QUANDO LOULÉ ERA UM MANTO VERDE

Quando descia ontem a Praça da República, a horas que o calor já abrazava, alguém de idade um tanto avançada perguntava:- Não acha que as árvorezinhas que aqui estavam eram como uma fonte para as nossa cabeças ? – Respondi-lhe que sim mas argumentando, que se diz por aí… que vão ser plantadas novas árvores ao longo dos passeios. Resposta pronta:- De que me serve isso ? Quando elas derem sombra já cá não estarei. Eu precisava delas…. era agora, nestes tempos em que ainda posso passear por aqui.

E na verdade há vinte e tal anos Loulé era na realidade um manto verde como se pode ver no postal ilustrado editado nessa altura.

Aqui deixo dedicado à anciã que hoje passou por mim e me questionou sobre as sombras de que tanto gostava, (parte) deste belo poema de Nicolau Saião.

ººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººººº

Gostava de ter árvores como alguns têm flores.
Árvores, muitas árvores: laranjeiras, pinheiros, uma oliveira ao pé
do mar, se eu tivesse uma casa a sotavento das dunas
como as que se adivinham em certos quadros de Cézanne
se a luz é muito clara e permanece
com velhos nomes gregos que não sei.
Nespereiras, limoeiros, uma que outra ameixoeira
parecendo, vistas de longe, ser
de uma substância estranha e desconhecida.
Não me importava, até, de em tardes de calor
ter dentro do meu quarto um abrunheiro donde pendesse
um decente e fraternal cadáver.

Gostaria de me rodear, um dia, de videiras
– essas árvores turvas da esperança –
e quando digo rodear sei o que digo, pois
queria que se enrolassem nos meus rins, nas espáduas
me descessem pelas pernas e lançassem
perto do meu sexo folhas novas
e que, ao lusco-fusco, enquanto no céu passam
os pequenos satélites mortais e luminosos que o desespero
do Homem lá coloca, por surpresa se transformassem
em plantas de gesso de frutos impensáveis.

Sei perfeitamente que uma árvore é um símbolo
obscuro da nossa vida, principalmente da nossa vida
que não houve. Mas mesmo assim
dentro das ruas, dentro das casas
as árvores têm um outro entendimento
um mistério muito delas
– e não completamente inventados –
pois não desprezam a agonia dos homens, o choro dos homens
o seu riso, a sua fome, os sinais todos
que o Homem podia e devia ter.

As árvores começam e acabam sem amor
e sem ódio.

(Nicolau Saião)

17 comentários a “QUANDO LOULÉ ERA UM MANTO VERDE

  1. Será que acertei ? – 1ª em cima à esquerda Avenida José C. Mealha; ao lado Jardim dos Namorados; em baixo à esquerda Jardim do Largo de S. Francisco e ao lado Centro de Loulé e Praça da República. Há prémios para quem acerta no verde mesmo sendo do Benfica ? Belinha

  2. E acertou apenas falhando no nome do Jardim que é dos Amuados e não dos Namorados. Mas também é verdade que em tempos, já foi jardim para namorar. Quanto aos prémios terão que se contentar com um ou outro elogio pois o tempo de crise que atravessamos não nos permite ter réguas ou porta-chaves para oferecer aos nossos leitores.

  3. Luísa: Mas será alguma maldição desta época ? Será que os jardins e avenidas modernas só podem ter calçadas e pequenos arbustos para enganar o freguês ?

  4. Palma, se fosse neste tempo bem podia dar-lhe os bons dias com verde e à sombra, hoje, nem uma coisa nem outra… e nem de propósito, estava a preparar uma série de fotos cá do bairro para lhe enviar e fazer-vos “inveja” do verde que por aqui existe… uma das pracetas por exemplo, mais parece um pavilhão fechado onde as árvores não deixam entrar o sol… tem bancos para descansar e ler as notícias do que por aí se faz,rsrs. Se alguém estiver interessado em imigrar, aconselho a vir para o meu bairro onde não falta nada… transportes para todo o lado, metro à porta, correios, centro de saúde, escola, esquadra da Polícia, muitas casas para vender, (baratuchas devido à crise), pracetas onde as crianças brincam à vontade, e o mais importante, as Finanças para que ninguém escape ao fisco,rsrs… a escolha é vossa, ou vivem à sombra, ou continuam a viver à torreira do sol,rsrs. Inté. L.F.

  5. Luis Furtado: Essa é a grande proposta deste Verão. Um bairro com todas essas regalias não se encontra por aí com facilidade. E ainda por cima com verde, verde, verde frescura e sombra que nestes dias tanta falta faz a muita gente. Certamente deve ser um Bairro onde se canta aquela cançanita antiga:
    Ai! Verdinho, meu verdinho
    Já saíste da videira (bis)

    Escorrega devagarinho
    Apaga-me esta fogueira (bis)

    Que importa o verde ser verde
    Se nos faz cantar na rua

    Ai! Verdinho, meu verdinho
    Não há cor igual à tua (bis)

    Ai! Verdinho, meu verdinho
    Ouve bem o que te digo (bis)

    Não há pedras no caminho
    Quando tu andas comigo

    Que importa o verde ser verde
    Se nos faz cantar na rua

    Bom fim de semana

  6. Palma uma triste noticia a dar,soube à pouco que morreu o João da Farmacia Avenida,num acidente.Boa noite.

  7. Olá Palma,

    Lindas imagens do Louroé de há uns bons tempos atrás. Com maisombra e frescura. Luís Furtado, esse é mesmo o bairro de sonho. Nós por aqui começamos a passar as torradinhas do Algarve. Certo, novas árvores foram plantadas, mas até darem frutos, vão-se os filhos e crescem os netos. Abraços aos dois. Lamento o desaparecimento de mais um dos nossos conhecidos e para alguns amigos da maneira sempre dramática…
    Abraços
    João Martins

  8. Boa tarde … oi Isa , vim aqui e deparo-me com a triste notícia …
    Palma, que linda era a vila!!! realmente, a av. agora parece que está careca !! av. e não só … Bom domingo … extensivo à capital , melhor dizendo ao nosso amigo …

  9. Isa: Soube ontem à noite aqui por um vizinho… mas a gente fica sempre na esperança que não tenha sido fatal….
    mas foi. Abraço

  10. João: Obrigado pela deferência em relação a este post no seu Mc Loulé.
    Olhando o postal há realmente uma diferença abismal. Essa das torradinhas…. do Algarve….rs.. Bom domingo.\\\ Liliana: A notícia que a Isa trouxe é realmente triste. Calcule que tenho aqui uma foto da escola primária há uns dias para entregar ao João pois andámos na Escola da Barreira na mesma turma…. e afinal. Estas surpresas da vida…… Abraço – Palma

  11. Não sei Palma, se foi por ódio por por amor…
    Aquilo que sei, porque o têm mostrado, é que estes senhores que governam a Cidade não gostam de Loulé!
    A força de tanto desejarem estar nas luzes da ribalta de um jet7 tonto e de uma juventude errante que só quer música, estão a desvirtuar a Terra e a perder as Gentes.
    Burros são e só muito tarde aprenderão que a Festa é bonita mas só o trabalho da o Pão que todos precisamos…
    Quando derem pelo Lugro será tarde e terão destruído as Raízes que fizeram as pessoas de Loulé… Malditos sejam os que odeiam as Árvores e destróem a saúde!

  12. Almeida: Nota-se no teu comentário alguma desilusão e até revolta pelo que vai acontecendo por aqui. Naturalmente que o teu blog tem chamado a atenção para determinados problemas da cidade e da freguesia onde resides, e já deram frutos algumas chamadas de atenção pela tua parte. Um cidadão atento e que gosta de Loulé.

  13. Felicito o Palma pelo lindíssimo postal ilustrado de Loulé…antigo!!! Infelizmente sabemos que a cegueira dos eleitos locais continuará e, pelo exemplo da Ancha, a anciã e todos nós temos motivos para duvidar que venhamos a beneficiar da sombra das novas árvores…E será que nossos filhos vão vê-las e conhecê-las esplendorosas como nós tivemos oportunidade de as conhecer e como as fotos documentam?

  14. Caro amigo Jorge penso que não existem muitos postais sobre Loulé com tão luxuriantes paisagens. Avenida
    Costa Mealha, Largo Centra, Praça da República e Jardim dos Amuados. Já tenho falado várias vezes da pena que senti quando vi a Rua Ancha sem as mais frondosas e belas árvores de Loulé. Obrigado pela visita. Palma

  15. Palma; para que o “meu” bairro fique mais verde e salpicado de branco uma vez por ano, já está combinado com os jardineiros a plantação das Amendoeiras… é só “inveja”,rsrs. Se calhar já não vou vê-las dar amêndoas… não faz mal, vêem os descendentes. Inté. L.F.

  16. Luis: Isso já parece a lenda das amendoeiras….rs. Mas elas mesmo pequeninas já florescem, portanto ainda vai vê-las por muitos anos e até pintá-las…. Isso é que é uma Junta de Freguesia bem organizada. Abraço – Palma

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *