários a “Partida para a Eternidade

  1. As partidas são sempre dolorosas. Quer sejam para a Eternidade quer sejam para longe (não em passeio) porque hoje parte-se todos os dias para países longínquos em viagens de férias.

  2. Nestes dias de nostalgia os poemas dos grandes poetas enchem-nos a alma. E Sophia de Mello Breyner também.

    A hora da partida soa quando
    Escurece o jardim e o vento passa,
    Estala o chão e as portas batem, quando
    A noite cada nó em si deslaça.

    A hora da partida soa quando
    As árvores parecem inspiradas
    Como se tudo nelas germinasse.

    Soa quando no fundo dos espelhos
    Me é estranha e longínqua a minha face
    E de mim se desprende a minha vida.

    (Sophia de Mello Breyner Andresen)

  3. A Morte Não É Nada Para Nós

    Habitua-te a pensar que a morte não é nada para nós, pois que o bem e o mal só existem na sensação. Donde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte não ser nada para nós permite-nos usufruir esta vida mortal, evitando que lhe atribuamos uma idéia de duração eterna e poupando-nos o pesar da imortalidade. Pois nada há de temível na vida para quem compreendeu nada haver de temível no facto de não viver. É pois, tolo quem afirma temer a morte, não porque sua vinda seja temível, mas porque é temível esperá-la.
    Tolice afligir-se com a espera da morte, pois trata-se de algo que, uma vez vindo, não causa mal. Assim, o mais espantoso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais.

    Não há morte, então, nem para os vivos nem para os mortos, porquanto para uns não existe, e os outros não existem mais. Mas o vulgo, ou a teme como o pior dos males, ou a deseja como termo para os males da vida. O sábio não teme a morte, a vida não lhe é nenhum fardo, nem ele crê que seja um mal não mais existir. Assim como não é a abundância dos manjares, mas a sua qualidade, que nos delicia, assim também não é a longa duração da vida, mas seu encanto, que nos apraz. Quanto aos que aconselham os jovens a viverem bem, e os velhos a bem morrerem, são uns ingénuos, não apenas porque a vida tem encanto mesmo para os velhos, como porque o cuidado de viver bem e o de bem morrer constituem um único e mesmo cuidado.

    Epicuro, in “A Conduta na Vida”

  4. “Quando uma árvore é cortada ela renasce em outro lugar. Quando eu morrer quero ir para esse lugar, onde as árvores vivem em paz.”

    que bela é esta visão de tom jobim

  5. Partiu, ontem, a D. Liberdade Leonor Rodrigues. Tinha completado 89 primaveras à muito pouco tempo.

    Era a comerciante Louletana há mais tempo em actividade. Levou uma vida inteiramente dedicada ao trabalho. Foram mais de 70 anos de porta aberta, e sempre no mesmo local. Foi a primeira loja comercial a ter um telefone. Se a memória não me atraiçoa o seu número era o 7.

    Recordo o que escrevi na edição de 15 de Janeiro de 2009, n’ A Voz de Loulé, sob o título de «Efeméride»: «no próximo dia 26 de Janeiro de 2009, comemora-se, precisamente, setenta anos que a Drogaria Lys abriu as suas portas ao público. Esta drogaria, aberta pelas mãos do seu histórico proprietário, o Sr. José Lopes Rodrigues, impôs-se em Loulé pela qualidade dos seus produtos e pelo serviço do simpático casal. Após o falecimento do seu fundador, a gerência da casa ficou entregue a sua esposa, a sr.ª D. Liberdade Leonor Rodrigues, que ainda hoje, faz questão de abrir as portas todos os dias. Assim, produtos como a pasta dentífrica medicinal «Couto», o limpa-metais «Coração», o creme para calçado «Viriato» ou os famosos rebuçados para a tosse «Dr. Bayard», tudo pode encontrar à venda na Drogaria mais antiga de Loulé, situada no Largo Gago Coutinho, nº 20 e 21. Feliz aniversário e muitos parabéns à família Rodrigues, pelos setenta anos da Drogaria Lys, são os meus sinceros votos.»

    Levou, igualmente, uma vida interiamente dedicada à Igreja Católica. Durante cerca de 55 anos deu aulas de catequese a milhares de jovens Louletanos. Arranjou altares, principlamente, na Igreja Matriz de São Clemente. Armou andores. Realizou ofertórios. Colaborou, dezenas e dezenas de vezes, com bens do seu estabelecimento para cabazes para os mais desfavorecidos. Etc…

    E o seu funeral não teve honras de Martriz???, teve que realizar-se na acanhada Capela de Santa Ana!!! Não compreendo. Existe algum critério? É preciso ser-se importante. É preciso ser-se figura pública? Ter-se exercido alguma cargo importante na sociedade Louletana? Ocupado alguma posição pública de destaque? Não consigo preceber!

    Muitos anos de contacto com a D. Liberdade possibilitaram-me aferir a sua constante boa disposição. Bem disposta? Sempre. Engraçada? Sempre. Disposta a ajudar os que mais precisavam? Sempre. Vaidosa? Também.

    Em tempos, num rasgo de criatividade viria a alcunhar o meu avô paterno de Santo Aleixo, por causa das complicações da minha avó. Foi há muito tempo. O certo é que a alcunha pegou na família, para desgosto e irritação da minha avó. De qualquer maneira já existia um Santo Aleixo de Roma. A D. Liberdade criou o de Loulé.

    PAZ À SUA ALMA. QUE DESCANSE ETERNAMENTE EM PAZ.

    Do amigo,

    João Chagas Aleixo

  6. Encontrei, pela primeira vez, dificuldade em entender o alcance de um post da Louletania!
    Na verdade não estabeleci ligação entre o “Liberdade” e alguém que eu conhecesse… lamento só agora ter entendido tratar-se da amável senhora da “Drogaria Lys”.
    Essa que é uma loja que frequentei desde há 30 anos… sinto que estou a perder sensibilidade. As minhas sinceras condolências e grandes felicitações à família enlutada!

  7. Caro Dr. João Chagas, o seu depoimento veio enriquecer a nossa humilde homenagem à D. Liberdade que tão bem conhecemos. Há por aí elementos interessantes de que vamos falar no próximo post a colocar daqui a pouco. Obrigado Palma

  8. Caro Almeida: Para quem não sabia do falecimento da D. Liberdade não era muito fácil à primeira saber de quem falávamos. Está agora desvendada a questão . Com a morte da sua proprietária termina assim um dos antigos estabelecimentos da velha cidade de Loulé. Aos poucos vão-se perdendo referência importantes da vida de cada um de nós. Mas nada detém o tempo.
    Abraço _ Palma

  9. Amigo Palma,

    antes de mais deixe-me agradecer-lhe as palavras elogiosas que teceu ao meu depoimento. Muito obrigado.

    Quanto às informações que lhe solicitei, no pretérito sábado, já sabe alguma coisa? Dados novos? Referências em que possa procurar? Livros que possa consultar? Conto com a sua ajuda.

    Abraço do,

    João

  10. Caro João Chagas: Das buscas que fiz e das pessoas com quem falei nada de novo posso acrescentar em relação à nossa conversa de sábado passado. Penso que realmente não terá sido feita qualquer representação do tal texto. Até pode ser que tenha acontecido mas para já não temos notícia por quem e onde. De qualquer modo se eu tiver algum novo conhecimento transmitirei. Abraço – Palma

  11. Tem razão o Snr. Chagas Aleixo. Em Loulé passam-se coisas do arco da velha. Já tive oportunidade de assistir a funerais na Igreja Matriz. A D. Liberdade que conheci embora não sendo amiga íntima , foi uma senhora que trabalhou em prol da comunidade católica sendo certo que não fazia distinções entre religiões para ser amiga de alguém. Não teve direito a uma despedida na Igreja que ela tantas vezes trabalhou. Calemo-nos. Isabel

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