Por terras de Vila Velha do Rodão

Numa curta visita a familiares residentes na Beira Baixa, algures no concelho de Vila Velha do Rodão, fiquei agradavelmente surpreendido quando de um passeio na tarde de quinta-feira ao Castelo de Rodão , ou melhor dizendo, à sua torre-atalaia, de forma quadrangular, erguida provavelmente pelos Templários . Dali se disfruta uma vista assombrosa sobre o Rio Tejo, que uns quilómetros antes faz a sua entrada triunfal em terras de Portugal, podendo passar-se naquele local uma tarde agradável entre as urzes dos campos e o cantar dos pássaros que alegremente saudam a Primavera.

“A Câmara Municipal continuando o esforço em melhorar os espaços existentes, apostou na valorização da área envolvente ao Castelo de Ródão e da Capela Nossa Sra do Castelo. Assim, restaurou todo o património histórico existente e, igualmente, tirou partido das potencialidades naturais e paisagísticos do local. Da intervenção resultaram melhores acessos; uma área de recepção com estacionamento para 8 a 10 viaturas; um adro pavimentado com pedra da região; um miradouro natural sob a forma de plataforma arrelvada; uma zona de merendas prevendo instalações sanitárias, mobiliário apropriado e recolha de lixo; uma rampa de acesso ao Castelo; um recinto muralhado destinado à recepção de visitantes; zonas de circulação viária e pedonal; uma estrutura metálica a sul do recinto muralhado que funciona como miradouro e um caminho em torno da muralha até ao miradouro.
Neste momento toda esta zona histórica está em óptimas condições de ser visitada tratando-se de um belo cartão de visita do concelho de Vila Velha de Ródão. “

Fonte: Site da CM de Vila Velha

Fotos: Palma -Louletania

9 comentários a “Por terras de Vila Velha do Rodão

  1. Quem passa a Vila Velha do Rodão por sobre a ponte pode observar uma paisagem lindissima chamada (As Portas do Rodão ). O Rio Tejo passa entre dois montes tornando a paisagem
    uma coisa para não esquecer. Minna

  2. Aí está uma terra que merece uma paragem para apreciar as suas belezas naturais. Estive nesse lugar há uns anos, antes das obras que agora já estão terminadas. Vale a pena sentarmo-nos nesse miradouro por algum tempo e sentir a força da natureza. Ideal para quem está sem forças para recomeçar a vida. Tittus

  3. Já que estão falando do meu Distrito – Castelo Branco fica por aqui esta canção dedicada à minha Beira cujo autor desconheço.

    Oh Castelo Branco, Castelo Branco
    Mirando o cimo da serra
    Ai, mirando o cimo da serra!

    Ai. quem nasceu lá em Castelo Branco,
    Nao é feliz noutra terra
    Ai, mirando o cimo da serra…

    Eu nasci na beira, sou homem pequeno
    sou como o granito bem rijo e moreno!
    Eu nasci na beira, sou homem pequeno
    sou como o granito bem rijo e moreno!

    la la la la laaaa laaaa
    Meu bem quem me dera, lá nos altos montes,
    andar ao sol todo o dia
    Ai, andar ao sol todo o dia…
    Beber água fresca lá pelas fontes
    Cantar como a cotovia
    Ai, andar ao sol todo o dia

    Coração da serra não ama a cidade
    Só na sua terra se sente à vontade
    Eu nasci na beira, sou homem pequeno
    Sou como o granito, bem rijo e moreno

    la la la la laaa

  4. Os ladrões não desistem e até o fossil dos Perais foi levado certamente durante a noite já que não seria muito dificil no lugar onde se encontrava. É o caso do Tronco Fóssil dos Perais. É um grande fragmento de tronco petrificado, mede 1 metro de diâmetro e tem uma idade superior a 5 milhões de anos. Foi identificado pelos paleobotânicos como Annonoxylon teixeirae, uma espécie de anoneira encontrada pela primeira vez em Portugal. Quem souber do seu paradeiro é favor contactar as autoridades.

  5. É natural que a ladroagem o tenha levado para terras de Espanha que ficam ali a meia dúzia quilómetros. É fácil de levar e muito dificil de descobrir. Certamente alguma casa senhorial espanhola o deve exibir num seu jardim, quem sabe ?

  6. Caros amigos muito obrigado por entrarem nesta viagem a Vila Velha do Rodão que é sempre um lugar de belo contacto com a Natureza. Boa semana. Palma

  7. Agora que a Páscoa já passou desejo-vos um bom Abril. E Viva Vila Velha do Ródão onde tenho dois amigos do coração.

  8. Olá Palma
    Vim aqui parar pq tenho alerta no Google para Fratel e apareceu-me a sua visita à estação de Fratel que é a minha terra. Mas como trabalhei em Faro de 1985 a 1087 na PT e tenho uns metros cúbicos em Pedras d’el Rei vou aí abaixo de vez em quando ( lá passo na Ribeira do Cadoiço, não é ? Belo nome para a peça de teatro ) e conheço algumas pessoas em Loulé. E até já visitei a mina de sal gema aí por baixo dos vossos pés. Pode dizer-me qual a terra dos seus familiares na Beira ? Se for ali pelos lados de Fratel, às tantas até os conheço !
    Estou a escrever de Lisboa, onde normalmente estou mas vou à Beira com regularidade. Pode responder para o mail, claro.
    Cumprimentos.
    António Belo

  9. Perseguido pelas forças armadas

    Fundamental ao meu processo de ascensão à tona, quase uma “ressurreição”, foi ter-me engajado com ONG que pareciam adequadas aos ideais que cultivava e à necessidade vital/prioritária de me reencontrar no campo.

    Voluntarioso, mal soube que na biorregião do Tejo Internacional (quando ainda não beneficiava do estatuto de Parque Natural) , aceitavam paus para toda a obra, trabalhando de graça, para lá me dirigi. E gostei tanto da experiência que a repeti várias vezes por ano, acabando até por lá conseguir um emprego – ganhando um salário mínimo (que, em média, era pago trimestralmente); não tendo nem férias nem fins de semana; dormindo em ruínas (onde até os ossos enregelavam no Inverno, e suava as estopinhas no Verão); não dispondo de água canalizada nem luz elétrica (esta última chegou, via energia solar, quando eu estava próximo de ir embora) e tendo o mato como “casa de banho” (o chuveiro era um balde furado no fundo que, depois de cheio com água de um poço, era pendurado numa árvore, ao ar livre). Enfim, não precisava de muito mais do que isso. Gostava da minha rotina sempre surpreendente e revigorante.

    Uma dessas viagens terapêuticas teve um desfecho deveras bizarro.

    Encontrava-me numa estação de combóios devorando um livro (de Jorge Amado ou de Sartre), tendo pela frente várias horas de espera. Nisto surgiu um policial que usou o seu olhar como uma rede de tarrafa sobre mim. A sua linguagem corporal era bastante eloqüente no destilar do ódio preconceituoso. Aquilo me incomodou. A censura prepotente, principalmente quando fardada e armada sempre me causou pruridos. Levantei-me e atravessei a rua para me enfiar numa cabine telefónica, pois precisava de avisar a minha mãe que eu iria chegar nessa noite. Depois fui lanchar, e logo esqueci o tal policial. Quem me dera que ele tivesse feito o mesmo em relação a mim…

    Já era hora de jantar quando entrei no combóio, pouco animado pela perspectiva de que este iria parar em todas as estações e apiadeiros, prolongando demasiado a viagem num horário que nem dava para apreciar a paisagem. Cansado, deixei que o sono me vencesse.

    Ainda mal tinha percorrido uma vintena de Km quando voltou a parar num vilarejo que, devido à indústria de celulose desregulada, tresandava horrivelmente. Fui bruscamente acordado por um soldado da GNR (Guarda Nacional Republicana). A primeira coisa que reparei nele foi que o braço que não me sacudia estava crispado numa metralhadora! Atrás dele, a entrada do compartimento estava flanqueada por outros dois militares de metralhadoras em riste – apontadas para mim!! Os seus dedos nos gatilhos e a tensão nos rostos. Mais perplexo do que apavorado/assustado, pedi explicações. Não me consideraram digno de tal respeito. Subitamente eu tinha perdido os meus direitos civis. Submisso, eu apenas insisti que certamente se trava de um mal entendido. Um quarto soldado, espreitando desde o estreito corredor, lia a descrição de um suposto criminoso que em tudo coincidia com a minha aparência! Realmente, seria extremamente difícil viajar naquele combóio outro jovem de rabo de cavalo, brinco, óculos redondos, camisa e boné verdes, calça cinzenta, acompanhado de uma mochilona amarela. Era até pouco provável que houvesse outro mochileiro a bordo. (Aquela região do país ainda não atraia esse tipo de turistas, muito menos em tempo de invernia.) Mesmo assim, sabendo-me inocente de quaisquer crimes, eu insistia para que revistassem os restantes vagões – eu não poderia ser o gajo que eles procuravam!

    Seguindo ordens inflexíveis, coloquei a mochila nas costas e saí do combóio de mãos na nuca e cutucado por metralhadoras. Mal me apiei, arrancaram-me a mochila e a arrojaram ao chão – ai, os binóculos emprestados! Uma manápula na parte de trás do meu pescoço prensou-me a cara contra a parede. Ali mesmo me revistaram, passando as mãos por partes do meu corpo que eu desconhecia, e me rasgando a camisa.

    Foi um espetáculo de brutalidade escusada que teve por audiência todos os passageiros do combóio, debruçados sobre as janelas. Estes, ainda hoje deverão contar a excitante aventura de ter viajado com um criminoso de monta; quiçá até um terrorista! Pelos gestos e comentários que me dirigiam alguns populares ali presentes, dava para perceber que não desperdiçariam a oportunidade de “molhar a sopa”, ou até linchar um alegado meliante – desde que este último não tivesse a menor chance de se defender -, como um dever cívico.

    Eu pedia calma aos meus captores e lhes assegurava que não iria oferecer resistência, menos ainda retaliado a violência gratuita de que estava a ser vítima; apenas queria ver resolvido aquele quid pro quo. Tal atitude, mais do que um reflexo do meu pacifismo convicto, era puro pragmatismo: que ameaça eu – um garoto inerme, com 1,74m de altura e 63Kg de peso – poderia representar para 7 brutamontes armados até aos dentes e que mal me davam espaço para respirar?! O mais truculento deles, encostando a carantonha dele à minha, deu-me uma cabeçada que me deixou os óculos tortos. De seguida, em surdina, pediu para eu revidar, pois ele estava doido para me dar um enxerto de porrada (sic). A sua mão, fremente, não parava de acariciar o cassetete. Eu fiquei quieto, o que não me livrou de ele me dar umas joelhadas e chutes nas canelas – primeiro com a subtileza com que alguns seguranças de políticos tratam os jornalistas mais inconvenientes, contando que a turba oculte os seus golpes baixos dos olhares civis, principalmente quando existem por perto câmaras de filmar e de fotografar… Pretendia se afirmar com a sua versão provinciana/matarruana do Cobra ou do Dirty Harry.

    Não era o único que contava com a impunidade dos seus covardes abusos de poder, sabendo ser um ponta de lança no monopólio da violência estatal. Energúmenos deste calibre pretendem que fiquemos dominados pela idéia que a nossa vida nada vale e está, literalmente, nas mãos deles. Ao me negar os meus direitos civis mais fundamentais, coisificava-me. É uma das piores sensações que podemos experimentar.

    Chegados ao estacionamento da estação, empurram-me para dentro de um jipe UMM, ainda tendo que enfrentar uns “mimos” ao estilo corredor polonês. Fui levado ao posto da GNR mais próximo, onde outros soldados se juntaram à festa da minha humilhação & ultraje a rigor, compondo o batalhão dos broncos… (Como justificar o salário de tantos soldados naquela pasmaceira?!)

    O ambiente de caverna infecta, lhes acentuava o aspecto de trogloditas alarves. Leonardo da Vinci teria considerado alguns deles interessantes objectos de estudo – para os seus desenhos de cabeças grotescas. Calculei que a consangüinidade deveria ser um problema feio por aquelas bandas, mas não menos grave do que o alcoolismo. O indubitável bafo etílico acentuava-lhes a boçalidade. Tudo ali combinava obscenamente com a atmosfera nauseabunda que dominava a vila.

    Colocado no centro de uma pequena sala (entre uma bem abastecida garrafeira e uns sofás ladeando uma lareira acesa), fui comprimido ao limite do sufoco. E ordenaram que eu tirasse as minhas roupas; mas não ao ponto de ficar nu. Voltaram a me revistar, assim como retiraram tudo o que eu tinha na mochila. Claro que nada de incriminatório foi encontrado. Na minha ingenuidade, nem cogitei que eles poderiam plantar algo ilegal entre os meus pertences (como, entretanto, já fui ameaçado por policiais brasileiros procurando me extorquir…).

    Ao contrário do que eu assistia nos filmes estadunidenses, não leram os meus direitos, nem sequer deixaram que eu fizesse um telefonema. É claro que eu não tinha o contacto dum advogado, mas precisava avisar os meus pais, que ficariam preocupados ao me esperar em vão na estação (distante uns 10 Km da sua residência, sem que houvesse transportes públicos aquela hora tardia, e ainda faltando alguns anos para que os telemóveis se tornassem ubiquistas). Debalde, dei-lhes os contactos dos meus pais, assim como das pessoas que poderiam confirmar o meu paradeiro na última semana que passei num ermo. Nem me escutaram.

    O único soldado não amontoado sobre mim, estava num canto, ao telefone. Ele me descrevia em voz alta, repetindo as indicações dum compincha do outro lado da linha. E pediu a alguém para exibir melhor algumas particularidades associadas à minha cabeça. Adivinhem quem de imediato cravou/fechou as tenazes dos seus dedos sobre os meus maxilares? O bruto deu um par de safanões em direções opostas com a finalidade de exibir de ambos os lados o meu perfil, confirmando o que era evidente para todos os presentes: eu exibia a heresia de uma argola na orelha esquerda.

    O que telefonava disse:<> Me empurraram em direção à porta por onde tinha acabado de entrar, apenas me informando com ominosa ambigüidade que iríamos dar uma volta na serra…

    Eu limitei-me a perguntar se deveria, ou não, levar a minha mochila. Como resposta, o guarda que me tomou de ponta, passou por mim dando-me uma carga d`ombro e rosnou um comentário irónico:<>

    De nada adiantou dizer que jamais tinha sido preso. Ainda se passariam alguns anos até participar em manifestações de rua que descambaram nas previsíveis refregas com as forças policiais.

    Pude levar a mochila, mas não me deram tempo de vestir um agasalho que me pudesse dar um mínimo de conforto físico naquela noite de Inverno. De volta à caixa aberta do jipe, apenas uma lona me protegia parcialmente do vento cortante. À minha frente iam sentados três soldados.As suas G3 apoiadas nos músculos sartórios, mantendo-me na mira. Reparei que um deles destravou a arma, enquanto seguíamos aos solavancos por uma estrada em mau estado e cheia de curvas apertadas. Não é de admirara que eu fosse tomado por pelos piores pensamentos quanto ao desfecho daquele rapto. Concomitantemente, a lógica casuística passava em revista todas as possíveis ofensas à lei que eu pudesse ter cometido na minha vida pacata, inócua e inútil. Tentei um novo apelo ao bom senso e à “compaixão” dos meus captores, enfatizando que estavam a cometer um terrível engano. Nesse momento, o único guarda que se revelou uma pessoa decente, tentou me confortar um pouco, afirmando que, se eu tivesse razão, logo aquele problema seria esclarecido e eu poderia ir à minha vida – o que provocou uma risadinha sardónica / mefistofélica no Pidão de plantão…

    Tive que jogar um bluff. Fingindo calma, informei-lhes que iria publicar um artigo sobre o Tejo Internacional e o papel da ONG (com um nome sonante nos mídia) para a qual trabalhava, considerando aqueles suplícios que me estavam a sujeitar como “a cereja no topo do bolo” para os leitores do jornal. Notei que essa informação perturbou indisfarçavelmente o odioso militar que mais me atormentava e mal podia esperar o momento em que pudesse descarregar toda a violência que o consumia, se exibindo. Ele ia sentado na cabine. Voltando-se para trás, não resistiu a me perguntar:<> Confirmei. Dessa vez ele se absteve de retrucar alguma humilhação, ficando em silencio algo apreensivo.

    No meio de lado nenhum, apenas vislumbrando as íngremes ribanceiras na borda da estrada sem trânsito nem iluminação, mandaram-se descer do jipe. (Não, agora deveria deixar a mochila lá dentro.) Numa curva beirando o precipício onde fizeram um acostamento para camiões, deparei-me com uma cena aterradora: um pequeno exército de soldados me aguardava! Seriam uns trinta e me olhava com como predadores esfaimados! Não tinha a menor lógica que um inofensivo Zé-ninguém, como eu, justificasse tal aparato policial. Prontamente me rodearam. Pensei que ali poderia ser assassinado – sem fazer a menor idéia do porquê, tal como algumas vezes tinha sido espancado em casa apenas para aliviar a frustração proterva dalguns familiares. Mas mantive a compostura; em momento algum implorei pela minha vida. Não lhes iria dar esse gostinho.

    Nisto abriram um corredor por onde avançou um rapaz vestido à civil e pouco mais velho do que eu. Percebi que ele também estava um pouco intimidado. Os guardas voltaram a fechar o círculo connosco no centro. Apresentado uma expressão néscia, ele me fitava intensamente. Um dos guardas com mais símbolos fálicos no ombro perguntou-lhe:<> O rapaz enrugou a testa e semicerrou os olhos, se aproximando demasiado da minha cara. (Tanto que eu consegui decifrar o acre cocktail olfativo composto por gasóleo, chouriço, cerveja e suor estressado. Nessa noite até a minha hiposmia foi testada…) Pediu para eu tirar os óculos. Obedeci. Ele balançou lentamente a cabeça de um lado para o outro, à semelhança do que fazem os cães quando falham em nos entender.

    Como a minha percepção do mundo já então era bastante Kafkaniana, eu esperei escutar um <> que provocaria sobre mim uma avalanche de socos, pontapés, coronhadas,… Mas o rapaz disse um <> assertivo. A horda fardada emitiu em uníssono um gutural suspiro de frustração. E, me ignorando, dispersaram, regressando aos seus veículos – inclusive os que até ali me tinham levado -, deixando um rasto de resmungos amofinados. Aí mandei às urtigas a minha submissão de cordeiro que espera no matadouro, e exigi explicações, exasperado/tempestuado. Apenas me responderam:<> Esta estória escabrosa só foi esclarecida de volta ao covil deles.

    Algures, distando dezenas de Km de onde eu tinha estado nos últimos dias (e até anos), um homem furtou um carro; e, em fuga, teve que o abastecer de combustível. Esse serviço foi-lhe prestado pelo tal rapaz chamado a me identificar, ganhando aqui importância como sendo a única testemunha ocular capaz de reconhecer o criminoso. Na primeira abordagem que os policiais lhe fizeram, lá na terrinha dele, cooperante, forneceu uma discrição do larápio – que em nada coincidia com a minha aparência! (Quando nos encontrámos cara-a-cara, porque cargas d`’agua ele precisou que eu removesse os meus óculos, e até contou quantos cílios eu tinha?!) Os agentes destacados para o caso foram expeditos ao espalhar essa informação, na ânsia duma rápida captura. Chegaram a enfiara o seu nariz de sabujo na estação de combóios onde eu tinha estado naquela tarde. Aproveitaram para perguntar ao policial que por ali fazia ronda se ele tinha visto alguém suspeito. O homenzinho do quepe azul, provavelmente saudoso da PIDE, não teve dúvidas: mais do que encabeçar a lista dos suspeitos, eu certamente era o tipo que eles procuravam! “Confirmando” a infundada convicção estava a minha aparência pouco católica e o acto subversivo de eu ler um livro – dalgum intelectual de esquerda, cruzcredo!

    De realçar um pormenor crucial: quando abordaram esse policial que açulou no meu encalço o que me pareceu grande parte do contingente da GNR estacionado no Distrito de Castelo Branco, mudando radicalmente o curso da investigação/caça ao homem, tinham em mãos a discrição do verdadeiro (?) ladrão, assim como do carro em que ele seguia – mas resolveram ignorar essas informações, apenas para que um imbecil ocioso e preconceituoso pudesse “brilhar, honrando a farda e a pátria”! É quase inacreditável.

    O próximo combóio (com o destino que me convinha) chegaria por volta das 6 de manhã. Sendo eu um probretão com os troquinhos bem contados no bolso e sem conta bancária, por acaso apenas tinha o suficiente para comprar outra passagem, retomando a viagem de regresso à casa materna. Não tendo como custear a dormida nalguma pensão, nem sequer uma simples refeição, e estando frio demais para perambular/zanzar pelas ruas até ao alvorecer, ainda tive que engolir o “sapossauro” de passar o resto da noite no posto da guarda, em companhia de um par de soldados – inclusive o mais filho da puta – que se fartaram de troçar do meu aspecto, deixando evidente que a sua maturidade capacidades cognitivas tinham parado no pátio dalguma escola primária (a única instituição de ensino que freqüentaram), onde certamente se divertiam atormentando os outros meninos menos robustos.

    Indiferentes à desgraça que me causaram, quando lhes pedi que, pelo menos, me indenizassem o custo da viagem perdida, responderam-me que nenhuma lei os obrigava a tal.

    Ninguém me pediu desculpas, mas, antes de partir para o conforto do seu lar, o soldado que tinha me dado o óbolo dum pequeno conforto psicológico no pior momento (quase podendo ser considerado simpático, por comparação com as outras cruentas aventesmas), com brevidade, sentou-se ao meu lado, voltando a me dirigir a palavra – para dar um recado aos demais: <> E olhou em direção à maior besta, que, sentindo as orelhas quentes, limitou-se a bufar o seu desprezo arrogante. Ainda me explicou que aquela operação que resultou na minha detenção tinha sido completamente ilegal, pois, segundo ele, passado um número x de horas (5?) após ser perpetrado o alegado crime (prazo já expirado quando eu me tornei presa deles), as forças policias precisam de um decreto assinado por um juiz que as autorize a perseguir alguém. Pois é, amiúde tenho escutado de policiais que <>

    E pensar que, volvidos poucos anos, parte destes “bravos soldados”, por carreirismo, viria a integrar a nova divisão de proteção ambiental… Felizmente que entrou sangue novo na corporação, assim como a sociedade civil, paulatinamente, também os forçou a ter mais respeito pelos princípios democráticos.

    Prescindi de apresentar queixa contra eles. Na época nem sabia como fazê-lo e achava que os prevaricadores fardados não seriam punidos, sobretudo quando acusados por um pelintra meio hippie e com o rosto ainda marcado pelo acne juvenil.

    Comparado com as atrocidades que eu tinha conhecimento alguns policiais cometerem regularmente contra os miúdos morenos dos bairros da lata na periferia de Lisboa, essa minha desventura era uma ninharia; e, infelizmente, em numerosos países, onde a vida tem pouco valor, poderia até ser considerada um passeio no parque para qualquer membro duma minoria oprimida.

    Nem me lembrei que a minha mãe cultiva uma longa amizade (desde os tempos de colegial) com uma das juízas mais notórias de Portugal, cujo esposo (entretanto falecido) os mídia chamavam “o superpolícia”, pois ele tinha o poder de decidir quais os policiais que deveriam ser processados devido a irregularidades no exercício das suas funções pagas com os nossos impostos.

    Sempre fiquei à margem de cunhas & compadrio. Por isso, não incomodaria esse excelso casal, atarefadíssimo com casos muito mais graves. Menos ainda conseguiria dizer a alguém: <>, sem soltar uma gargalhada.

    Apenas uma vez consegui utilizar a meu favor os preconceitos que habitualmente pesavam sobre mim: foi para escapar ao serviço militar obrigatório. Merecia ter ganho um Óscar, mas recuperei algo muito mais importante: a minha liberdade e integridade psicofísica.

    Nas imediações da vila onde fui detido pela GNR, semelhante a um gigantesco portal, cortada pelo represado e poluído rio Tejo, existe uma crista quartzítica que abriga uma das maiores colônias de grifos (Gyps fulvus) encontradas em Portugal. Mesmo não sendo uma pessoa vingativa, devo admitir que, nalgumas vezes que regressei a esse local para observar aves, fantasiei reencontrar (certamente caçando) o tal guarda que tanto me mal-tratou, a fim de, num privado mano a mano, acertarmos contas, recorrendo aos meus recém aprendidos truques de artes marciais/defesa pessoal. Ainda bem que tal nunca aconteceu. Seria um erro em dissonância com a minha índole.

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