UM BUSTO DE CARNE E OSSO

UMA ALENTEJANA, ILDA PULGA, EMPRESTOU AS FEIÇÕES E AS FORMAS

À REPÚBLICA PORTUGUESA

 

Pouco depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, foi entrevistada na televisão, um mulher de 82 anos que, se não possuía um discurso muito fluente, dava ainda mostras de grande vivacidade e guardava na expressão e nas posturas uns fortes lampejos de beleza física quase magnética. Chamava-se Ilda Pulga, nascera na vila alentejana de Arraiolos, vivia desde os 18 anos na capital quase sempre trabalhando como costureira – e era a República em carne e osso.

Imitando o exemplo francês, os republicanos portugueses, logo após o triunfo de 5 de Outubro de 1910, desejaram possuir um símbolo nacional com forma feminina, semelhante à Liberdade pintada por Delacroix. Encarregaram então dessa tarefa o escultor Simões de Almeida, que escolheu a jovem e bela Ilda, para modelo. Todas as tardes, a rapariga radiante e atrevida, ía posar para o atelié do artista.

Perdeu-se-lhe em seguida o rasto. A própria República seria em 1926, sepultada pela Ditadura Militar e, em 1933, pelo Estado Novo. Salazar baniu os bustos das repartições públicas

onde tinham estado presentes durante uns poucos de anos como símbolo equivalente à bandeira verde – rubra e ao hino nacional A Portuguesa.

Ilda Pulga morreria em 1993, com 101 anos, sem deixar descendentes, esquecida de todos, num tempo em que a República Portuguesa restaurara já as suas liberdades quase duas décadas antes, mas não desenterrara das arcas da memória este belo símbolo material de cerâmica pintada.

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Fonte: “365 dias com histórias da História de Portugal” de Luis Almeida Martins.

Foto do busto da República: “Blg Formigarras “.

Foto de Ilda Pulga na oficina de trabalho de costureira em Lisboa – Blg. Cinco Tons

 

 

 

 

8 comentários a “UM BUSTO DE CARNE E OSSO

  1. Que pena, morreu práticamente esquecida na Lisboa onde viveu toda a sua vida. Na capital da República !

  2. Foi no reinado do Professor Cavaco e naturalmente não lhe ligaram pois certamente não vestiria a sua camisola. Uma tristeza. Mal agradecidos. Se não fosse a República hoje seriam uns paspalhos a trabalhar nalgum buraco por aí. Fernando LL

  3. Gostei de saber quem era afinal a mulher corajosa para a época, que se disponibilizou para servir de Busto à República. Uma costureirinha. Que esteja no Céu . Flor de Liz

  4. Fiquei a saber que a Snr. Ilda Pulga, costureira e alentejana deu o rosto à nossa Republica. Viva a República .

  5. MARCHA DA PATULEIA DO VITORINO :

    O Centurião voltou
    Não quero ouvir falar nele
    Haja quem lhe roa os ossos
    Haja quem lhe curta a pele

    Vem numa chaimite d´oiro
    Traz capacete de prata
    Crescem-lhe os cornos de toiro
    Numa cabeça de lata

    Nem D. Miguel em monóculo
    D. Maria a segunda
    Caceteiros só em Caxias
    Razão tem o Povo e muita

    Trago notícias do Norte
    Já o Povo se a levanta
    Forquilha e mosquete na mão
    Pela liberdade santa

    Maria sem número à frente
    Da fonte a água jorrou
    E mais ninguém os parou
    Desde o Nascer ao Poente

    Sem bandeira e sem posto
    Já fazem tremer o chão
    Trazem na boca um gosto
    De sabor a insurreição

    De pata ao léu não te picas
    Oh Portugal sem governo
    Daqui só arredo pé
    P´ra irem ao meu enterro

  6. Neste 5 de Outubro de 2014 o Presidente da Republica disse o seu discurso esciondido dentro da Câmara ? Porquê ? Tem medo de enfrentar o Povo ?

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