Poema erótico de Bocage

II  [SONETO DO EPITAPHIO]

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daquelles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:

Não quero funeral communidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gattarrões, gente de malta,
Eu tambem vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada edosa
Sepulchro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitaphio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".

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Autor :Manuel Maria Barbosa du Bocage

Foto: Setúbal – Casa onde nasceu o poeta Bocage

6 comentários a “Poema erótico de Bocage

  1. É interessante saber alguns pormenores de Bocage e da sua morte. Encontrei algures o seguinte texto:
    Memória de Bocage
    por António Mendes Nunes,

    Nas biografias de Manuel Maria Barbosa du Bocage consta com precisão onde nasceu, quem eram os pais, por onde andou, o que fez, a sua obra, onde esteve preso (às ordens de Pina Manique), onde viveu os últimos dias e até de que morreu, mas é pouco conhecido o local onde foi sepultado e o descaminho trágico que os seus ossos levaram. Júlio de Castilho, no volume III do “Bairro Alto”, conta-nos a história.
    Bocage morreu na sua casa, na Travessa André Valente, no actual nº 25, ao Bairro Alto, a 21 de Dezembro de 1805, com 40 anos, vítima de aneurisma. Nessa altura, no quarteirão entalado entre a Rua dos Caetanos, a Travessa das Mercês e a Rua Luz Soriano, existia um cemitério.
    Na sequência da vitória dos liberais, em 1834, foram proibidos os enterramentos em igrejas e adros, tendo-se construído os dois grandes cemitérios de Lisboa, o dos Prazeres e do Alto de S. João. Esteve muitos anos abandonado o pequeno cemitério das Mercês, até que em 1897 foi o espaço vendido em hasta pública para nele se construir uma fábrica de carruagens. O construtor, Oliveira Silva, homem de alguma cultura, sabia que no coval 36 estava sepultado Bocage. Apesar dos seus esforços, apenas conseguiu promessas. Conforme podia, Oliveira Silva lá ia deixando aquela parte do chão do cemitério para o fim. Mas a incúria e a burocracia acabaram por atirar os restos mortais do poeta para uma vala comum do Alto de S. João.

  2. Aa censura perseguiu Bocage durante toda a sua vida. Muitos versos foram cortados, outros ostensivamente alterados, poemas houve que só postumamente viram a luz do dia. Compreende-se plenamente o seu anseio desesperado: “Liberdade, onde estás? Quem te demora?”

    M. Claire

  3. Grande Bocage. Poeta maior para lá do anodetário nacional. Pena que as suas ossadas se tivessem perdido pela descuria da época. Merecia repousar o lado de outras grandes figuras das letras portuguesas.

  4. De uma colectânea de Sonetos extraí este do Bocage de que agora falam. Um mestre da poesia este Manuel Maria.
    Meu ser evaporei na lida insana
    Do tropel de paixões, que me arrastava.
    Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
    Em mim quase imortal a essência humana.

    De que inúmeros sóis a mente ufana
    Existência falaz me não dourava!
    Mas eis sucumbe a Natureza escrava
    Ao mal, que a vida em sua origem dana.

    Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
    Esta alma, que sedenta em si não coube,
    No abismo vos sumio dos desenganos.

    Deos, oh Deos!… Quando a morte a luz me roube,
    Ganhe num momento o que perderam anos,
    Saiba morrer o que viver não soube.

  5. Que pena não se estudar nas escolas aprofundadamente como outros, este genial poeta.

  6. Um dos maiores poetas portugueses de sempre é injustamente esquecido neste país de Relvas, Cavacos e outros que tais.
    Zeca XXX

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